Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.
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7 de dezembro de 2018

José Manuel Ramos Penafort Campos (1949 / 1987)




Álbum de Gratidão
Entre os que foram e os que estão, invocando as suas acções positivas a favor da comunidade, aquela a que pertencemos e para a qual os aqui chamados são ou foram exemplo.                           6.12.2018

Tertúia com jantar
José Manuel Ramos Penafort Campos
(1949 / 1987)
Após uns anos de afastamento, pós acontecimentos de 74 até 76, reencontramo-nos num acaso; daqueles que a vida nos oferece, envolto no mistério que essa palavra “acaso” traz consigo (o poeta disse que não os há, mas antes encontros).
Dizia eu que, esse fulminante reencontro, no ano de 1986, nos trouxe, à Fernanda e a mim, a alegria renovada pela retoma de relações por quem nos sentíamos próximos: a Joana e o Zé Manel Penafort.
Recordo-me bem da última refeição que tomamos juntos na vossa casa: bacalhau assado, por ele, na lareira da casa.
Falamos de muita coisa, mas não no passado, que queríamos ambos não esquecer, mas deixar para mais tarde, quando o saber que o tempo traz, nos alumiasse melhor a memória.
O tempo não apaga. O tempo tapa, até que vem uma brisa e destapa.
E acertamos um reencontro em lugar afastado. Onde?
Em Viena de Áustria, caso o nosso F.C.Porto chegasse à final europeia, conforme esperávamos.
Aproximava-se a data e o Porto somou as vitórias necessárias para chegar ao Pratter , em Maio de 1987.
Pelo telefone, eu de Bruxelas, ele no Porto,  acertamos a coisa: encontramo-nos lá e tu arranjas os bilhetes para 9, que eram os que iriam de Bruxelas para Viena em carros próprios, ficando uns dias mais para visitar a cidade.
A data mais perto, 27 de Maio, tudo acertado, iria receber pelo correio os prometidos bilhetes.
E surge o fatídico dia 19 de Maio. Um pesaroso telefonema da nossa Joana e uma bomba rebenta nos nossos ouvidos e transmite-se ao corpo, aos meus, à casa.
Passaram-se uns dias, poucos, a vida impassível no seu curso, e a realidade era lembrada pelos amigos que se juntariam a nós em Viena: 7, distantes do acontecido, mas respeitosamente silenciosos face ao ambiente pressentido, sabendo nós que a viagem estava programada, hotéis reservados.
Teria sido entre 21 e 23, uma carta, bem volumosa, chega-me às mãos no serviço. Reconheci a letra, 9 bilhetes ali estavam capeados por um papel manuscrito onde se podia ler:
“Até os comemos!
Vemo-nos em Viena!”
Em Viena nada foi velório, tudo foi, quase, contagiosamente festivo.
Ele queria-o, e acho mesmo que o vi, do outro lado do estádio, a esbracejar e a gritar:
“Comemo-los!”

28 de março de 2017

A Minha Foz e Eu, de Inácio Sousa - Apresentação



No passado dia 19 de Março, à tarde, no Café Moreira, apresentou-se o livro, "A Minha Foz ... e Eu", de Inácio Sousa.
Foi uma sessão inesquecível quer pelas (mais ou menos) 200 pessoas que ali estiveram (muitas não puderam entrar), quer, e sobretudo, pela emoção ressentida por todos, pois falava-se da Foz da infância e juventude de muitos de nós e reencontravam-se amigos que de há muito não se viam. Presidiu o Presidente da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogile, Dr. Nuno Ortigão e apresentou o livro o Dr. Joaquim Pinto da Silva (Quim-Zé para os da Foz), Presidente da direcção de O Progresso da Foz.
Segue aqui o seu discurso:
Apresentação da obra "A Minha Foz… e Eu", de no Inácio Sousa
Café Moreira, Foz do Douro, 18 de Março de 2017
Senhor Presidente da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, Dr. Nuno Ortigão,
Senhor Óscar Melo, proprietário do Café Moreira,
Dr. José Valle de Figueiredo, insigne figura das letras pátrias, poeta, ensaísta, director de um dos projectos mais valiosos desta zona, a Foz Literária, e eminente membro de O Progresso da Foz
Saúdo desde já outros ilustres membros de O Progresso da Foz
José Fernando de Magalhães, companheiro permanente das nossas aventuras,
Américo Basílio da Costa, discreto e eficiente acompanhante permanente,
Maria João Alvarez, autora do diaporama
Raul Simões Pinto
Francisco José
Jorge Nicolau
Natália Lamela
Luísa Marques
Paulo Soares
Patrícia Pereira Alves
E os do passado:
Vítor Simões
Agostinho Pereira
António Cardoso
João Carvalho (saudoso)
Caros amigos,
Este coração da nossa terra, a Senhora da Luz, que alguns enganosamente intitulam apenas de comercial, vive é claro do negócio, do comércio, do compra e vende tão necessário às nossas vidas. Mas esta artéria é muito mais do que isso.
Não é apenas o nome de uma rua. Quando dizemos vamos à Senhora da Luz, entendemos um conjunto de ruas, travessas e comércios diferenciados que nesta via confluem.
Por aqui passamos muita da nossa infância, adolescência e maturidade.
Por aqui regatearam as nossas Mães e os nossos Pais preços, compraram o necessário e se passearam, saudando amigos e passantes, detendo-se nas esquinas em conversas sobre tudo e nada, apanhando eléctricos (ai que falta!) para a Baixa ou Matosinhos, em momentos repetidos que, lembrados por nós hoje, recordamos com saudada … essa coisa que mistura choro e alegria e nos consola e desconsola à vez.
Quero, em nome de O Progresso da Foz e no meu, fazer uma saudação sentida e forte a todo o comércio da Senhora da Luz e proximidades.
Todos ganhamos com a sua presença passada e actual. Da Ângela, ao Morgado Sobrinho, às Farmácias, da Távi, à Marlu, ao Teddy, à Fernandes, ao Rocha, à Fontluz, ao Sousa, ao Morgado, à Jomar e por aí adiante, todos, mas todos, merecem o nosso apreço. Servem-nos no que precisamos, estimulam a rua e as nossas vidas, dão cor e alma a uma artéria que é parte de nós. A Senhora da Luz somos nós, a Rua É Nossa.
Uma outra saudação vai para esta casa em que agora estamos. Do saudoso fundador António Moreira, até à família Melo, o Café Moreira foi cenário importante para muitos de nós.
Lembro com saudade a simpatia do Domingos Melo, desaparecido cedo, demasiado cedo, e que com certeza gostaria de ver esta casa cheia e por esta causa que aqui nos traz. No filho, Marco Melo, saudamos a memória do Pai.
Vínhamos e vimos aqui para o cafezinho? Claro!
Mas para muito mais que isso. Aqui conversamos, aqui lemos, aqui namoramos, aqui conspiramos. E entre o cimbalino e a conversa, crescemos e convivemos, esse verbo tão necessário hoje como ontem… mais hoje que ontem, apetece-me dizer.
Ao amigo e Senhor Óscar Melo, os nossos parabéns e o nosso agradecimento por nos abrir as portas todos os dias e, em particular, hoje, para uma sessão especial e inovadora que pensamos no futuro repetir.
Saúdo de passagem o Jorge Pinto, o Alexandre, o Agostinho e todo o restante pessoal do Café, pacientes e simpáticos amigos que nos servem.
Estou certo que todos os frequentadores desta casa, os idos e os presentes, estão contentes pela injecção de acção e memória que esta apresentação traz.
Recordo de imediato um ilustre visitante: o António Rebordão Navarro e, soletramos as suas palavras aquando de umas festas de S. Bartolomeu, pela voz do Álvaro Cardoso

(Leitura de um texto de A. R. Navarro, por Álvaro Cardoso)


