Mostrar mensagens com a etiqueta Irene Vilar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Irene Vilar. Mostrar todas as mensagens
26 de maio de 2012
Em Bruxelas, as árvores não lêem Pessoa
Uma árvore, das poucas que não morrem de pé, ou estaria já morta?, desabou ontem sobre o poeta Pessoa da Place Flagey em Bruxelas.Benditas quedas que, como na velhice humana, permitem aos afogueados (stressados, diz-se) filhos, parentes e amigos, falar do caído, após anos de desinteresse, de desapego, de ostracismo até. O sentimento emerge, a recordação volta, a chama primeira retorna, e realça a pessoa, o Pessoa, em quem olhares absortos e indiferentes não pousavam, na pressa enganadora do quotidiano ou, pior ainda, na arrogância saloia dos urbanos, dos falso-cultos, dos sobranceiros.Fulminante, uma tempestade célere sapa a decrépita árvore e fá-la tombar sobre as ondas da cabeleira pessoana, sem respeito ao poeta e ao traço da Irene Vilar. Ambos, segundo a bruxa de Monte Córdova, se revolveram nos sepulcros e comentaram entre si que repor é muitas vezes mais difícil que pôr. Alguém diz que ouviu, cadente, a cabeça clamar, plagiando Camões, "Morro com a pátria", não se sabe se se referindo ao locus ou ao logos, ou ... aos dois.
Bruxelas, 25 de Maio de 2012
3 de outubro de 2008
IRENE VILAR, UM ABRAÇO A MACAU
No passado dia 10 de Junho, Dia de Portugal, inaugurou-se em Macau uma escultura pública da autoria de Irene Vilar.
A obra «Abraço» ficou no Jardim Luís de Camões, onde se encontra a gruta cuja lenda diz ter o Poeta por ali passado. Frente à entrada do jardim, centrado com a álea que o liga às escadarias, o monumento assenta num espelho de água e pretende simbolizar a tolerância convivial que marcou o essencial da nossa presença nos mares da China. A escolha de Irene Vilar não surpreendeu. Já nos habituámos a ver as suas obras reconhecidas e implantadas em locais públicos, sobretudo da Holanda ao Brasil, da África do Sul à Bélgica.
O privilégio de sermos, desde há muitos anos, conterrâneos dessa Artista e, logo, duplamente orgulhosos dos seus êxitos, impele-nos a propor, desde já, a organização de uma homenagem da Foz à sua artista e cidadã.
O legar de obras de arte públicas àquele Território faz parte de um conjunto de realizações do Governo de Macau, que pretende assegurar com visibilidade a nossa presença de cinco séculos. Nos últimos anos, alguns dos principais nomes das artes nacionais têm sido convidados para testemunharem em bronze, em cimento, em pedra, em pintura ou por outros meios, esta passagem histórica e plena de grandeza da soberania para a República Popular da China.
Em 1999, nesse momento, Portugal — com pena, mas com orgulho! — retirará a sua bandeira, é certo, mas poderá olhar, sem vergonha, a página da História que acaba de virar.
Julho/1996 — N.º17
A inauguração de uma escultura de Irene Vilar no Jardim Luís de Camões marcou a tradicional romagem à gruta do Poeta em Macau, a cerimónia mais simbólica das comemorações locais do Dia de Portugal.
Intitulada «Abraço», a escultura foi descerrada pelo Governador Rocha Vieira e pelo ministro-adjunto.
Colocada no centro do jardim, sobre um «calmo espaço de água», a peça escultórica de Irene Vilar procura, segundo a autora, constituir um «marco simbólico da longa fraternidade de tolerância étnica e religiosa e de um natural entendimento entre portugueses e chineses».
A escultura foi encomendada pelo Governo local no âmbito de um despacho de Rocha Vieira de Setembro de 1992, que prevê que o Território fique dotado anualmente de uma obra de arte do autor português concebida expressamente para simbolizar «a vivência singular e a identidade própria de Macau enquanto encontro de culturas».
