Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.
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9 de dezembro de 2014

O espantoso mundo das línguas... e dos homens

A propósito de: http://linguas.pt/2014/05/15/o-espantoso-mundo-das-linguas/
Publicado por Isabel Rei Samartin no Facebook e dos comentários:

Xose Lois D. Lucio Non será o revés, Isabel ?
Isabel Rei Samartim É o que diz o artigo, eu não digo nada...

E aqui o meu:
Claro que historicamente é o inverso. O português provém do galego e é o nome internacionalizado dessa língua nascida entre o Mondego e a costa noroeste da Península Ibérica. Mas o texto tem mais detalhes "perigosos". Por exemplo: " Há países que têm como língua nacional a língua duma região doutro país (Andorra)." Não é correcto dizer isto, porque Andorra é "dona" também da sua língua, pois aquele território fala catalão de há séculos, provavelmente antes até de algumas regiões da actual Catalunha. Outros erros: “Há países que criaram a sua língua em 1984 (Luxemburgo).” e “Há países que pegam numa língua morta e a ressuscitam (Israel)”. Ora uma língua não se cria por decreto, e o luxemburguês é uma língua muito mais antiga que a data da sua oficialização, assim como não se pode chamar, linguisticamente falando, de língua morta a uma língua que sempre foi usada, escrita e estudada como o hebreu (e o latim). Como se é “morto” se sempre se viveu, pelo menos para alguns?
Importa é relembrar mais alguns conceitos importantes da linguística, ignorados por muitos mas fundamentais, e que nos trazem dissabores nas batalhas de defesa das línguas em que nós entramos, por exemplo: a diferença entre língua e dialecto
não existe cientificamente, ela é produto da História e da política (houve quem dissesse, e bem, que a língua o é porque tem um exército por detrás); outro conceito importante é o da natureza “artificial” de todas as línguas, tal como o esperanto. As línguas são produto humano (repito, como o esperanto), construídas ao longo de séculos pelo homem em comunidade (aqui sim, o esperanto distingue-se, porque foi laboratorial, fruto de estudo individual e proposto como um sistema, totalizante); por último, por agora, uma língua cresce ao longo de séculos, afinando-se pela fala praticada em grupo e apenas mais tarde se reverte em escrita. Entre a sua criação, como fala, insisto, e a sua “transposição” (artificial também) em texto, decorrem por vezes muitos séculos. Daí que os “800 anos da língua portuguesa”, “comemorados” este ano com o aval da classe política, seja criação absurda, tendo mesmo no seu manifesto inicial, que guardo preciosamente, nem sequer citado uma vez as palavras galego ou Galiza*. Como pudéssemos falar de língua portuguesa sem falar do galego, como se a espada de Afonso Henriques (ou do escriba do testamento de Afonso II) tivesse ela também feito desabrochar “das entranhas da Mãe” uma língua nova, imaculada, nascida de um latim que durante mil anos tivesse estagnado à espera desse golpe de génio.
Custa a muitos portugueses, eu sei-o, dizer que a nossa língua nasceu do galego, ao qual se assemelha ainda e muito, essa língua praticada no noroeste peninsular (atenção: não apenas na actual Galiza), como custa dizer que afinal Teresa e seu filho só poderiam ter falado galego, porque galegos eram. Custa, porque o “nacionalismo” que praticam é o do Estado-nação, uniformizador e totalitário, avesso às origens verdadeiras e confusionista, identificando fronteiras com nações e línguas com Estados.
Sei-o porque muitos dos meus compatriotas ainda hoje, na Bélgica, onde ainda vivo, não conseguem entender a férrea disputa dos flamengos pela sua língua. Não entendem como num país bilingue (ou tri) não hão-de os flamengos vergar-se, é o termo, e falar francês (nunca exigem o contrário, note-se). Não compreendem que se a política linguística flamenga não fosse o que é independentemente de excessos claros e criticáveis) toda a periferia de Bruxelas seria hoje maioritariamente francófona. E não o é, por força daquela firmeza. Coloquem-lhes a questão (tema vivido em tempos no Algarve, onde existe uma população residente britânica e anglófona enorme) se aceitariam que a publicidade, em Portugal, fosse apenas redigida em inglês, e veriam os tais nacionalistas remoerem e protestarem.
*Rectificado mais tarde para 800 anos da escrita, mas foi tarde, muito tarde, os "princípios" estavam declarados e marginalizavam totalmente o galego.