e mais alguns perfis intelectuais - foram tantos! -, o Vasco Graça Moura, o Domingos Pinho e muitos outros conhecidos por isto ou aquilo, a Rosa Mota, Fernando Gomes, Miguel Cadilhe, o Zé Vilela, Artur Santos Silva, Carlos Lança, Belmiro de Azevedo, Pinto da Costa, Torres Couto, etc. (aliás referenciados muitos aqui no artigo de Raul Simões Pinto e Cláudia Sanhudo) que aqui ganharam com certeza alento para a vida e para obras futuras.
Hoje, o que nos junta é mais do que uma apresentação do livro do Inácio. Hoje comemoramos a nossa vida nesta terra. Nós, os daqui e os que vieram depois (foi e será sempre assim), e os que passam – que seria desta terra sem os que passam? Os de fim-de-semana, os que vinham a banhos, os que instalam aqui seus negócios.
E falo desta terra e falo, portanto, do livro do Inácio. São a mesma coisa.
O livro é uma recordação daqueles que cita e dos que não cita, porque o Inácio não podia falar de todos… e eu também não posso. Todos são muitos, meus caros!, e nem eu quero aqui ao lembrar uns se diga que esqueço outros.
Nuns… estão todos.
Porque, por exemplo, se falar de Domingos Sousa, irmão do nosso autor, é impossível que, com sentimento, não recorde muitos outros: o Nelinho, o Quim Viana, o António Reis, o Paulino.
Se falar do mar é recordarmos todos os banheiros magníficos destas nossas praias, é falar do Rui Picarote Amaro, cronista da Barra da Morte, e de outros Picarotes, o pintor da Foz, que semeou a Foz em telas, e mais um, o Joaquim, o relançador das festas de S. Bartolomeu.
Falar do Fernando Lereno é como falar de todos os Fragatas.
Se falo do Penafort Campos, como não recordar a Cooperativa da Foz, o José Augusto de Castro, um herói, o Pires Baptista, o meu Pai… o Joaquim Valonga que tantas dores de cabeça nos deu… algumas vezes com razão?
Se falo do Monteiro, como não lembrar o Fernandes, o António Morgado, o Lino Santos?
E dos vivos – felizmente – as centenas de pessoas do comércio, destas casas que cruzamos em passeios cheios de gente. Dos condiscípulos das escolas (da Feira, da 85 – a Reis, como dizíamos, da D. Alzira, da D. Cândida, da Violetinha), das associações da Foz, a Academia de Danças e Cantares, O Paraíso da Foz, O Orfeão, a Escola Dramática, a Banda Marcial, a Associação da Pasteleira, o Luís Marinho, os Pauliteiros de Nevogilde, o F. C. da Foz, o Tennis da Foz, o Centro Social, a JOC, e… espero não me ter esquecido de nenhuma (Há ainda as desaparecidas, o União da Foz, os Merengues, e outros). Tanta história para fazer!

(Leitura de um texto do livro, por Carlos César)
“Esta rua era a “passerelle” da Foz. Era aqui que eram feitas
grande parte das compras do dia-a-dia. Era aqui que a maioria
das pessoas se encontrava para um simples, mas sincero “bom
dia”, para uma troca de palavras mais alongada, para falar sobre
o tempo, sobre a vida, uma boa ou má notícia, sobre elas próprias
ou sobre alguém, amigo ou conhecido.
Podemos afirmar sem exagero e até com certo orgulho que,
naquele tempo, nesta parte da nossa freguesia, toda a gente se
conhecia. A vivência era intensa e havia uma certa cumplicidade,
mesmo até entre pessoas de estratos sociais e níveis etários diferentes.
Havia respeito, mas não submissão.”
Diz-nos o Inácio neste trecho, lido pelo Carlos César, aquilo que todos nós sentimos da infância até agora.
Jogar futebol na rua e descalços, mas ir aos arraiais do Colégio Inglês; ir ao estádio da Ervilha apaparicar o árbitro (e, pior ainda a Senhora sua Mãe) e ir às matinées do Au Rendez-Vous d’Elite; respeitosamente estar na Missa do Galo e rasgar vestidos de papel no S. Bartolomeu; espreitar as envergonhadas minhotas e durienses na praia e pegar na Cruz no Compasso; comprar tules no Morgado e línguas-da-sogra no Caneiro; e por aí adiante.
Podíamos não gostar do perfume da senhoreca passante ou do sovaco do trolha – que bons tempos tive! – mas a convivência era a lei, o conhecimento mútuo o alicerce.
Outros assuntos, tratavam-se noutros palcos.
A Rua era Nossa, de todos.
É também isto o A Minha Foz e Eu.
O quadro conhecemo-lo de cor. Recordámo-lo como se fosse hoje e lamentámo-lo como sendo de ontem. São os nossos mortos que desfilam perante nós. A emoção é grande, vai pelo menos do Castelo ao Gilreu, e aqui o poeta tem toda a razão: “ó mar salgado, quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal”. Mas apetece-me (e Fernando Pessoa que me perdoe) dizer…
“ó mar salgado, quanto da tua voz, são lágrimas da nossa Foz”.
Este livro chora. Connosco!
E, com a voz do Óscar Oliveira, lembramos o tom do nosso, mesmo nosso, Mestre, o grande Raul Brandão
(Leitura de um texto de Raul Brandão, por Óscar Oliveira)
É que o autor deste livro traz-nos a Foz integral, como o saudoso pão da Modelar.
Não estou aqui para substituir a vossa leitura (e a vossa compra, pois sem ela, a vossa compra, não haverá mais livros sobre a Foz e mais momentos como este) e o prazer que ides ter ao folheá-lo.
Este livro é essencialmente de pessoas (e por isso faz parte da colecção Pessoas). O autor procede, fruto de memória e de inquérito trabalhoso, a um inventário minucioso dos habitantes deste grande quarteirão (da Senhora da Luz, de S. Bartolomeu, da Praia e adjacentes), porta a porta, ilha a ilha, palacete a palacete.
“Olha este! Já nem me lembrava dele!”, dissemos nós na primeira vista d’olhos. E dessa até à última, foi sempre a lembrança e o coração “a bombar”, como se diz hoje.
Saudosistas? Claro, como o grande Pascoaes que entendia a saudade como motor para novos e maiores feitos e não como fado para carpir.
Desses tempos, diz-nos o Inácio, pela voz da Beatriz:
(Leitura de um texto do livro, por Beatriz Pinto da Silva)
“Eram dias felizes, de um são convívio e constante entre todos.
Não tínhamos telemóveis, mas tínhamos contacto pessoal diário.
Não telefonávamos. Íamos a casa uns dos outros.
Os nossos pais, ou mães, não nos levavam à escola. Passávamos
pela casa de cada um e íamos em grupo de três ou quatro.
Não dominávamos, porque ainda não existiam, os comandos
da televisão, do MP3 ou os ratos dos computadores, mas tínhamos
criatividade, porque éramos nós quem fazia grande parte dos brinquedos
que utilizávamos.
Não tínhamos os jogos de computador, que “obrigam” as crianças
de hoje a ficarem sós durante horas em casa, mas fazíamos jogos
em que quase todos participavam e que nos divertiam imenso.
Não éramos só nós, individualmente, mas um grande grupo.”
Este sentido colectivo sempre realçado na obra leva também o necessário condimento do elogio aos que se destacam, aos que cumprem mais que o seu dever e se entregam a nobres causas solidárias ou servem a comunidade com os seus haveres.
Fala-nos, por exemplo, do patriarca Biltes, herói salvador de muitas vidas junto do farolim aos Pilotos, de Eduardo Honório de Lima, dono do Teatro de S. João.
E por falar em teatro, Inácio Sousa desvenda nesta obra o mistério do Teatro Vasco da Gama. Sim, esse que deu o nome à rua, e cujo proprietário tinha dado também nome a outra rua, a do Gama, actual Rua do Diu.

Mas há mais. O profundo respeito pelas pessoas e instituições não impede um queixume, o sentido crítico …
(Leitura de um texto do livro, por Emília Parente)
« O tempo passa e as coisas transformam-se por vezes para
pior, e na década de 60 do século passado, construíram aquela
coisa chamada de Rua Coronel Raul Peres, cujas obras se prolongaram
por quatro ou cinco anos. E podemos dizer com amargura,
com tristeza profunda, com um sentimento de enorme frustração,
que uma parte muito pitoresca, muito querida da nossa Foz, ficou
ali sepultada para sempre debaixo daquela imensa massa de betão.
Ficaram entaipadas aquelas casas com aquele enorme bloco
de cimento tornando-as sombrias, e cinzenta a paisagem defronte
às suas portas e às suas janelas.
Desapareceu o muro sobranceiro à praia onde nos sentávamos
para conversar, para aguardar a nossa vez de entrar num jogo
de futebol ou outro jogo qualquer. Desapareceu a Rua da Praia
da qual olhávamos as praias, a areia dourada, o mar sereno ou
revolto com os seus vagalhões enormes desfazendo-se em espuma
contra a penedia. Hoje está transformada numa simples viela, num
caminho de serventia.”
E mais à frente o cómico das situações pelas quais todos passámos… mais ou menos:
(Leitura de um texto do livro, por Agostinho Pereira)
“Um dia, onde mudavam a agulha defronte ao Castelo, saltei
para o estribo da porta de trás e lá ia todo contente até à Escola.
O eléctrico começou a ganhar velocidade e o cobrador saltou da
porta da frente e correu na minha direcção. Aflito também saltei,
mas de tal modo que dei uma cambalhota e bati com a nuca no
chão. Fiquei de tal forma desorientado que ao levantar-me em vez
de fugir para o lado contrário, corri foi em direcção ao cobrador.
Agarrou-me, deu-me um raspanete e queria levar-me preso. Chorei,
disse que não voltava a fazer, e ele lá me deixou ir embora.
Mas menti-lhe, porque no dia seguinte voltei às “beguinhas”. Era
tão bom ir de carro eléctrico até à Escola.”
E relata-nos ainda o autor, em passagens simples mas impressivas, as experiências profissionais. Sempre, mas sempre, grato a quem o ajudou e ensinou…
(Leitura de um texto do livro, por Zé Marques)
“Fiz o exame da 4.ª classe em 16 (?) de Junho de 1956 com
a média de 14 valores. Como “prémio”, tive três meses de férias.
E como “prémio” ainda maior, comecei a trabalhar (necessidade a
quanto obrigas) na Ourivesaria Sousa, em 9 de Setembro de 1956,
com a “bonita” idade de 10 anos, quando ainda devia andar a brincar
com brinquedos que não tinha.
Devo dizer-lhes que tenho muito orgulho de ter trabalhado
nesta casa perto de dezasseis anos, e creiam que apesar de ser
ainda um garoto quando aqui entrei, e dos ralhetes e tabefes que
levei, foi dos melhores períodos da minha vida, por aquilo e da forma
que aprendi, pela formação, educação e noção de valores que
me foram transmitidos e que ajudaram a formar o meu carácter.
Permitam-me agradecer ao Sr. Eduardo Sousa, aos filhos
António e Licínio (principalmente), e aos meus oficiais, José Coimbra
e Rochinha (uma referência)”
Caminhamos para o fim. As palavras de Agustina Bessa-Luís, pela voz de Álvaro Cardoso