Ao abrigo do mesmo despacho, o artista portuense Zulmiro de Carvalho concebeu uma escultura em aço, a que chamou «O Arco do Oriente».
Antes da inauguração do monumento, Rocha Vieira e Jorge Coelho presidiram à tradicional romagem à gruta de Camões, que contou com a participação de cerca de dois mil alunos de mais de 80 escolas de Macau.
In Tribuna de Macau, 14 de Junho de 1996
«Delegas na comunidade dos poetas o eu distributivo. A tua escultura nunca deixas de rimá-la com poemas adequados. Pelos volumes gravas a necessária e reflexa companhia. Traziam a promessa de voltar/ a ver se a cor do sonho se mantinha... tenho tempo, não tenho idade e et coetara nas conivências de toda a paz e todo o dano. Que continuas na superfície dos desenhos (durante anos fechaste-os nas gavetas). Por trás daquela janela, Eu não sou de ninguém. Minhas sensações são um barco de quilha prò ar e et coetara por essas planícies mensuráveis de esquadria onde rompes grades e passeias, coloco-me dentro do quadrado de papel, dentro de perspectivas cm diferentes eixos. Depois desenho pormenores secretamente...
Pelos volumes, pelas superfícies, mas também pelas paredes do teu lugar de trabalho onde penduras os espelhos, o coral selecto das vibrações quando és tu-só-somada-tantos. Os filtros hipnóticos da intimidade da maldição do sonho e da vontade são uma ária de fluidez, vertical, sede que não matas e te mata, os cúmplices do excessivo mundo que em dourando o sol ao largo da tua aldeia trazem a sedução diluída de comovida segurança, e, em amanhecendo, a luz precisa para as decisões graves dos retratos.»
Maria da Glória Padrão, in «Irene Vilar — quem me dirá quem sou?», Edições Asa, Porto, 1991
UM «ABRAÇO» A MACAU
Ainda a propósito da escultura de Irene Vilar inaugurada em Macau, corrigimos dois lapsos cometidos na nossa edição anterior: o governador daquele Território é o general Rocha Vieira e Sales Marques é o presidente do Leal Senado. O seu a seu dono...
A obra «Abraço» ficou no Jardim Luís de Camões, onde se encontra a gruta cuja lenda diz ter o Poeta por ali passado. Frente à entrada do jardim, centrado com a álea que o liga às escadarias, o monumento assenta num espelho de água e pretende simbolizar a tolerância convivial que marcou o essencial da nossa presença nos mares da China. A escolha de Irene Vilar não surpreendeu. Já nos habituámos a ver as suas obras reconhecidas e implantadas em locais públicos, sobretudo da Holanda ao Brasil, da África do Sul à Bélgica.
O privilégio de sermos, desde há muitos anos, conterrâneos dessa Artista e, logo, duplamente orgulhosos dos seus êxitos, impele-nos a propor, desde já, a organização de uma homenagem da Foz à sua artista e cidadã.
O legar de obras de arte públicas àquele Território faz parte de um conjunto de realizações do Governo de Macau, que pretende assegurar com visibilidade a nossa presença de cinco séculos. Nos últimos anos, alguns dos principais nomes das artes nacionais têm sido convidados para testemunharem em bronze, em cimento, em pedra, em pintura ou por outros meios, esta passagem histórica e plena de grandeza da soberania para a República Popular da China.
Em 1999, nesse momento, Portugal — com pena, mas com orgulho! — retirará a sua bandeira, é certo, mas poderá olhar, sem vergonha, a página da História que acaba de virar.
Julho/1996 — N.º17
A inauguração de uma escultura de Irene Vilar no Jardim Luís de Camões marcou a tradicional romagem à gruta do Poeta em Macau, a cerimónia mais simbólica das comemorações locais do Dia de Portugal.
Intitulada «Abraço», a escultura foi descerrada pelo Governador Rocha Vieira e pelo ministro-adjunto.
Colocada no centro do jardim, sobre um «calmo espaço de água», a peça escultórica de Irene Vilar procura, segundo a autora, constituir um «marco simbólico da longa fraternidade de tolerância étnica e religiosa e de um natural entendimento entre portugueses e chineses».