13 de novembro de 2014

MONASTERIO DE SOBRADO DOS MONXES, herança nossa.

Sobre:
http://www.galiciaenteira.com/monasterio-de-sobrado-dos-monxes/
ou
https://www.facebook.com/marta.lira.16/posts/10152390856311957?comment_id=10152390856396957


… e por este mosteiro se chega a Bermudo Peres de Trava, da poderosa família galaica (da Galiza que vai até ao Mondego, por isso família “nossa” também), que teve domínios no que viria a ser Portugal (1143, pelo Tratado de Zamora), tendo tido domínios pelas Beiras (Viseu e pela Serra da Estrela).
O seu irmão, o conde Fernão Peres de Trava, foi depreciado pela escola histórica “nacionaleira” portuguesa, que o apresentou como “o galego amante de D. Teresa”, mãe de Afonso Henriques, e partidário anti-independência portuguesa.
Arrumando com a questão do “amante” e do galego, diremos que D. Teresa era viúva na altura e que era galega, como galego nasceu o primeiro rei de Portugal, e como galegos (galego-portucalenses, se quiserem) eram todos os que passaram a ser “portugueses”.
Quanto à “traição” de Fernão Peres de Trava cai pela base. As lutas eram constantes entre interesses e senhorios e só assim se compreende a luta entre Afonso e a sua mãe Teresa. Nenhum deles possuía uma consciência nacional, como hoje a sentimos, quer de natureza “portuguesa”, quer de fidelidade ao Reino chamado de Leão, de fala galega. Fernão, aliás, é referenciado (em Mattoso, por exemplo) como tendo voltado à corte portuguesa e colaborado com o reino nascente.
Portanto, cara Amara Castro Cid, muito obrigado pelo excelente artigo que nos traz de volta um mosteiro que também é “meu”… tanto como Alcobaça ou S. João de Tarouca. E é “meu” porque quem o fundou e desenvolveu é da mesma estirpe, cultura e língua que a maior parte dos meus antepassados (às tantas de todos, mas não posso saber!).
E porque não organizamos uma visita a esse e outros mosteiros e afins para 2015?
Uma aperta.

27 de julho de 2012

25 de Julho, Dia da Pátria Galega, minha também

A pergunta de oiro (aquela que encerra a resposta)

- Que língua falas, ó Afonso Henriques?
A assistência (de várias origens e tempos) emudeceu. Que pergunta tão estranha e a despropósito.
Então o homem é de pai francês, que quase nem conheceu porque morreu quando ele tinha 2 anos. Francês, não deve ser portanto. A mãe, Teresa (Tareija), vinha do além-Minho; essa falava com certeza galego.
O tutor (aio), fosse ele o Egas Moniz ou o outro, como diz o Mattoso, provinham da zona de Lamego (a sul do Minho), aonde tinham senhorios, e ali, à época, escrevia-se em latim, é certo, tudo o que era oficial. Mas que língua falariam eles?
Alguém, semiletrado, que estudou em Portugal nos manuais da ditadura até 74 ou nos seguintes, até hoje, timidamente, diz:
- Português?
Um, da actual Vila da Feira, mas que viveu no século XIII, sem pejo, questiona:
- Português? Que é isso?
E continua:
- Eu sei que falo o mesmo romance que os da Costa da Morte, de Braga, do Ferrol, de Ponferrada, de Amarante e de toda esta região. Disto estou seguro, porque andei por ali em feiras e assim acontecia.
Um arrepio percorre a parte da audiência mais de sul do Minho e do séc. XXI.
- Nunca pensei nisso!, diz um comerciante.
- Pois, devíamos falar igual, porque se até a poesia se escrevia da mesma forma!, disse um académico.

Foi preciso Afonso, o Rei, que achou estranha e anormal a pergunta, dizer:
- A minha fala é a da minha Mãe e meus avós e da minha corte, onde fossam os da Maia, os Travas, os Monfortes, os Sousas, que raio!
Num canto, envergonhados pela insciência geral, Rodrigues Lapa, Afonso Castelao, Carolina Michäelis e outros eruditos do XIX e do XX, dizem em coro:
- Arre, que demoram a perceber!