(Leitura de um texto de Agustina Bessa-Luís, por Álvaro Cardoso)


E de novos caminhos estamos precisando.
Esta nossa Foz precisa de mais histórias, de mais heróis, de mais livros, de mais Inácios. Precisa para além disso, de vós todos.
E usando versos de José Valle de Figueiredo
“De que demanda se parte
ao iniciar-se um novo descobrimento?”
Nem títulos, nem haveres, nem pareceres, a demanda é só uma, aquilo que se encontra ao ler este livro do nosso Inácio Sousa: a felicidade, que é o que vos desejo a todos.
Agradeço a vossa paciência e atenção.
Joaquim Pinto da Silva

27 de novembro de 2014

Rui Picarote Amaro


in memoriam
Como devias detestar ficar preso em casa, enquanto as ondas vinham e iam e o teu Douro descarregava água e mais água naquela barra que conhecias como poucos. Uma vida a navegar, sobretudo em terra, a perscrutar horizontes na cata de veleiros, na restinga a ler os sinais das marés, no farolim a argumentar com outros marítimos, na Cantareira a ver os últimos caícos e os últimos sáveis. Sempre, mas sempre te verei assim: indagador, curioso, homem de saber e de ensinar.
Acabou. Perdemos-te e perdemos um pouco mais do nosso “norte”, aquele que nos levava a uma Foz do Douro profundamente fluvial e marítima e que vai desaparecendo inelutavelmente.
Deixas-nos herança: ”A Barra da Morte”, livro admirável sobre as tragédias da embocadura do Douro e ainda os inúmeros textos dos blogues que animavas.
Quanto saber, quanta paixão e quanta humanidade!
A Rua da Cerca, toda a Foz chora porque se foi um seu amante generoso, um Bom.
Assim estou eu.
Um abraço para sempre, Rui.
QZ
(os teus blogues:
http://naviosavista.blogspot.be/
http://opilotopraticododouroeleixoes.blogspot.be)

10 de junho de 2010

De Menino da Foz para Homem do Mundo

Apresentaço: Sábado, 26 de Junho, às 18,30 h no Hotel da Boa Vista na Foz, Esplanada do Castelo, junto ao Castelo da Foz. Edição de O Progresso da Foz.



Se a literatura prescindisse daquelas histórias simples onde as narrativas surgem despojadas, puras e sem ornatos, perderia por certo poder, influência e também parte da sua capacidade de atracção. Remetida às construções complexas e elegantes e à profundidade da evocação e da reflexão, cedo seria pasto do tédio e do enfado, por força da falta de alimento que lhe advém do contacto com o mundo e com essa outra literatura, oral ou escrita, plena de temas, de imagens e de aliciantes caminhos.
O livro de José Rosas Nicolau de Almeida, Um Menino da Foz, a sair em breve*, faz parte dessas insubstituíveis crónicas em que se a escrita não é de academia, a narração essa, em estilo simples e quase oral, nos prende e deleita.
O Zé, oriundo de “família da Foz”, amarrado às teias sociais próprias àquele meio, conta-nos em linguagem da época, a história da sua vida, desde os bancos da escola da D. Ângela e das Mademoiselles governantas, até à passagem pela enologia – uma paixão de família, vê-se! – e à vida de emigrante em França.
Retrata-nos, com um humor imparável e original as peripécias próprias e, em muitos casos partilhadas por toda uma geração (dos anos 60) de uma localidade (a Foz do Douro): as suas frustações, indecisões, desesperos e derrotas, entremeadas pelos momentos também inesquecíveis das alegrias, das loucuras e transgressões, férteis naquele tempo de conflitos sociais e de gerações e de mudanças.
Essa vivência juvenil e adolescente, a passagem pela guerra em Angola (onde “esperavam o dia inteiro pela noite, e, à noite, iam para a cama cansados de esperar"), a emigração como necessidade e o encontro com o amor são as marcas principais de um trajecto rico e vivido que conflui, de forma natural nesta colorida narrativa, numa maturidade que se enraíza na coragem do afrontar das opções.
No cenário da Foz, do Porto, de Portugal e da Europa, um relato sincero, comovente e cheio de humor de um filho da "alta", como o autor se diz, que “se fez à vida” por si e que triunfa naquilo que é, deveria ser, o elemento de procura essencial do Homem: a felicidade… "não deixando de ser quem é".

Joaquim Pinto da Silva

5 de dezembro de 2008

Organizador e editor da brochura Mar, para o Grupo de Teatro Dos Fragatas Futebol Clube, aquando da representaçao da peça O Mar , de Miguel Torga.




3 de outubro de 2008

Uma grande proposta, Castelo da Foz

Uma grande proposta

I — O FUTURO NOS ABSOLVA!
Junho/79 — N.º8

(Primeiro de alguns artigos sobre a preservação e aproveitamento do Forte de S. João Baptista, vulgo Castelo da Foz)

As ervas cresceram por todo o lado; as ameias encontram-se desfalcadas de bastantes pedras; vários canhões vêem-se aqui e ali ao abandono carcomidos pela ferrugem; o lixo amontoa-se nos cantos e nas vetustas celas e salões com seu cheiro pestilento; o madeiramento roído ameaça desabamento a qualquer hora; espalhados por todo o lado encontram-se peças de pedra (capiteis de coluna, altos relevos) deslocadas dos seus lugares originais e assoladas pelo homem; mesmo as placas evocativas bastante mais modernas, se encontram deterioradas e ilegíveis. E a isto se poderá chamar uma visão optimista do estado actual em que se encontra o Castelo da Foz.
Numa situação invejável, com uma história já secular e de certa monta, o Castelo da Foz tem vindo a se transformar, por força da destruidora mão humana e da ignorância e egoísmo das consciências actuais, num montão de ruínas e destroços a que ninguém dará a mínima importância dentro de algum tempo.
Desconhecido o seu interior, para já não falar da sua história, pela maioria esmagadora dos habitantes da freguesia, o castelo possui características de situação e de planta de rara importância, no passado como no presente. Na embocadura do rio Douro, antigamente batido a oeste pelo mar, dominava com grandes horizontes toda a vida marítima das proximidades, tudo levando a crer que juntamente com o lugar da igreja terem sido os centros da vida pública de séculos atrás, e ponto de partida para o povoamento célere das terras mais a norte (Carreiros).
Amolecida a sua importância militar, generalizada a todos os castelos e fortins, pela modernização constante dos meios de guerra, tornou-se rapidamente e daquele ponto de vista (militar), num edifício inútil a que a única serventia a dar era a de serviços administrativos ou trabalhos afins, o que veio a suceder há uns anos atrás com a instalação de um posto de Telegrafia, até que, mais tarde, se deu o abandono completo do Castelo pelos militares, que contudo mantêm a tutela sobre o mesmo.
Algo nos parece, no entanto, certo; a manter-se o estado actual de abandono, a degradação do nosso bonito e principal monumento histórico crescerá até atingir consequências de momento imprevisíveis.
O PROGRESSO DA FOZ ao abordar o assunto pretende lançar desde já o alerta à população e propõe-se alvitrar propostas, não apenas de preservação, como até de aproveitamento do mesmo.
Dentro desta ideia o repto fica no ar: que todos os interessados, técnicos ou simples entusiastas, que tenham propostas concretas para o aproveitamento, manutenção e restauração do Castelo, como também todos os que possuam documentação (livros, fotografias, etc.) sobre o seu passado e presente, que nos contactem de forma a se conseguir uma conjugação de esforços para levar a cabo a tarefa proposta.
A nossa resposta ao amorfismo das gentes e à passividade das instituições será a de fazer a confluência das vontades, de forma a que o futuro nos absolva dos desvarios cometidos pelo passado mais próximo e pelo presente.