A escultura foi encomendada pelo Governo local no âmbito de um despacho de Rocha Vieira de Setembro de 1992, que prevê que o Território fique dotado anualmente de uma obra de arte do autor português concebida expressamente para simbolizar «a vivência singular e a identidade própria de Macau enquanto encontro de culturas».
Ao abrigo do mesmo despacho, o artista portuense Zulmiro de Carvalho concebeu uma escultura em aço, a que chamou «O Arco do Oriente».
Antes da inauguração do monumento, Rocha Vieira e Jorge Coelho presidiram à tradicional romagem à gruta de Camões, que contou com a participação de cerca de dois mil alunos de mais de 80 escolas de Macau.
In Tribuna de Macau, 14 de Junho de 1996
«Delegas na comunidade dos poetas o eu distributivo. A tua escultura nunca deixas de rimá-la com poemas adequados. Pelos volumes gravas a necessária e reflexa companhia. Traziam a promessa de voltar/ a ver se a cor do sonho se mantinha... tenho tempo, não tenho idade e et coetara nas conivências de toda a paz e todo o dano. Que continuas na superfície dos desenhos (durante anos fechaste-os nas gavetas). Por trás daquela janela, Eu não sou de ninguém. Minhas sensações são um barco de quilha prò ar e et coetara por essas planícies mensuráveis de esquadria onde rompes grades e passeias, coloco-me dentro do quadrado de papel, dentro de perspectivas cm diferentes eixos. Depois desenho pormenores secretamente...
Pelos volumes, pelas superfícies, mas também pelas paredes do teu lugar de trabalho onde penduras os espelhos, o coral selecto das vibrações quando és tu-só-somada-tantos. Os filtros hipnóticos da intimidade da maldição do sonho e da vontade são uma ária de fluidez, vertical, sede que não matas e te mata, os cúmplices do excessivo mundo que em dourando o sol ao largo da tua aldeia trazem a sedução diluída de comovida segurança, e, em amanhecendo, a luz precisa para as decisões graves dos retratos.»
Maria da Glória Padrão, in «Irene Vilar — quem me dirá quem sou?», Edições Asa, Porto, 1991
UM «ABRAÇO» A MACAU
Ainda a propósito da escultura de Irene Vilar inaugurada em Macau, corrigimos dois lapsos cometidos na nossa edição anterior: o governador daquele Território é o general Rocha Vieira e Sales Marques é o presidente do Leal Senado. O seu a seu dono...
Preito a Irene Vilar
(jornal Público, 15 de Maio de 2008)
Irene Vilar (11 de Dezembro de 1928 / 12 de Maio de 2008)
O homem chorava. Nunca sonhara poder ver ali, naquela Praça Flagey, em Bruxelas, uma cabeça de Fernando Pessoa, assim, em bronze, grande, mais uma base de mármore do seu Alentejo. Ele que viera à procura de pão, que a pátria lhe recusara, nos idos sessentas, e, naquela que seria dentro em pouco a capital da Europa, se remetera, como é costume nos seus, à mesma pacatez da aldeia de outrora, não acreditava que um país desenvolvido como a Bélgica, pudesse alguma vez ter outro olhar para ele e os seus do que um simples apreço pelo trabalho braçal que lhes vendiam no dia a dia e uma integração sem ruído que lhes era natural.
Não! Ali estava um poeta da sua língua, bem exposto, soberbo, numa praça principal, aos olhos de todos, dos seus conterrâneos mas também dos belgas, dos políticos da “comuna”, dos seus patrões.
Não! Que não era apenas por um suor bem retribuído que o tinham de respeitar. Estava ali o Fernando Pessoa, a indicar que não éramos simples povo de mações e mulheres-a-dias, que também os tínhamos a escrever poesia reconhecida pelo mundo atestada ali e agora por uma pública homenagem.
Pois, que não conhecia os poemas do Senhor, apenas o nome, mas que a emoção lhe saltara com o orgulho que doravante sentiria mais forte por uma origem, muitas vezes escondida.