Com a minha falta de jeito e saber, mas com a dedicação antiga, profunda e arreigada à causa da galeguidade, que é a minha e devia ser a de todos os que falam esse galego moderno e culto, que é o português, e com uma aperta irmã aos de cima-do-Minho, com quem fazemos Nação.
No dia da Pátria Galega, ou seja, tão meu quanto o 10 de Junho, 25 de Julho de 2012.

13 de janeiro de 2010

Portugal e Galiza, do interdito ao crucial

publicado em:
As Artes Entre as Letras, quinzenário cultural, de 31 de Dezembro de 2009;

e na net:

Portal Galego da Língua:
http://www.pglingua.org/index.php?option=com_content&view=article&id=1662:portugal-e-galiza-do-interdito-ao-crucial&catid=3:opiniom&Itemid=80, com comentários em:
http://www.pglingua.org/foros/viewforum.php?f=8

Vieiros, Galiza:
http://www.vieiros.com/columnas/opinion/1065/portugal-e-galiza-do-interdito-ao-crucial;

A Cidade Surpreendente, de Carlos Romão:
http://cidadesurpreendente.blogspot.com/;

Trabalhadores do Comércio - Iblussom, banda rock:
http://iblussom.blogspot.com/2010/01/portugal-e-galiza-do-interdito-ao.html

Nortadas:
http://www.nortadas.blogspot.com/

Barcos do Norte, Associação para a Preservação, Defesa e Estudo do Património Marítimo
http://barcosdonorte.blogspot.com/

--- X ---


Portugal e Galiza, do interdito ao crucial
- um texto incómodo (a Norte e Sul do Minho) de cultura, de política

1.
Para o comum dos portugueses, o galego e a Galiza representam uma particularidade étnica e uma região entre outras, em que uma gaita-de-foles, as Rias Baixas e um bom marisco fazem quase toda a distinção para com o restante do Estado espanhol.Para alguns outros compatriotas, com alguma formação escolar, trazer-lhes-á uma remota ideia de uma literatura comum (a poesia trovadoresca), de algum relacionamento actual num tal de Eixo Atlântico, entremeado de alguns clichés sociais (o aguadeiro em Lisboa, o carregador na Ribeira, o trabalhador incansável) e talvez um preconceito histórico ligado a uma Mãe galega, Teresa, que perdeu uma batalha com o filho insubordinado que assumia pela primeira vez essa condição "superior" de português fundador, o "primeiro".