II — UM CASTELO COM HISTÓRIA
Julho/79 — N.º9

Lamentavelmente, as nossas disponibilidades não nos permitiram ainda «construir» a história do Castelo na base da análise e do estudo de documentos, informações e vestígios originais.
Contentar-nos-emos, portanto, em sistematizar certas opiniões e ideias já publicadas, de forma a darmos uma ideia geral e o mais correcta possível, das origens e da vida deste forte, hoje infelizmente desprezado.
Se os seus alicerces e a sua estrutura assentaram por sobre os restos de um convento Beneditino, ou sobre a ex-igreja matriz da freguesia, é problema que está longe de ser resolvido e, quiçá, nunca o será.
Está mais ou menos assente que foi iniciada a sua construção em meados do século XVI mas que apenas na Restauração, no reinado de D. João IV (século XVII), o seu aspecto se alterou transformando-se mais ou menos no que hoje se nos apresenta, ou seja, uma fortaleza costeira com uma certa importância e aparência.
Precisamos de não esquecer que a sua função principal era a de proteger a entrada da barra e que, nessa altura, a nossa cidade possuía já o segundo porto do país. Também convém mencionar que o castelo era bem mais alto de muralhas do que se nos apresenta hoje, para além de ser circundado por profundos fossos defensivos, e que tudo isto foi alterado pela moderna (seria a melhor?) urbanização que o rodeia e também pelas alterações à entrada da barra.
Em períodos convulsos da nossa História teve o castelo papel activo e importante. Em 1640 e alguns dias após o início da revolução anti-castelhana (1º de Dezembro) foi o castelo cercado pelas gentes da Foz e da cidade para expulsar os partidários de Castela que se encontravam no seu interior. Em 1808 partiu dali «o primeiro (?) grito de «revolta» contra os invasores franceses a mando de Napoleão. Na guerra civil que opôs liberais e absolutistas (1832/34) serviu de prisão ao Duque da Terceira e outros destacados liberais, tornando-se mais tarde num bastião destes últimos quando do famoso Cerco do Porto.
Se muitos pormenores da longa vida do nosso castelo ficam por dizer, e muitos motivados pela nossa ignorância do assunto, fica-nos no entanto a certeza de ter dado alguns dos tópicos mais importantes sobre o mesmo, para que especialistas e amadores se debrucem e completem (haverá algum dia alguma completada?) a sua história.
Continuamos aguardando o contacto dos leitores que pretendam participar neste movimento em prol do Castelo da Foz, da sua preservação e aproveitamento. A nossa proposta, que virá a lume em breve, é apenas, como o próprio nome indica, uma proposta; destina-se a ser discutida acrescentada, alterada, ou mesmo rasgada, mas que na sua vez saia uma outra ideia e acção que salve aquele nosso monumento das mãos do pior dos vandalismos: a inconsciente mão do Homem. Como disse Herculano algures e a alguém: «Salvemos o passado, que o presente, esse perdido vai; e oxalá que o abismo não engula também o futuro».

III — LEVANTEMOS UM CENTRO CULTURAL NA FOZ
Agosto/79 — N.º10

(Terceiro de alguns artigos sobre a preservação e aproveitamento do Castelo da Foz)

Continuando a nossa intervenção sobre o assunto, passaremos hoje à especialidade da nossa proposta. Tentaremos responder, não exaustivamente, às tradicionais questões — O quê? Para quê? Como? —, não sem antes reafirmar que neste tipo de movimento cultural e comunitário, mais do que nenhum outro, o carácter democrático e não definitivo de uma proposta deve ser realçado, por forma a obtermos uma discussão alargada ao maior número de pessoas dos mais variados quadrantes sociais, profissionais, etc.
Qual é então o futuro que propomos para o nosso castelo, outrora lindo e imponente, e hoje transformado em hortas, galinheiros, reservatórios de lixo, etc.?
O nosso ponto de partida foi não só o degradante estado de manutenção do imóvel mas também a constatação da necessidade da existência de um centro cultural nesta zona, fixo, dinâmico e atractivo. Um centro que fosse ponto de encontro da população com a cultura, quer pela produção de actividades, quer pela fixação e recepção de outras, e que pudéssemos apresentar aos visitantes nacionais e estrangeiros como um local bonito, condigno, respeitável e útil.
O espaço interior do Castelo é enorme e ao pensarmos na sua transformação imaginamos logo um sem número de actividades e instalações que gostaríamos de ver em funcionamento e de que iremos citar algumas que pensamos ilustram melhor a nossa ideia, ajudando à sua compreensão.
— Uma biblioteca com sala de leitura que aglutinasse aquelas que se encontram dispersas pela freguesia, e não só, e que se encontram fechadas;
— Uma sala de espectáculos grande e moderna, adaptada a cinema, teatro, conferências, etc.;
— Uma sala-museu que expusesse às vistas dos visitantes a história desta região, enquadrando-a na história pátria, referindo as personalidades que nela nasceram, se referiram ou passaram;
— Um salão de exposições, adaptável quando as não houvesse a sala de convívio (com possibilidade de ter esplanada e bar).
Etc., etc.
O atrás dito que fique apenas, repetimos, como mera referência às potencialidades inumeráveis que o Castelo da Foz possui.
Também se depreende que a adaptação do Castelo da Foz aos fins visados, implica, obviamente, uma imediata acção de preservação e embelezamento interior e exterior, tornando-o no local aprazível e frequentado a que tem direito.
O nosso objectivo principal é dotar a Foz com instalações culturais, que não possui, públicas e dinâmicas, de forma a quebrar a modorra que paulatinamente se vai apossando de nós nos ambientes fumarentos dos cafés, no conforto da casa e no individualismo da ganância. Aliás, estamos crentes que o próprio movimento que por certo se gerará possui uma importância incomensurável, capaz de transformar o «sonho» em realidade.
Não ficamos ainda por aqui. No próximo número daremos com certeza um passo concreto para metermos mão-à-obra, pois temos uma ideia, ainda que vaga, da forma como começarmos. Até lá sugerimos que nos contactem, dando sugestões e ofertando-se para uma lista de voluntários (que publicaremos caso se justifique) para esta imensa tarefa, avisando desde já certas consciências que nenhum empreendimento válido foi ainda levado a cabo sem que nos seus alicerces estivesse a argamassa da ousadia.

IV — O CASTELO
Setembro/79 — N.º11

Parte do legado de Henrique Moreira poderá ser património do futuro Centro Cultural da Foz do Douro.

Como apoio à nossa proposta recebemos o primeiro gesto efectivo de encorajamento. Os filhos do escultor Henrique Moreira manifestam desejo de algumas obras de seu pai, particularmente as ligadas ao mar e à vida marítima, virem a ser expostas no Centro Cultural que, segundo nossa proposta, deve ser instalado dentro do Castelo da Foz.
O legado de Henrique Moreira, por decisão da Assembleia Municipal do Porto, com o acordo dos herdeiros legítimos, ficaria exposto numa Casa-Museu a instalar no antigo atelier do mestre escultor. No entanto, e porque sabem estar a interpretar a vontade do (infelizmente) falecido pai, seus filhos mostram-se interessados em intervir no sentido de algum desse valioso espólio pertencer ao nosso futuro Centro. Do andamento desta questão daremos informações aos nossos leitores nos próximos números.
De qualquer forma, trata-se de um gesto que nos impele teimosamente para a frente, sugerindo desde já aos nossos leitores que estejam a par da nossa proposta (inserta nos três últimos números) e que com ela concordem (total ou parcialmente) que nos manifestem por escrito esse apoio e que tentem mesmo materializar esse apoio me sugestões e/ou acções como a acima descrita.
A nível oficial, a quem solicitamos todas as referências possíveis acerca da história e da situação do Castelo, temos recebido provas inestimáveis de interesse e compreensão pela nossa proposta. Desde a Repartição do Gabinete do Chefe do Estado-Maior do Exército, da Delegação do Norte da Secretaria da Cultura, passando pela Direcção Geral do Património Cultural e pela Repartição Técnica e Direcção do Norte dos Edifícios e Monumentos Nacionais, de todos estes departamentos e respectivos funcionários e responsáveis, choveram informações de grande valor e interesse.
Terminando, dizemos que a primeira fase da batalha, que se iniciou com o n.º8 deste jornal, durará ainda algum tempo e que ficará concluída quando conseguirmos um número razoável de dados, para podermos sistematizar a proposta e quando possuirmos apoios em quantidade e qualidade que nos permitam levar a nossa tarefa a cabo. Neste momento compete-nos aguardar. A palavra está dada aos leitores, às entidades, ao colectivo.
Concluímos o artigo anterior desta série afirmando «que nenhum empreendimento válido foi ainda levado a cabo sem que nos seus alicerces estivesse a argamassa da ousadia».
Convictos disto, não nos assusta nem a massa enorme do Castelo nem a degradação a que chegou. Pelo contrário: é uma batalha que gostamos de travar e gostaremos de ganhar!