O homem – explicou-nos, a ti e a mim – por isso chorava.
Era a manhã de 10 de Junho de 1989. Pela tarde, o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal – de que agora não me lembro o nome – na presença de António Quadros, José Augusto Seabra, Margarida Magalhães, Cândido Lima, António Cunha e Silva, (que vieram participar na homenagem) Ivone Almeida e a Fernanda, com as autoridades camarárias locais, e muitas outras pessoas, inaugurava esse monumento a esse grande Poeta.
Hoje, esperava pelas tuas melhoras para te anunciar – e como sei que te agradaria – que as autoridades no contexto do arranjo geral da praça, decidiram dar o nome, naquele triângulo onde está o teu Fernando, de Square Pessoa.
Que novo reconhecimento, a ele e, claro, a ti, querida Mestre!
E mais, a Square vai ter (está a terminar) uma calçada nova, “à portuguesa” e todo o enquadramento vai ser renovado... e as letras do plinto pintadas, o que tanto pedias: a minha pátria é a língua portuguesa.
Queria dizer-to, esperava que arribasses, mas não foi possível. A grande igualitária passou por ti e segou-te. Estou a vê-la, inesperada, injusta, má, dizemos os que quedam, os que se seguirão.
Uma peregrinação formidável, um passar seguro e confiante, a que penas e ofensas apenas deram força e perseverança, assim foi a tua obra. Entre o Monumento ao Pescador e a Florbela Espanca, em Matosinhos, o Camões, a Suggia, o Mensageiro e o Garcia de Orta, no Porto, e os Pessoas, de Durban e S. Paulo, e o Abraço, de Macau, e o Teixeira Gomes, da Argélia, estão dezenas, centenas de obras, grandes e mínimas (recordemos as medalhas onde foste criadora ímpar, tendo ainda feito a da última Presidência da UE) que atestam um carácter, uma marca que, por certo o teu Mestre, Barata Feyo, é responsável – como repetias –, mas também as tuas viagens, a tua observação e análise, o estudo e a reflexão que permanentemente praticavas.
Ficam ainda, pelo menos, para inaugurar em breve a tua D. Leonor e o D; Fernando, que irão de novo jurar amores frente ao Mosteiro de Leça do Balio e também um Marvão, para figurar e enriquecer aquela bela povoação histórica.
Do Poeta sabias que agir é a inteligência verdadeira e por isso parar era um verbo sem presente (e futuro) em ti.
Vivias em sobressalto com o por fazer, com os outros, com as promessas esquecidas e as injustiças, mas não te atormentes mais: o triunfo é claro, os teus amigos muitos, os admiradores sem conta, a obra inextinguível.
Se é verdade (e ainda o Poeta) que Somos contos contando contos, nada, não é menos certo que, nesta minudência que é a vida, há nadas que, nesta dimensão, são tudo.
E tu, Maria Irene Vilar, foste-o.
Até sempre!
O homem chorava. Nunca sonhara poder ver ali, naquela Praça Flagey, em Bruxelas, uma cabeça de Fernando Pessoa, assim, em bronze, grande, mais uma base de mármore do seu Alentejo. Ele que viera à procura de pão, que a pátria lhe recusara, nos idos sessentas, e, naquela que seria dentro em pouco a capital da Europa, se remetera, como é costume nos seus, à mesma pacatez da aldeia de outrora, não acreditava que um país desenvolvido como a Bélgica, pudesse alguma vez ter outro olhar para ele e os seus do que um simples apreço pelo trabalho braçal que lhes vendiam no dia a dia e uma integração sem ruído que lhes era natural.
Não! Ali estava um poeta da sua língua, bem exposto, soberbo, numa praça principal, aos olhos de todos, dos seus conterrâneos mas também dos belgas, dos políticos da “comuna”, dos seus patrões.
Não! Que não era apenas por um suor bem retribuído que o tinham de respeitar. Estava ali o Fernando Pessoa, a indicar que não éramos simples povo de mações e mulheres-a-dias, que também os tínhamos a escrever poesia reconhecida pelo mundo atestada ali e agora por uma pública homenagem.