2.
Uma ditadura iníqua no século XX, uma Inquisição sanguinária (ainda que o Porto apenas tivesse tido um Auto-de-Fé, contrastando com as centenas em Lisboa e, sobretudo, de Évora e Goa) e um nacionalismo centralista afirmado sempre contra a imperial Castela, poderosa e ali ao lado, ajudaram a criar e a manter alguns dos grande mitos fundadores "nacionais", todavia vigentes, apoiados num desconhecimento que se encosta mais ao comodismo intelectual das ideias feitas do que a uma ignorância, também verdadeira, etária, geográfica e socialmente alastrada.Portugal, na sua vertente histórica de Condado Portucalense, despega-se do restante da Galiza por um acto, comum à época, de afirmação senhorial em relação a um suserano de quem não poderia já tirar vantagens, antes pelo contrário, já que toda uma Reconquista para sul prometia terras a perder de vista e levas de vassalos contribuintes. Com essa independência (do Reino de Leão), que dura há quase 900 anos, em que desenvolve as suas capacidades próprias sociais, estruturais, psicológicas e linguísticas, chega ao que é hoje: senhor de uma História rica e de uma língua pluricontinental de poder crescente.Mas a questão que sobra, ignota de muitos e relegada (por medo das consequências que poderia produzir e secundarizada pela iletrada tecnocracia vigente) é saber qual é nossa matriz cultural essencial?Nascemos do nada? Temos Viriato (que viveu seguramente a maior parte da sua vida em território hoje de Espanha) e os lusitanos (povo do qual nem sequer sabemos a língua que falava) apresentados como substrato nacional, porquê?Talvez a necessidade de afirmação nacional do ex-condado e do Portugal da altura obrigasse a um "desvio" no rigor dos nossos historiadores, comum a muitos povos, para fugir a uma verdade que poderia ainda abalar a nossa frágil independência? Talvez?A "lusitanização" de que se fala com muita frequência ao norte e ao sul do Minho, foi uma etiquetagem. Os portugueses encontraram no termo "lusitano" o mito genético para construírem uma independência mais segura. Pensariam que mantendo o cordão umbilical galego estariam mais sujeitos a uma intervenção da Grande Espanha (com Castela dominadora), que tinha absorvido a Galiza a norte do Minho, pois poderia induzir-se pretensão anexionista futura.Creio que foi esta a astúcia que permitiu justificar um Portugal, nascido do "nada" e "inventor" de uma língua que "sem origem" (a não ser o latim, apagando quase mil anos de História), e, por isso, Castela não tinha justificação nenhuma para impedir um povo/língua/cultura tão "diferente" do resto da Península, de ser independente. Recordemos, de passagem, que é o Cisma do Ocidente (1378-1417) que impondo a adaptação das estruturas eclesiásticas às estatais da altura, provoca de facto a separação política "final" entre as duas regiões.Mas porque é que hoje, integrados numa Europa que nos garante, valha-nos isso!, a paz e a segurança internacional, não retomamos o caminho da ciência e da verdade históricas e não afirmamos sem peias que Portugal é de matriz cultural essencialmente galega?Porque não se diz claramente que o galego é a nossa língua de partida, aquela de onde brotou a nossa variante, desenvolvida, apurada e internacionalizada, chamada português?Porque se persiste em não explicar desde a instrução primária essa origem comum, insistindo-se em "escavar sinais" de vontade autonómica nos séculos anteriores?As simples manobras de aproximação transfronteiriça, como muito bem assinalou Camilo Nogueira (um dos galeguistas mais esclarecidos na actualidade e que citamos aqui várias vezes), são um processo acomodatício, válido é claro para um relacionamento económico mais forte, mas que não basta para cumprir as nossas obrigações históricas e actuais, e defender o nosso passado e os nossos interesses.

3.
Nascidos antes mas estruturados nos movimentos liberais do século XIX, os Estados-nação já culminaram a sua função destruidora da diversidade política e nacional interna (CN). O conceito de que a um Estado, de fronteiras reconhecidas, corresponde uma nação de per si, com a lógica da jacobina igualdade cidadã e uma imposição de jure de uma língua comum, "aprofundando" assim a necessidade dessa comunidade linguística, "naturalmente " aceite, isto é, imposta por uma centralização, levaram, por exemplo, na França, à quase destruição, pelo menos ao aniquilamento político, da Bretanha, da Alsácia, da Córsega, do País d'Oc, e de outras nacionalidades, mais umas que outras, sobrevivendo ainda uns restos de sentimento nacional "recuperável" na ilha mediterrânica.Em Espanha, pese os esforços de Castela, três nações conseguiram resistir até hoje, mantendo não apenas as suas línguas nacionais, mas também acesa a chama nacional e a vontade de perseguir os desígnios próprios a cada nação, a soberania à cabeça.A ideologia "nacionalista" do Estado-nação (o pior dos "nacionalismos", porque disfarçado de supranacional) projecta sobre as nações internas a acusação de pretenderem a constituição de nações etnicamente uniformes, contrapondo a ideia de povo à de território, que seria a própria de Estados como o espanhol, que teriam assim os atributos da pluralidade, da diversidade e, incluso, da mestiçagem e da democracia (CN).Na Galiza - ou não fosse tão igual a nós - existe uma situação de impasse, motivada, é certo, pela pressão terrorista de um centralismo avassalador, mas sobretudo por um movimento nacionalista preso a um esquerdismo - que é a doença infantil do galeguismo - que recusa abrir-se a outras camadas sociais ou que indistingue luta nacional e luta social, prejudicando gravemente um objectivo próprio, horizontal e acima de qualquer outro (acima, disse bem!), dando a volta, mas cedendo no fundo (e ainda com C. Nogueira) ao marxismo dogmático de Hobsbawn que qualifica os nacionalismos das nações sem Estado, como um fenómeno historicamente transitório, identificável com os interesses das burguesias, à maneira do que, em Portugal, deve ser o pensamento de um Bloco de Esquerda sobre esta questão, ou de outra "esquerda", mais larga e novo-rica que confunde o ser do mundo com a perda empobrecedora da personalidade própria (CN).