V — ALGUMAS DAS RAZÕES QUE A MOTIVARAM
Outubro/79, n° 12

Freguesia populosa, parte integrante da segunda cidade do país, a Foz do Douro encontra-se hoje do ponto de vista cultural, numa situação de atraso e degredo que importa, mais, é imperioso ultrapassar.
O balanço que daremos a público na separata de aniversário que estamos a preparar, dá-nos conta de que somos uma freguesia onde aparte uma ou outra actividade das associações para os seus sócios, nada acontece no mundo da cultura em geral.
Não temos cinema, e o que está mais perto para além de exibições esporádicas, não tem tido o mínimo critério de selecção; não temos um teatro permanente promovendo anualmente peças variadas (não deixamos aqui de referir o valioso trabalho do grupo de teatro do Orfeão da Foz); não temos uma única sala preparada para exposições artísticas e não só; não se realiza há já muitos anos um concerto ou espectáculo de música de qualidade (de referir aqui também, porque é excepção, o valioso trabalho da Banda Marcial da Foz); não se ouve desde há muito tempo uma única conferência ou colóquio nem sequer cursos de alfabetização ou de educação de adultos; não existe uma biblioteca pública, diariamente aberta, etc., etc.
Em resumo, a Foz do Douro é hoje no geral uma terra amorfa, passiva, em que os habitantes minimamente interessados em se distrair e cultivar se dirigem amiúde ao centro da cidade para o fazerem. E quais são os motivos, as causas para que tal aconteça? Do nosso ponto de vista há três razões fundamentais.
Uma relaciona-se com as estruturas do poder actual, que teima em não considerar «em crise» o sector da educação e da cultura, pelo que não lhe dispensa a atenção necessária.
Uma segunda razão, e da qual já aqui temos falado, está na própria população. Com algumas razões mas sem a razão, ou seja, com motivos para algum desânimo mas não para o descrédito total as pessoas deixaram pura e simplesmente de se empenhar nas soluções colectivas e na procura de formação intelectual, para se voltarem individualisticamente para si mesmas.
A terceira razão reside na escandalosa carência de estruturas para a prática da actividade cultural. Como fazer teatro se não há locais minimamente apetrechados para o fazer? E cinema? E exposições? E para instalar uma biblioteca? E dar um concerto, onde?
Como se depreende foi da análise atrás exposta que nasceu a ideia de lutarmos pela criação de um Centro Cultural polivalente na freguesia. Limitamo-nos a juntar a esta ideia uma outra: a de conservar e dar utilidade pública ao Castelo da Foz.
São dois combates diferentes (o da criação de um Centro Cultural e o da preservação do Forte de S. João Baptista) que resolvemos, porque nos pareceu correcto e útil transformar num só. E se não nos deixarem dar a cajadada simultânea nos «dois coelhos», não nos importaremos desde que os «matem» isoladamente.
Como nota final, queremos remeter o leitor para a carta que nos chegou às mãos, enviada pela turma A do 1º ano da 2ª fase da escola 85, na Foz. São documentos como este que nos incentivam a continuar esperando que das crianças venha o exemplo para os adultos.

VI — CASTELO DA FOZ: QUEM ALEGA EM SUA DEFESA
Novembro/79 — N.º13

As técnica publicitárias e propagandísticas da «insistência» e do «martelar», constantes e sistemáticos, aplicam-se aos mais díspares objectivos, que o diga o período eleitoral que atravessamos.
É assim que voltamos à carga com a nossa proposta, ainda na sua primeira fase — divulgação e mobilização, não com grandes novidades e surpresas, mas para retomar a sua defesa, aproveitando ou argumentando contra algumas das opiniões que, felizmente,
aqui e ali, se vão escutando. Uma viragem nesta campanha guardámo-la para o início do ano vindouro, época sempre propícia às reflexões, às tomadas de consciência e, simultaneamente, aos «volte-faces» favoráveis às causas do PROGRESSO.
Diga-se, no entanto, e desde já, que cada dia que passa no nosso Castelo — monumento nacional — há uma pedra que cai, um recanto que se atulha, uma erva que brota por entre as fendas já plenas de raízes. Mas se até agora se poderia invocar o desconhecimento e a apatia, hoje tal não é possível.
O PROGRESSO DA FOZ tem publicado e documentado com fotografias, nas suas páginas, artigos em que se clama pela preservação daquele edifício secular. O nosso jornal tem sido enviado para todos os organismos que de uma forma ou doutra são responsáveis pela sua conservação, não tendo até agora visto um único gesto concreto e efectivo de travar o acelerado processo de destruição do Castelo da Foz.
Responsáveis são também os que permanecem espectadores, seja por medo à grandeza da obra, por apatia ou até à espera que os outros preparem a «cena» para que eles feitos «actores» venham posteriormente colher os aplausos pela obra que não fizeram e pelo suor que não suaram.
Continuamos aguardando testemunhos de apoio e de ajuda, sem os quais nada poderemos fazer. Temos as nossas propostas e ideias sobre a forma de «desencravar« o processo, desde a criação de uma associação de defesa do património, até à realização de debates públicos, passando pela elaboração de filmes e exposições, mas não queríamos dar um passo mais sem que nos sentíssemos apoiados, seguros que a nossa lado está o geral de uma população que quer defender o passado (preservação do Castelo) e que quer viver, com V maiúsculo, o presente (criação de um Centro Cultural).

E de novo o mar galgou a terra


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.Farolim de Felgueiras, desenho de João Nunes
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Quando quero ver o mar, venho aqui.
Não é grandeza que se olhe do rés-do-chão.
Sítio da Nazaré, 10 de Agosto de 1969
Miguel Torga
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.Duelo sempre desigual, repetição sistemática do David-Golias, mais uma vez mãe natureza reduziu seu filho mais travesso e afoito — o homem, à sua condição de espectador manietado e impotente da sua fúria devastadora.
O mar, nosso bem conhecido de há séculos, teima em não se vergar aos ditames que lhe queremos impor. Não há nesga do seu feito, conquistado pela técnica humana, a que ele não responda iradamente, quebrando o cais intruso, arrasando a marginal ou ainda assoreando os portos.
Sobreiras, Cantareira e Passeio Alegre foram o palco onde decorreu a última cena conhecida desta desequilibrada batalha. Levando de vencida o rapinado areal do Cabedelo e a exígua correnteza fluvial, o mar atacou a zona marginal entre o jardim do Passeio Alegre e o jardim do Calem e massacrou sem dó nem piedade o cais, a estrada e mesmo as casas ribeirinhas.
Foram noites e dias de terror vividas por dezenas de famílias, vendo as suas portas, janelas e paredes frontais servirem autenticamente de quebra-mar ao oceano em fúria, numa angústia desesperante entre o vaivém da maré, sempre à espera da fatal hora-onda da tragédia.
A viva recordação desses momentos de pleno sofrimento e de raiva incontida nos gestos e palavras, não deve esvair-se em esquecimento nos períodos de acalmia que se seguem infalivelmente ao mau tempo.
É que a bonança também precede a tempestade...

2 de outubro de 2008

SALAZAR AO LEME?

Publicado no Suplemento Arte, do semanário Matosinhos Hoje, sob a direcção de A. Cunha e Silva



60 anos depois, a interessante estátua do Homem do Leme, provoca uma análise à sua motivação e objectivos. Aqui, sobre a obra, um texto de Agostinho de Campos, o linguísta famoso. Na página 3, outros, do Cardeal Cerejeira ao escritor Teixeira de Pascoaes, todos coevos do monumento e ainda um, de agora, onde se fundamenta uma leitura política e histórica sobre quem, de facto, ia ao leme.



SALAZAR É O «HOMEM DO LEME»
OBRA DE ARTE, SÍMBOLO OU RETRATO?

O nosso amigo e colaborador deste mensário, Rui Souza Roza, publicou no último número um interessante artigo sobre a estátua pública «Homem do Leme» situada na Avenida de Montevideu, Nevogilde.
Porque é sabido que os regimes, mesmo os mais democráticos, ao afirmarem-se, necessitam em absoluto de promover uma «imagem pública», nomeadamente no campo da cultura e das artes, que sirva de suporte, de «justificação» estética (melhor talvez fosse chamar-lhe «estética de justificação») e simbólica à política que promove.
É sabido também que o regime corporativo, oficialmente nascido em 1933 e dirigido por Salazar, foi particularmente cuidado neste campo, sobretudo nos seus primeiros anos de vida em que aos olhos de muitos portugueses, e de inúmeros intelectuais e artistas, aparecia como única solução, única via, para travar os desmandos politiqueiros e a corrupção da República decadente. Exemplo-mor dessa adesão à «ordem necessária» e a um processo mobilizador e congregador foi sem dúvida o SNI (Secretariado Nacional de Informação) com António Ferro à cabeça.
O mesmo aconteceu no domínio da política colonial. Henrique Galvão, mais tarde opositor feroz a Salazar e líder do sequestro do navio Santa Maria, foi um elemento renovador e modernizador da política colonial portuguesa, obviamente na mira assumida de contrapor à descolonização activa nascente na Europa a defesa do status imperial de Portugal, mas nem por isso mais «colonialista» que os caquéticos colonialistas republicanos e «democratas», indecisos e contraditórios, que precederam o 28 de Maio.
Mas, voltando ao que vimos, gostaríamos de acrescentar ao artigo de Souza Roza algo que, dito à socapa, «clandestinamente» ainda, se nos parece curioso se não mesmo revelador desses tempos idos e, afinal, dos presentes, onde tabus antigos permanecem. Analisemos então, rapidamente, alguns dos textos publicados no livro Homem do Leme, de 1938. e aqui reproduzidos, de forma a tentar responder à dúvida do título deste artigo.
O Homem do Leme, para além (ou será aquém?) das palavras do Cardeal Cerejeira, «mais do que uma obra de arte, um símbolo de Portugal», poderá ser questionado na sua génese, como Agostinho de Campos o fez: «Símbolo ou retrato, este Homem do Leme?». E mais longe ainda vai o escritor Antero de Figueiredo: «Jovens, aí tendes o timoneiro... Mocidade Portuguesa: ao Leme!».
Manuel Monteiro fala mesmo de «à parte um detalhe anedótico, superfluamente acusado» para dizer que a proximidade fisionómica entre o retrato e o retratado era escusada, isto é, pela sua carga ideológica vincada, a obra poderia ter outro rosto e a sua mensagem não se alteraria.
Importa ainda salientar a adesão a este movimento pelo Homem do Leme de homens como Teixeira Lopes e Teixeira de Pascoaes. O escultor, mais «técnico», apenas elogiando a mestria do autor. O escritor, um homem profundo e crítico, não ignorando, por certo, a semelhança, prefere quedar-se pela simbologia na sua vertente de emulação patriótica.
É claro que Américo Gomes, nesta sua obra mestra, não escondeu, pelo motivo e o momento, a sua adesão ao regime vigente (aliás, fez o trabalho com a promessa de «ser pago com encomendas futuras» por parte de Henrique Galvão). E, portanto, uma qualquer correlação entre a figura do timoneiro ao leme e a do ditador Salazar, alicerçada, não apenas nos textos e no movimento gerado em torno da sua execução e instalação pública, mas ainda numa comparação fisionómica, parece-nos não ser exagero nem sequer pura especulação.
Não adiantará muito, por certo, à análise estética da obra, nem sequer à ideologia — já suficientemente vincada, como dissemos — mas é provavelmente um detalhe interessante cuja afirmação ou negação solicitamos, desde aqui e agora, aos nossos leitores mais curiosos e conhecedores deste episódio.
Uma coisa é certa: sendo Salazar ou não sendo, o Homem do Leme é obra de arte com valor, marcada no tempo e no espaço e pertença inalienável e a preservar desta Foz, que, tal como o país, não pode nem deve recusar a sua História.

