Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.
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2 de outubro de 2008

NOBREMENTE SÓ

Desgostoso, dorido das pesadas — antes de ser homem, tudo é pesado — negativas da vida, ou então, místico, sonhador, com o virá e a felicidade entrelaçados num canto desgarrado com o murumar, planava pela vereda, marginal e despovoada.
Nunca prescindi da ausência de outro, vital, primária; desde que sou convive em mim com a paixão do encontro, do reconhecimento no conjunto, da apetência do reparo. Escrevo agora porque me esqueci — escreve-se porque o momento passou-se, torna-se hoje por traição —, meus braços, saudosos desse universal amplexo em que tudo era próximo, possível e ridente. Cada burgo se redescobria, e as conchas, e enormes rochas, e as histórias de mar e marinheiros e pescadores, o Gilreu, a barra: «Que lindo que isto é!».
Transbordava de algo que retesava o coração, apertava a garganta, o que era?, saudades?, de quê, se não vivera ainda? Prenúncio? Maledição? Ou ser... só?

7 de Junho de 1995

F. Ligure

O RATO

A paciência, persistência: invejava-o. Dia raro o que a praia não lhe registava o passo. Amiúde, as marcas de ontem cotejavam as da hora, solitário pesquisador da restinga ondulada, botas, ensebadas rara vez, traçadas de salitre, calças de ganga fina sob entrevisto pijama de felpo.

Traços curtos, fortes, deixava a haste de laranjeira duriense, na busca, ansiedade, do encontro, do mistério, da fortuna tímida entre ramagens quebradas, vazias latas de azeite, de óleo, de pilhas verdetes, de plásticos multicores, marcas de amores sem fruto, fruta esventrada aqui, cabeças de sardinha, putrefactas gaivotas adiante, pegajosas manchas de crude omnipresentes.

Sem traço. O «rato» passou-se para o esquecimento, da riqueza não constada, diz-se que pleno de histórias de maresias, de fustigantes nortadas de mistérios indesvendáveis, ligados porventura — dizia-se — aos achados macabros: inúmeros membros humanos decepados, de infelizes embarcados?, de ajustes?, às cartas acusatórias de paixões interditas, a, sabe-se lá!, mensageiras garrafas, a agonizantes náufragos que lhe confiavam empenhos últimos.

23 de Maio de 1996

A PRAIA

Despi a camisola. Estirei-me, trauteei o strawberry fields forever, parti enlevado no sonho antigo da marinha, da viagem e da aventura.

Contas feitas, a paixão do regresso, do momento de rever, era a pedra de toque do desejo. Histórias para contar, lembranças a distribuir, o reflexo da alegria dos outros, tudo era cenário dessoutro gozado querer do repisar as praias, os campos, as ruas da origem. Importante, importante seria a volta.

E do azul frio do mar incontinente que transborda as praias, face a mim, só provinha reforço do querer, abismo de atracção. Da penedia, o desconforto forte da rugosidade, alimentava também a teia saborosa da modorra do sonho. Mudos navios a chamarem ao fundo — a mim que enjoo —, veleiros na demanda da barra, caícos ruidosos em espera de pão, inchados de mar, movidos a braços de labor.

23 de Maio de 1996

F. Ligure