4.
Na Galiza, o eixo principal pelo qual a luta nacional tem de passar, e que "beneficiou" neste momento do ataque desenfreado do espanholismo linguístico (que acusou os nacionalismos de querer impedir o bilinguismo, quando o problema é exactamente o inverso) é o da língua.O nacionalismo, presa ainda do conceito maximalista atrás citado e, nalguns sectores, ainda de um isolacionismo (bem burguês (pequeno), aliás) hesita em tomar a peito esta questão, armando-se da coragem dos Pais Nacionais do galeguismo político (primeira metade do Século XX).Se ser nação é assumir a possibilidade de construir um Estado. mais verdade ainda é ser nação é que a língua própria seja indiscutivelmente a língua nacional" (CN). E esta, o galego só a pode cumprir cabalmente, se for aglutinadora e cimento de um povo, se se lhe der a continuidade histórica necessária, aquela que o galego enquanto tal, remetido durante muitos séculos a língua apenas oral e rural, não pôde beneficiar, mas que o galego, enquanto português, se temperou, tornando-se não apenas língua literária de larga produção mas ainda língua pluricontinental, a quinta mais falada no mundo (maternal).

Citamos o mais conhecido galeguista português, até hoje, Rodrigues Lapa:
Certos indivíduos, arvorados em linguistas, ignoram ou fingem ignorar a diferença entre vários tipos de língua: a que falamos no trato quotidiano, propriamente a fala; a que empregamos na escrita; e a que é mais elaborada e usamos na literatura. As duas pontas desta cadeia são obviamente a fala e a língua literária. Não é lícito confundi-las. O processo da língua oral é simples: uma vez lançada a mensagem, o signo é esquecido; mas o enunciado literário não morre por ter servido, "está feito expressamente para renascer das suas cinzas e tornar a ser indefinidamente o que acaba de ser", assim escreveu Paulo Valéry.A recuperação literária do galego padece de um erro fundamental: a transplantação pura e simples da fala corrente para o texto dos livros. Não é assim que se forja uma literatura.

Considerar o galego como parte integrante do sistema linguístico galego-português-brasileiro, com o nome internacional de português, aproximar radicalmente (em sentido próprio) o galego escrito da norma portuguesa-brasileira, enriquecer a nossa língua comum dos milhares de vocábulos e expressões galegas, eis o caminho a percorrer: o que falta.

Bruxelas, 17 de Dezembro de 2009

Joaquim Pinto da Silva (galego do sul, português do norte)

2 de junho de 2009

Galiza: À Espera de quê? De Godot?

Esta manhã, um colega do ensino da minha especialidade, filho de galegos mas que se criou no Brasil, me comentava espontaneamente: se Portugal tivesse o poder da Inglaterra, os galegos estariam felizes de ser "ingleses". Nós isso há tempo que o sabemos. Mas o resto do pessoal também se decata. Talvez esse papel, de alguma maneira, cumprirá-o Brasil.

e,


com certeza que será o Brasil, e em isso coincido ao 100% com Ferrin: de Portugal nom podemos esperar nada.



Comentando estas duas transcrições de galegos em blogues reintegracionistas, dos quais não questiono a sinceridade pessoal:

O único papel que interessa aos galegos que alguém represente ...é o deles própios.
Se os galegos se confundem no caminho, se se invejam, se se perdem em minudências e não atacam o essencial... então a culpa é só dos galegos.
Porquê "esperar" por Portugal? Porquê "esperar" pelo Brasil?
Antes esperem... pela Galiza, por aquela que é rebaixada por esquerdismos doentios e ideias de grandeza (curiosamente) imperiais.
Sim, imperiais!
As de uma Galiza pura, livre do pecado universal do expansionismo mas que rouba também ela o nome (e o conteúdo) aos do sul do Minho, seus proprietários consuetudinários como eles.