Pois, que não conhecia os poemas do Senhor, apenas o nome, mas que a emoção lhe saltara com o orgulho que doravante sentiria mais forte por uma origem, muitas vezes escondida.
O homem – explicou-nos, a ti e a mim – por isso chorava.
Era a manhã de 10 de Junho de 1989. Pela tarde, o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal – de que agora não me lembro o nome – na presença de António Quadros, José Augusto Seabra, Margarida Magalhães, Cândido Lima, António Cunha e Silva, (que vieram participar na homenagem) Ivone Almeida e a Fernanda, com as autoridades camarárias locais, e muitas outras pessoas, inaugurava esse monumento a esse grande Poeta.
Hoje, esperava pelas tuas melhoras para te anunciar – e como sei que te agradaria – que as autoridades no contexto do arranjo geral da praça, decidiram dar o nome, naquele triângulo onde está o teu Fernando, de Square Pessoa.
Que novo reconhecimento, a ele e, claro, a ti, querida Mestre!
E mais, a Square vai ter (está a terminar) uma calçada nova, “à portuguesa” e todo o enquadramento vai ser renovado... e as letras do plinto pintadas, o que tanto pedias: a minha pátria é a língua portuguesa.
Queria dizer-to, esperava que arribasses, mas não foi possível. A grande igualitária passou por ti e segou-te. Estou a vê-la, inesperada, injusta, má, dizemos os que quedam, os que se seguirão.
Uma peregrinação formidável, um passar seguro e confiante, a que penas e ofensas apenas deram força e perseverança, assim foi a tua obra. Entre o Monumento ao Pescador e a Florbela Espanca, em Matosinhos, o Camões, a Suggia, o Mensageiro e o Garcia de Orta, no Porto, e os Pessoas, de Durban e S. Paulo, e o Abraço, de Macau, e o Teixeira Gomes, da Argélia, estão dezenas, centenas de obras, grandes e mínimas (recordemos as medalhas onde foste criadora ímpar, tendo ainda feito a da última Presidência da UE) que atestam um carácter, uma marca que, por certo o teu Mestre, Barata Feyo, é responsável – como repetias –, mas também as tuas viagens, a tua observação e análise, o estudo e a reflexão que permanentemente praticavas.
Ficam ainda, pelo menos, para inaugurar em breve a tua D. Leonor e o D; Fernando, que irão de novo jurar amores frente ao Mosteiro de Leça do Balio e também um Marvão, para figurar e enriquecer aquela bela povoação histórica.
Do Poeta sabias que agir é a inteligência verdadeira e por isso parar era um verbo sem presente (e futuro) em ti.
Vivias em sobressalto com o por fazer, com os outros, com as promessas esquecidas e as injustiças, mas não te atormentes mais: o triunfo é claro, os teus amigos muitos, os admiradores sem conta, a obra inextinguível.
Se é verdade (e ainda o Poeta) que Somos contos contando contos, nada, não é menos certo que, nesta minudência que é a vida, há nadas que, nesta dimensão, são tudo.
E tu, Maria Irene Vilar, foste-o.
Até sempre!
Joaquim Pinto da Silva
Tervuren, 12 de Maio de 2008
Tervuren, 12 de Maio de 2008
2 de outubro de 2008
Um percurso universal, Irene Vilar
(Intervenção na Biblioteca Florbela Espanca, Câmara Municipal de Matosinhos, em 21 de Abril de 2007, na sessão do lançamento do livro: Do Som do Bronze ao Rumor da Água - Irene Vilar, de A. Cunha e Silva e Joaquim Pinto da Silva, com tradução para francês de Marie Claire Vromans, edição Orfeu, Bruxelas)
Palavras precisas a abrir: À Câmara de Matosinhos, ao seu Vereador, Fernando Rocha, a gratidão pela colaboração na edição e na organização desta sessão. Ao António Cunha e Silva, pedra basilar nesta "construção", ora "inaugurada", um abraço cúmplice. Uma saudação sentida à Maria Irene Vilar, amiga firme e artista de eleição, para quem este livro é homenagem mínima e insuficiente.