MARÇO’99 — Nº49

Prefácio e foto de A FOZ, ENTRE O RIO, O MAR E A CIDADE

Obra de José Alberto Rio Fernandes

Foz, 30 de Janeiro de 1989





Fotografia da capa (e do convite)

PREFÁCIO

Obra como a presente via bem mais além da anotação de curiosidades ou da compilação do já conhecido e marca mesmo um novo período no estudo da sociedade local. Os ensaios científicos, ainda que possam, e devam, ser apresentados de forma atractiva, como o que tem na mão, são uma necessidade premente nesta parte oeste da cidade.
Não se pode defender eficazmente o património ambiental e arquitectural, nem sequer pugnar pela elevação do nível cultural dos habitantes de uma localidade, sem que estudos sérios, profundos — trabalhosos e densos — porque não dizê-lo! — surjam e permitam encontrar os melhores caminhos a trilhar.
Realçamos ainda a eficácia e a concomitância que a colaboração entre instituições, como no caso da edição deste livro, provoca, sejam elas públicas, Juntas de Freguesia de Nevogilde e da Foz do Douro, ou particulares, Associação de Cultura e Turismo da Foz e O PROGRESSO DA FOZ.
A Foz que queremos estudar, defender e mesmo salvar, necessita em absoluto dos pressupostos anteriores. Não nos afastaremos da sua procura.

A ZONA DO PASSEIO ALEGRE CLASSIFICADA

1979

A zona do Passeio Alegre classificada como "de valor concelhio"

«Entre os muitos valores urbanos e culturais da chamada Foz Velha, assume particular interesse, pela sua singularidade, a zona do Passeio Alegre. Toda esta zona é caracterizada por um somatório de realizações, de índoles e circunstâncias diferenciadas que resultara numa dada harmonia de conjunto que se estende desde o chamado Castelo da Foz (Forte de S. João Baptista, classificado de imóvel público) até à zona dos Pilotos, passando pelos cais da Barra, pelo jardim do Passeio Alegre, de autoria do paisagista Emílio David, pelo chafariz e obeliscos e Nazoni (classificados de Monumento Nacional) e Imóvel de Interesse Público respectivamente)».
Assim se expressaram, em princípios de 1978, alguns moradores da Foz e outros interessados, em exposição enviada à Câmara Municipal do Porto, propondo a defesa da ambiência arquitectónica que rodeia o jardim do Passeio Alegre para que não se autorize a construção de nenhum edifício que destrua a unidade de conjunto existente e que abafe, por assim dizer, os edifícios e ruas antigas que no frondoso jardim desaguam.
Construções em andares como a erguida entre a Rua Bela e a Rua das Motas, «constitui um grave atentado para a escala urbana que se observa do lado do jardim, como prejudica os moradores das habitações situadas nas zonas posteriores que perderam certos ângulos perspectivos sobre o jardim e a barra do Douro e viram diminuídas as condições de exposição solar das suas casas».
«Pretende-se pois, que a Câmara promova a defesa do carácter da zona, evitando — não apenas casos semelhantes em que tal dissonância se torna por demais evidente — que se destruam casas que ainda há bem pouco tempo ofereciam boas condições de recuperação» assim como que em «toda a zona do jardim do Passeio Alegre, entre o Castelo e os Pilotos, se adopte um critério de disciplina urbana visando a preservação da escala existente (começando pelos problemas de volumetria e silhuetas de conjunto) e de carácter arquitectónico dos edifícios».
Com esta exposição (de que temos vindo a retirar extractos) conseguiram os seus subscritores que a zona em causa fosse classificada como de «valor concelhio» em reunião de 21.9.78, da CMP, garantindo assim a sua preservação, e demonstrando como o envolvimento, a participação do cidadão é factor de progresso e consciência.

(publicado n'O Progresso da Foz)

1 de setembro de 2008

Prefácio a Achegas para a História do Molhe de Carreiros, prefácio


Agosto de 1989
(Prefácio ao livro Achegas para a História do Molhe de Carreiros, de Henrique Vieira de Oliveira)


No domínio da política cultural geral e em particular no do estudo, salvaguarda e divulgação do património natural e criado, não acreditando nunca em grandes e excepcionais êxitos, somos, no entanto, obrigados a constatar a existência, na Foz, dum relevante momento de vitalidade neste
campo.
O presente estudo de Henrique Vieira de Oliveira demonstra a absoluta necessidade e urgência de analisar o pormenor — o"misterioso" marco na Av. Brasil — para melhor se compreender o global - a evolução da Foz, a história dos portos e praias do Norte do país; e ainda, que explicando a génese e a existência das marcas históricas, o público leitor estará bastante mais sensibilizado e apetrechado para as compreender e, logo, diríamos quase instintivamente, a respeitá-las e protegê-las.
Tudo faremos para que as obras que vamos editando não sejam simples álbuns de memórias ou "muros de lamentações", mas que funcionem antes como pressão nas autoridades, alerta à consciência de proprietários e construtores de imóveis e apelo ao civismo das populações.

Nevogilde, Foz, 10 de Agosto de 1989.

23 de outubro de 2006

Prefácio ao livro Igreja Matriz da Foz do Douro


(prefácio a Igreja Matriz da Foz do Douro, de Artur Magalhães Basto)
Esquecida dos roteiros turísticos da cidade, embora monumento nacional, a meio d’O Monte, com a Rua das Laranjeiras e a rampa como alcantilado embaraço ao forasteiro, a Matriz da Foz eleva-se por cima da povoação, numa elegância austera e sedutora.
Aquele adro de árvores frondosas, aquele muro rural nas Laranjeiras, a Fonte dos Frades, a íngreme rua do Sacramento, a de S. João que vai desembocar na Cantareira, o Pátio das Japoneiras, toda essa envolvente, com, mais acima, os arcos restantes do aqueduto, que a provia de água, ao cimo de Padre Luís Cabral, representam um núcleo pitoresco e importante da Foz Velha, a bela... a abandonada.
Mocinho ainda, calcorreei por ali, sempre impressionado pelas altas empenas da Igreja e das suas janelas elevadas, e, educado no silêncio e na paz do seu interior, onde minha avó, Rita Leopoldina de Carvalho, e depois minha tia Ana Luísa, se ocupavam com esmero dos arranjos das flores, ganhei para a vida o estreme respeito e amor por esses serenos edifícios que são as Igrejas, em particular esta, a da Foz.
É pois de coisa também minha que trata este livro.

Artur de Magalhães Basto, o autor

Depois do dito sobre o autor, por Manuel Real, no prefácio a “A Foz Há 70 Anos”, de nossa reedição, e porque outra altura e outras edições mais haverá para homenagem mais consistente, apenas queremos referir que, ao ser o professor e escritor devoto e profundo mas aliciante na maneira, ao ser o funcionário zeloso e profícuo que dirigiu o Gabinete de História da Cidade e os Serviços Culturais da Câmara do Porto, ao ser, acima de tudo, o Historiador do Porto, que o necessitava e o merecia, Artur de Magalhães Basto é, por todas essas razões, um historiador de Portugal. Evidência contraditoriamente opaca para muitos, pois a nossa cidade de algumas décadas a esta parte apoucou-se no concerto do país, culpa segura de elites desassumidas, consequência das fraquíssimas gestões da polis, delito certo da abstenção cidadã, esta de tão magníficas tradições locais. À profundeza e à argúcia a que o autor levou os seus estudos sobre a nossa cidade, e sendo esta trave-mestra da e de portugalidade, decorre em honesto discernimento a importância nacional da pessoa e do trabalho de Artur de Magalhães Basto.