Essa Galiza do Sul, chamada irreversivelmente Portugal, é nisso tudo a continuidade dessa Galiza "imperial". Também por cá, há os que não sabem por quem esperar e os que se crêem senhores do Verbo.

E mesmo no Brasil, alguns desses "imperiais" ousam falar já há muito em "língua brasileira", e repetem até à exaustão a sua origem cultural sincrética, que a têm por certo, mas cujo objectivo central é apagar a grande matriz cutural que é a deles: a galego-portuguesa. “Somos de origem africana, italiana, japonesa, portuguesa, polaca, etc.” E aquele “portuguesa” lá pelo meio apenas quer dizer em concreto: renegamos esse povinho e esse território, pobre, claro, imperceptícvel na carta do mundo.

E mais, atiram (ainda hoje) para cima do colonialismo português todas as misérias de que sofrem, como se a floresta amazónica estivesse ainda a ser destruída pelos galegos do Minho, o tupi-guarini estivesse a ser destruído pelos galego-beirões, e as favelas a ser construídas pelos galego-transmontanos.

E essa atracção ao Brasil feita pela via do "tropicalismo" e de uma certa falsa multi-culturalidade brasileira (porque a há a sério também), de roupagem "altermundialista", perfumada de castrismo e chavismo reaccionários, "onde sambar é melhor que trabalhar", essa atracção têm-na também algumas élites dessa Galiza do Sul, nomeadamente os centralistas de Lisboa. E pelos vistos alguns de a norte do Minho.

Oh que tão parecidos são os galegos do norte aos do sul!
Sempre à espera de Santiago, ou Prisciliano, ou Sebastião, mas tão longe do caminho progressivo e revolucionário da tolerância e do labor quotidiano, o único que pode dar frutos.
O esquerdismo balofo e radicalizante de aparência é, na actual Galiza e em Portugal e Brasil,a doença infantil do galeguismo. É um inimigo tão importante como o imperialismo cultural de Madrid, Lisboa, Brasília/Riop/S. Paulo e... Santiago.
Construir uma galeguidade moderna, por certo solidária e humanista, passa pela tarefa primeira e primária de agarrar na “arma” da língua e calibrá-la para a mesma “bala”, a de uma escrita da nossa fala contratada consensualmente, que respeite as diversidades dos 5 continentes, e que acerte em cheio no grande separatista: das ideias imperiais que nos dominam.

Acorda Galiza!

Bruxelas, 1 de Junho de 2009
Joaquim Pinto da Silva

27 de outubro de 2008

Galego ou português, que língua falamos?

Encontrar a pergunta certa é quase resolver a questão
Síntese de reflexões no debate sobre a denominação da nossa língua, no seguimento de uma polémica na internet