As velhas Matrizes

Uma pequena ermida românica dos primórdios da nacionalidade, situada à boca do rio, no local onde existe hoje o Castelo da Foz, foi o primeiro templo conhecido (registado) nesta terra.
Mais tarde, no mesmo local e por cima daquela e cercada depois pelos muralhas do Castelo, e que, segundo Camilo Castelo Branco, ainda em 1647 ali existia, seguiu-se a obra de D. Miguel da Silva, começada antes de 1530, da qual sobra hoje a cúpula da capela-mor e partes de paredes e algumas janelas, e que constitui, com o palácio do mesmo Bispo, também hoje dentro do Castelo, e com a capela-farol de S. Miguel-o-Anjo, o primeiro núcleo de arquitectura renascentista em Portugal.
No intervalo entre a destruição desta, por imperativos do alargamento da fortaleza, e a construção da actual, serviu a Capela de Santa Anastácia, na actual Rua de Padre Luís Cabral, de Matriz.
Em 1734 tinha a presente Igreja o seu retábulo-mor, pelo que se depreende que funcionaria regularmente desde ali, como principal lugar de culto da povoação.

A Matriz actual

O que nos relata Magalhães Basto neste opúsculo (e que noutras obras também aborda) prende-se com as vicissitudes da construção da actual Matriz. A leitura do Mestre, fundamentada nos canhenhos históricos e na sua condensação, é portanto insubstituível, mas, nesta nova edição, pois a primeira é de 1953, haveria apenas que a ilustrar para uma melhor inteligência do leitor e deixar no ar algumas observações e questões que poderão incentivar novos estudos e abordagens do tema e a curiosidade dos olhares, infeliz e normalmente, pouco curiosos dos frequentadores deste ilustre templo.
Frei André Marques de Almeida, sacerdote regular da Religião de Malta, falecido em 1649, merece a nossa homenagem pela razão simples de que a ele se deve o primeiro passo para a construção da Igreja naquele local, ofertando os terrenos e algum dinheiro para o efeito e que é, afinal, do que se trata neste opúsculo, dessa dádiva, das suas condições e do seu respeito.
As suas armas, postas, retiradas e respostas por força da Justiça, no arco de transição da nave para a Capela-Mor, merecem o lugar que ocupam, daí serem a capa do presente.
E na linha do juízo do autor, outrossim as de S. Bento, também em granito, mais exuberantes e trabalhadas, demonstrativas do poder da Ordem, e que por cima daquelas se encontram, até porque foram os Beneditinos que terminaram a Igreja e que a geriram espiritual e secularmente durante muitos anos.
Existe ainda uma réplica destas em madeira policromada no coro, que não nos parece poder ser confundida com o painel de madeira onde as mesmas tinham sido pintadas e que encobriam as de Frei André, pelo que damos esse painel como desaparecido.
Dos dois letreiros, D. Gabriel de Sousa (em S. João da Foz do Douro, uma terra beneditina) já assinalava sobrar apenas um, esse encontra-se na parede à direita de quem está voltado para o altar-mor.
Das missas obrigadas pelas condições da doação nada sabemos, assim como da sepultura de Frei André, que estava no chão da capela-mor em 1645 e que presumimos ali continue, sob a actual cobertura do solo.

O edifício e o seu património

Ainda dentro das finalidades deste prefácio, o de ser interrogante, largamos de caminho a pergunta acerca das esculturas que figuravam nos nichos do frontispício e que eram, em 1780, as de S. João Baptista, S. Bento e Sta. Escolástica, e mais atrás ainda, as de S. Pedro, S. Paulo e S. Bento, substituídas por aquelas aquando do terramoto de 1755, altura em que também se repuseram as desabadas cruzes da fachada e da capela-mor. Tudo indica que a única actual imagem, de S. João Baptista, é trabalho relativamente recente.
Neste sentido, sabemos, pelo Cónego Rui Osório, actual Abade da Foz, “que a uma equipa de alunos da Escola de Artes da Universidade Católica, academicamente acompanhados por professores, estão a fazer o inventário, o mais completo possível, dos bens móveis e imóveis da Paróquia: Igreja Matriz, Residência e Quintal; Capelas de Santa Anastácia e Nossa Senhora da Conceição; Passos, incluindo a Capela do Senhor dos Aflitos.”

Em jeito de termo, o que falta?
E, seguindo as pisadas do Mestre Magalhães Basto e da primeira edição do seu trabalho, O Progresso da Foz entendeu também que esta obra, enriquecida agora com fotografias elucidativas, deveria concorrer também para um auxílio, modesto por certo em numerário, mas importante no alerta e na divulgação, à preservação deste monumento moral e patrimonial da nossa terra.
Das obras que necessita, saberão os técnicos, do auxílio que paroquianos e moradores lhe queiram dar, saberão as vendas deste opúsculo, do que ainda nós, grupo cultural e seus individuais, podemos fazer pela Matriz, anunciamo-lo já: a publicação de uma sua história, o mais completa possível, e, no entretanto, a de um folheto histórico-artístico de larga difusão.

Esta edição, a quem se deve?

Aos herdeiros de Artur de Magalhães Basto, e em particular à sua filha Maria do Céu, generosos e motivadores, ao José Rocha, fotógrafo de engenho, e ao Cónego Rui Osório, pastor de almas e gestor de bens comuns, se está obrigado.
Nós, os d’O Progresso da Foz, apenas permanecemos fiéis ao compromisso de 1978, quando nascemos: pela Foz, no respeito do passado e na modernidade do caminho.

Joaquim Pinto da Silva
Tervuren, 23 de Outubro de 2006

5 de março de 1996

A Foz


(Livro de aniversário da Academia de Danças e Cantares do Norte de Portugal)

FOZ
Camada de sol, camada de salitre
Raul Brandão

Entre pinheirais e um mar revolto, adormecida entre a invernia ruidosa da barra e as mares e os estios calorosos, nebulosos por vezes, mas sempre, sempre, com o olor da maresia levado pela brisa ligeira ou as nortadas agrestes, ei-la, a Foz, a tal "de um rio... mas não de um rio qualquer": a foz do Douro.
Habitada desde há milhares de anos, conforme achados arqueológicos das zonas da Ervilha, Castelo do Queijo e Monte da Senhora da Luz, a Foz aparece registada, isto é, entrou na História, no século XII, com uma doação do rei Afonso Henriques. Era então à Foz, supomos, uma terra mais ou menos aglomerada em torno ou próximo de uma ermida.
A sua população, por certo vivendo da pesca de rio e mar e da agricultura, teria porventura já algum reduzido comércio e relações que lhe advinham da frequentação de embarcações na barra do Douro.
Nevogilde, em 1258, pertencia também ao Julgado de Bouças e possuía 11 casais habitados, sendo a sua actividade exclusivamente agrícola. Da sua Igreja, que sobreviveu até ao século XVIII, D. Domingos de Pinho Brandão descreve-a como pequena, situada a 600 metros para ocidente da actual e hoje completamente desaparecida.
O Porto, no seu progresso económico dos séculos XIII e XIV, séria então uma povoação longínqua, à qual nenhum caminho digno desse nome a ligava. Restava essoutra "estrada", sempre viva e atraente, a mor das vezes perigosa, chamado Rio Douro. Assim comunicou fundamentalmente, mas pouco, a Foz com o Porto e o interior duriense durante centenas de anos.
"A arquitectura moderna em Portugal começa na Foz", tais são as conclusões que as últimas escavações e estudos acerca da Igreja construída por volta de 1527 vêm demonstrar. Esta Igreja, "uma das mais belas criações da Renascença "foi, por razões de conjuntura (mas provavelmente por perseguição política a quem a mandou construir: o bispo de Viseu, D. Miguel da Silva), cercadas quase destruída pela construção do Castelo da Foz, iniciada a partir de 1571.
A Capela-farol de S. Miguel-o-Anjo, o próprio Palácio anexo à Igreja e as colunas e estátua no rio indicativas para a navegação, para além da própria Igreja, são um conjunto único que importaria estudar mais e a necessitar de maior relevo, correspondente à sua real importância.
Nesta altura a Foz andava pelos 1 300 habitantes (para, em 1623, ultrapassar os 1.500), enquanto Nevogilde contava apenas 79, e como ponto de comunicação e comércio e também como posto avançado de defesa cidade do Porto, a sua barra tinha uma importância crescente. Daí as diligências para a construção do Castelo da Foz que apenas apôs a Restauração, pelos anos de 1670, foi concluído.
É originado por essas obras que a Matriz da Foz, funcionando na Igreja do Castelo, se transfere para a Igreja de Santa Anastácio aguardando a construção da nova, iniciada apôs 1640, a meio de uma colina sobranceira à praia fluvial entre S. Miguel-o-Anjo e o Castelo.
Em Nevogilde, a expensas da cidade do Porto, foi construído, em 1661 ou 62, o Castelo do Queijo, sob a pedra que lhe deu o nome e arrancam, mais tarde, as obras da nova Matriz (à volta de 1730), bem no centro da povoação.
O movimento marítimo e os interesses piscatórios da região determinam a construção de um farol no Monte da Luz, junto à ermida lá existente, e que só deixará de funcionar perto de 1930, registando na sua atribulada vida vários melhoramentos e alterações.
D. Maria I faz avançar, em 1790, o piano de Reynaldo Oudinot relativo as obras da barra, nomeadamente o dique-cais entre as rochas de Felgueiras e a Capela de S. Miguel-o-Anjo. Em 1803 estão concluídas.
O Cerco do Porto, que durou cerca de um ano (1832/33), marca um período atribulado na história da Foz e da cidade. No Castelo da Foz, na “Mata do Pasteleiro"(agora a Pasteleira) e sobretudo no Monte da Luz, que servia de defesa da Praia dos Ingleses por onde lhe chegavam os víveres e armamento, instalaram-se os liberais. Do lado do Crasto e da Ervilha, estão os miguelistas, impotentes perante a determinação e a melhor posição daqueles.
Escrava da sua posição geográfica, às portas da progressiva cidade do Porto, a Foz do Douro tem ainda um efémero período de "consagração e independência": entre 21 de Setembro de 1834 e 26 de Novembro de 1836, tem existência o Concelho da Foz, isto é, a Vila da Foz (Matosinhos só o seria em 1909). D. Maria II, naquela data, promulga a lei que íntegra a Foz na cidade do Porto.
Nos anos de 1840 a 1860, vêem a Foz e Nevogilde desfilar pelas suas praias, cafés e clubes, escritores como Arnaldo Gama, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão, Soares de Passos, e tantos outros. Nasce toda a zona intermédia entre a chamada Foz Velha (a norte das ruas Alto de Vila e Cerca) e o Monte da Luz: Praça de Liège, Ruas do Farol, do Teatro, Nova do Túnel, Fonte da Luz, etc. Carreiros frequenta-se e cresce para norte, aproximando Matosinhos, e a estrada marginal Foz-Porto é aberta nos anos 50 do século XIX, criando a opcional à então única existente, a que, vindo da cidade, passava em Lordelo e entroncava na actual Padre. Luís Cabral.
A primeira linha de "carril americano" é aberta entre o Porto e a Foz em Maio de1872, sendo altamente frequentada no período estival. Em 1874 é a vez de o comboio partir da actual Praça de Carlos Alberto e parar em Cadouços, seguindo, mais tarde, também até Matosinhos, atravessando, por túnel, o Monte da Luz e prosseguindo por Nevogilde até Matosinhos, pela que actualmente é a Rua de Gondarém.
Entretanto, a barra do Douro continua como cenário fantasmagórico de naufrágios mortíferos: o vapor "Porto", em 1852, leva à morte mais de 60 pessoas.
A via Foz-Leça é finalmente estrada, "Carreiros" desaparece. A povoação da Foz passa a ter uma relação com Matosinhos e Leça tão forte quanto com o Porto.
Na actual rua com o seu nome, nasce, em 12 de Marco de 1867, o escritor Raul Brandão, que, mais tarde, testemunha esta transmutação da Foz de aldeia a centro de veraneio e povoação já com 5.000 pessoas.
À volta de 1887, o Molhe de Carreiros, que oferecia alternativa à barra do Douro quando esta era inacessível – e isto, claro, antes do porto de Leixões – estava já construído , muito embora já tivesse serventia muito antes.
Dá-se a construção da Estrada da Circunvalação, em 1895, e, no mesmo período, a integração de Nevogilde na cidade do Porto.
Morre António Nobre, na Av. Brasil 531, em Março de 1900. Os poentes da barra continuam no entanto a fazer desmaios.
Nevogilde continua a ser, por excelência, a Foz do futuro: em 1921 nasce a Estação de Zoologia Marítima, criada por augusto Nobre, no Castelo do queijo primeiro e depois para edifício próprio na actual avenida de Montevideu.
Ainda por divulgar e estudar como merece, a obra de Raul Brandão é, também ela, vítima do "periferismo" do seu autor e da sua temática em relação ao centro e aos interesses político-económicos dominantes. A profundidade existencial "avant la lettre" do autor não é reconhecida com este em vida... nem sequer ainda hoje. "Os Pescadores", "Húmus", "Memórias", as suas diversas peças de teatro, aguardam persistentemente o recolocar da verdade histórico-literária. Em Dezembro de 1930, quando morre, Raul Brandão só não é um homem desiludido... porque não tinha ilusões acerca da sociedade que o rodeia e das elites que a dirigem.
A Foz e Nevogilde continuam no seu crescimento bivalente: residência de milhares de trabalhadores e funcionários, sobretudo na Foz Velha, mas também em Nevogilde (Passos, Castelo), e lugar privilegiado de famílias abastadas que atinge o m2 mais caro do país. Quadro bem traçado deste período da vida fozeira, centrado sobretudo na zona do Molhe, encontra-se no romance "Sporá", de Pedro Baptista, recentemente editado.
Os anos 60 e primeiros da década de 70 são marcados por um compromisso cada vez maior de camadas, sobretudo jovens, na oposição à ditadura e à guerra colonial (a actividade cultural da Cooperativa da Foz é marcante, mas também o Solar Clube no Bairro da Pasteleira, entre outros). Por outro lado, dá-se uma forte entrega de muitos cidadãos a actividades "para-culturais", como os cortejos de S. Bartolomeu, as testas associativas, o desporto (no futebol, as camadas jovens do Foz ganham nomeada, José Vilela é, por varias vezes, campeão nacional de ténis).
António Rebordão Navarro, sem cedências as modas e ao êxito fácil, é um grande escritor nacional a sofrer como Brandão do seu afastamento voluntário dos poderes e centros. A Foz geográfica mas também social, sobretudo dos anos 40 para cá, revê-se em "Praça de Liège", "Mesopotâmia", "Parábola do Passeio Alegre"e ainda um pouco em "0 Parque dos Lagartos", romances publicados desde então até hoje.
Por esta época dá-se o maior atentado arquitectónico-cultural contra a Foz: a construção da Rua Coronel Raul Peres (Estrada Nova) que destrói uma ligação "natural" entre a praia e o núcleo habitacional, retirando terreno àquela e descaracterizando dezenas de casas com a obstrução ou amputação da sua frente marítima.
Abril de 1974, como todas as revoluções politicas, não é acompanhada no imediato da transformação cultural e mental necessária. O renascimento associativo é, nos primeiros anos pós-ditadura, em muitos casos, apenas aparente. De positivo há uma maior participação do cidadão na vida associativa, mas sem que isso signifique elevação de objectivos e de consciência.
De lá, até hoje, sobram a dinâmica Academia de Danças e Cantares, o Jornal O Progresso da Foz (19/8/80), sob a direcção de José Augusto de Castro, algum teatro do Orfeão e dos Fragatas, a Banda da Foz, os Pauliteiros de Nevogilde, algumas iniciativas ocasionais (Julho Cultural Foz 84) e pouco mais.
A agonia da importante Cooperativa dos Trabalhadores da Foz do Douro, que chega a ser uma das mais importantes do país, em simultâneo com o amordaçar de O Progresso da Foz, aceleram a morte de José Augusto de Castro, Homem de cultura e de acção.
O "Camões", da artista Irene Vilar, e oferecido à Foz, jaz, ignorado e maltratado, em frente do Gilreu, talvez imitando a vida do representado, aguardando que se ocupem dele, realçando aquela que é a mais bonita escultura da Foz.
Rosa Mota conquista, entretanto, o título de Campeã do Mundo e a Medalha de Ouro na Maratona dos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988.
Os últimos anos acentuam aquelas que são tendências antigas e que diríamos "naturais": aumento da população e incremento do lazer e da recreação (as esplanadas marginais, o Parque da Cidade), e outras, absolutamente a combater: destruição de património histórico e arquitectónico, ocupação demencial de construção em altura e sem qualidade e absoluta falta de equipamentos culturais: onde esta a Biblioteca, e o Cinema, e o Teatro, e um simples e digno centro cultural!
A Foz, a "saudosa", de Ramalho, "a que já não existe", de Raul Brandão, e todas as outras ... — a nossa! — são o passado. Não haja, não há, ilusões. Poderá haver ainda algum rapaz da aldeia de Pascoaes que, perante o mar que vê pela primeira vez, exclame: — Que Tâmega! — pois na imensidão ninguém ainda mexe.
Mas, quanto à terra, aquela que em cifrões se mede e se gere, essa está irremediavelmente condenada ao empobrecimento e ao caos de um urbanismo desajustado.
A não ser,... a não ser que o Homem — o responsável — saiba recolher, de um passado rico e belo, as linhas para traçar um presente que salve o futuro.

Tervuren, 5 de Marco de 1996

Joaquim José Pinto da Silva

(Este texto foi ajustado para esta obra da Academia de Danças e Cantares. Trata-se de uma condensação de um mais longo trabalho sobre a Foz a editar em breve; daí que os leitores mais atentos encontrem hiatos, menor ligação entre os acontecimentos e talvez, até, algumas ausências de informação.)

20 de outubro de 1991

A Cantareira

A Cantareira, 1991, edição de O Progresso da Foz

Estudo sobre 2 gravuras do séc. XVIII sobre a Foz do Douro, que acomanhou a edição das gravuras em painel de azulejos tradicionais.