Sabemos que o chauvinismo (os exageros dos nacionalismos quando se fecham) é um defeito que nos chega a todos, mesmo sobre a simples forma de "o cozido à portuguesa é o melhor de todos os cozidos". Daí que todos temos sempre de estar alerta com este defeito que prejudica e muito o nosso combate.
1. O galego nasceu na Galiza – facto – mas a Galiza onde ele nasceu é geograficamente também a minha (que sou do Porto). Quer o galego, quer o termo Galiza são também meus, e não falo apenas de filiação linguístico-cultural (onde caberão todos os falantes das variantes galegas e portuguesas da nossa língua comum) mas sim de herança térrea, telúrica como gostam de dizer alguns.
2. Não é correcto dizer que o galego Condado Portucalense se afastou da nação, da mesma maneira que não seria correcto dizer que a Galiza actual não quis seguir uma parte da Galiza histórica no seu caminho para a autonomia. Não há "crime", nem "pecado", nem sequer "erro" no facto de uma parte da Galiza lutar e conseguir a independência, nem tampouco de uma outra, a setentrional, não o conseguir e ficar Casteladependente.
A História fez-se assim, os povos não são melhores uns do que outros e muito menos neste caso em que se trata(va) de um único povo com a mesma matriz cultural.
A "lusitanização" de que se fala com muita frequência ao norte e ao sul do Minho, foi uma etiquetagem, porque a cultura portuguesa é e será sempre de matriz galega. Os portugueses encontraram no termo "lusitano" o mito genético para construírem uma independência mais segura. Pensaram que mantendo o cordão umbilical galego estariam mais sujeitos a uma intervenção da Grande Espanha, que tinha absorvido a Galiza a norte do Minho.
Creio que foi esta a astúcia que permitiu justificar um Portugal, nascido do "nada" e "inventor" de uma língua que não tem origem e por isso Castela não tinha justificação nenhuma para impedir um povo/língua/cultura tão "diferente" do resto da Península, de ser independente.
Talvez a "mentira" tenha ajudado a fazer Portugal independente, talvez? Mas hoje, tal não se justifica. Do lado de cá do Minho temos de colocar na História a sua verdade: Portugal é de matriz cultural galega e a sua língua é o galego.
3. Temos então, de responder à questão "qual nome deve ter no futuro a nossa língua", pois é claro para todos que neste momento há dois nomes para a mesma coisa: galego e português.
Se, de um lado, há o termo galego (que repito, é também meu) que se funda na História e na raiz, do outro, há o português que também se funda na História e no desenvolvimento da língua no tempo.
De outra maneira: galego é o nome que é correcto do ponto de vista da origem e do respeito (abstracto) pela génese da língua; português foi a solução encontrada pelos independentistas (muito depois da independência, diga-se) para se autonomizarem mais em relação a uma Castela que impunha o asfixiamento à Galiza a norte do Minho e que poderia encontrar naquelas afinidades com Portugal mais motivos para a anexação total da Ibéria.
Por último, abstraindo a Galiza norteminhota do resto do noroeste peninsular, "se" o galego norteminhoto não tivesse sido proibido e perseguido e, portanto, tivesse tido a evolução "natural" que todas as línguas em condições de dominante e liberdade sofrem, seria com certeza uma variante muito próxima do português actual.
"Se" Portugal tivesse sido anexado por Castela, o português (o galego sulminhoto) estaria hoje muito próximo do galego actual, ou seja, o galego seria nesta altura porventura muito mais uniforme de Ribadeo e Ponferrada a ? (sim, interrogo-me porque não sei até onde iria a resistência linguística de certos habitantes de algumas regiões meridionais em relação ao castelhano).
Repito: o que resta é saber como chamar à língua e como a vamos escrever na Galiza ao norte do Minho:
- olvidando séculos de História da Grande Galiza (da Cantábria até ao Mondego) unida?
ou
- olvidando séculos de História do Portugal independente desde o XII até hoje?
Serei brutal pondo o tema assim. Pois sou, mas a resposta repito é política agora, isto é, qual a opção que será mais fácil e eficaz a tomar?

Bom, espero ter-me bem explicado, mas acreditem que quero é contribuir para a aclaração da questão, porque esta, só sendo totalmente aclarada, explicitada, poderá ter uma resposta segura e certa.
E como se depreende – creio e espero – do que disse, a pergunta poderá ser linguística, mas a resposta vai ser, sem dúvida alguma, política.

Um saúdo galego deste galego portucalense, do Porto mesmo.

Joaquim Pinto da Silva

1 de junho de 2006

Via Galego, na liberdade, na democracia e na nação

(artigo publicado na revista: ...)
A Milagros Francisco, de Ourense, amiga de quem perdi o rasto, devo o primeiro discurso galego firme e estruturado, nos finais dos 70’s ou inícios dos 80’s, por Vila Real e Porto. Galeguista mais firme desde então, tenho tido a oportunidade, que em Portugal é escassa, bizarramente escassa!, de conviver com meios galegos nesta capital da Europa, onde vivo há 22 anos, como que confirmando a patológica expatriação da galeguidade militante, porventura necessitando sempre da ausência para se impor plenamente.
“A afirmação, … a apologia da emigração como força civilizadora”, lição retirada pelo escritor português, Eça de Queiroz, desde 1874, e absolutamente esquecida (desprezada até) no seu próprio país, tem exemplaridade assertiva com os milhares de galegos espalhados pelo mundo.
Se é certo que a importância cultural da emigração galega para com a pátria foi de monta, o mesmo não se poderá dizer da portuguesa para com o seu país. Esta, salvo excepções ligadas ao exílio político directo dos anos sessenta e setenta e a um Brasil de fins do XIX e princípios do XX, nunca teve a força de intervenção e de influência na origem como o tiveram, por exemplo, a comunidade galega de Bons Ares* para com a terra-mãe**.
2006, ano da Via Galego, por certo a mais importante iniciativa político-cultural na Galiza dos últimos tempos, dada à luz, cremos e esperamos, sem inocência, a 25 de Abril, promete recolocar a questão da língua no centro de todos os debates, porque a língua não é um problema da Galiza, a língua é o Problema da Galiza, como repetiu Xavier Alcalá aqui em Bruxelas há alguns dias.
E porque somos poucos ainda, ou para sempre (?), os que recusamos uma galeguidade formal regional e que antes a afirmamos como identitária para um futuro moderno, progressivo e no contexto das outras nações, há que congregar nesse pleito todos os que aceitem como bandeira primeira o atrás dito.
E nesse entendimento, como não pode deixar de ser, a emigração não pode ficar de fora, sob pena de se repetir o pernicioso erro histórico romântico de confundir univocamente cultura e língua com um território preciso (aqui estamos já no centro do “tufão”, onde as rotações centrífugas lançam céleres todo o tipo “soluções”, mas a que voltaremos noutra oportunidade, se ma derem).
A nação é a verdadeira e única porta para o universal, e não o País ou o Estado. O universal é o local – a aldeia, a nação – sem os muros, diz-nos Miguel Torga, e para um mundo equilibrado, pacífico e respeitador dos direitos do homem só a nação, entidade com uma língua, uma cultura e um sentimento partilhado de pertença a uma mesma comunidade, pode ser o trampolim e não fórmulas herdadas de partilhas territoriais, respeitáveis, por certo, mas anacrónicas em relação à sociedade global que, de sempre, as forças de progresso pretenderam, e que não podem agora renegar.

Produzida uma abrangente síntese de história da língua, haveria que colocar à mesma mesa, as forças de cultura galega activas, nas variantes conhecidas de propostas para o futuro da língua (todos os ismos, “ais” e “óis”), numa reunião “desarmada” e onde o caminho, a partir daí, sim!, se encontraria por ele próprio (alusão machadiana propositada).

Depois de recebermos por cá a Santiago Jaureguizar, Antón Lopo, Yolanda Castaño, José Luís Fontenla, Marga do Val, Victor Freixanes, Uxia Senlle, Miguel Anxo Fernan Vello, Santiago Veloso, Xavier Queipo, Isabel Rei, Francisco Iglésias, Xosé Manuel Beiras, Carmen Adan, Xoan Mao, Manuel Rivas, Adela Figueiroa, Luís Bará, Miguel Varela, Camilo Nogueira, o nosso balanço é claro: há diferentes opiniões e mesmo radicalismos nas estratégias políticas da língua e galeguidade, que importa agora amenizar, sem apagar. A Galiza está por em cima, como se diz a noroeste, e seguro que a prática da liberdade que a cada galego e galeguista cabe por inerência, haverá de apontar o caminho que a mátria da língua galega (e portuguesa) há-de perseguir e prosseguir.
E se de resultados já, imediatos, me falam, relembro-vos a parábola do velho plantador de nogueiras: perguntou o príncipe ao camponês porque plantava nogueiras, se já não tinha anos de vida para lhe comer o fruto.
A resposta sabem-na vós.

Joaquim Pinto da Silva
Bruxelas, Junho de 2006

*Buenos Aires, como servilmente dizemos em português, mas, curiosamente, traduzimos Nova Iorque, Londres, e tantos outros topónimos.

**Notemos por exemplo que desde os anos 70 que Paris é a segunda cidade “de Portugal”, tendo chegado quase ao milhão de portugueses, e que nunca teve, até há pouco, um único jornal de língua portuguesa na comunidade, e, por contraste, as dezenas de jornais em russo e ucraniano que de Norte a Sul de Portugal hoje são editados por comunidades bem menos numerosas que aquela.

1 de junho de 2004