A verdadeira criação é para o hoje e deixa aos profetas a adivinhação do porvir. O que urge – no sábio recado de Agustina Bessa-Luís – é o que prevalece e não pode ser adiado. O futuro é congeminação de interesses que não importam ao artista em acção.
Quando Maria Irene Vilar amassa as argilas dando-lhes forma, numa fusão de ética e estética, nunca estas foram trocadas pelo conceito, por uma programática de sucesso ou de ostentação, enfim, por preconceitos. Aos outros a tarefa de encontrar as explicações, os fundamentos, a decifração elaborada da sua poética.
O artista – e está claro para ela! – não é também o salvador do mundo, a solução milagrosa dos problemas do homem, aqueles que o homem criou e que o homem terá de resolver.
Assumindo firmemente o seu lugar, fora das contingências e da doutrinas, Maria Irene, sabe, é manifesto, que a sua arte é um reflexo de si e das sua relação com o mundo, é um modo de vida que pratica de corpo e alma, dando-se, exigindo-se. Quando muito, a sua obra é a sua revolta, sincera, porque independente e bastando-se, e o seu refúgio, porque nessa resistência encontra a sua satisfação, a aproximação à plenitude.
Na Arte não há propriamente uma evolução, no sentido de uma melhoria. O que agora se produz não é superior ao que se produziu há 100 ou 1.000 anos. Variam as formas, os meios, as percepções e os interesses, mas ninguém se atreverá a dizer que o Papa Inocêncio X, de Francis Bacon, tem mais qualidade artística que os Apóstolos do Pórtico da Glória, em Santiago. Irene Vilar – disto sabedora – agarrou o seu tempo perfeitamente, sem ceder um pouco que seja à exibição fácil e facilmente mediatizável dos espúrios vanguardismos.
Frágil, como o comum dos homens – porventura mais ainda –, rasa a terra com a naturalidade própria da andorinha, afastando-se dos escolhos – dos leixões –, com o génio e a mestria dos eleitos. Do alto, espontânea e denodada – qual águia –, observa as debilidades do mundo e a sua vanglória, ciente delas sem vergar, opondo-se-lhes pela postura, pela renúncia.
Dessa longa viagem, de Matosinhos à Foz do Douro (com apeadeiros em Macau, Durban, S. Paulo, Bruxelas e tantos outros) sobra um repto coerente que é uma herança de todos nós e demonstração de um percurso universal.
Joaquim Pinto da Silva
Quando Maria Irene Vilar amassa as argilas dando-lhes forma, numa fusão de ética e estética, nunca estas foram trocadas pelo conceito, por uma programática de sucesso ou de ostentação, enfim, por preconceitos. Aos outros a tarefa de encontrar as explicações, os fundamentos, a decifração elaborada da sua poética.
O artista – e está claro para ela! – não é também o salvador do mundo, a solução milagrosa dos problemas do homem, aqueles que o homem criou e que o homem terá de resolver.
Assumindo firmemente o seu lugar, fora das contingências e da doutrinas, Maria Irene, sabe, é manifesto, que a sua arte é um reflexo de si e das sua relação com o mundo, é um modo de vida que pratica de corpo e alma, dando-se, exigindo-se. Quando muito, a sua obra é a sua revolta, sincera, porque independente e bastando-se, e o seu refúgio, porque nessa resistência encontra a sua satisfação, a aproximação à plenitude.
Na Arte não há propriamente uma evolução, no sentido de uma melhoria. O que agora se produz não é superior ao que se produziu há 100 ou 1.000 anos. Variam as formas, os meios, as percepções e os interesses, mas ninguém se atreverá a dizer que o Papa Inocêncio X, de Francis Bacon, tem mais qualidade artística que os Apóstolos do Pórtico da Glória, em Santiago. Irene Vilar – disto sabedora – agarrou o seu tempo perfeitamente, sem ceder um pouco que seja à exibição fácil e facilmente mediatizável dos espúrios vanguardismos.
Frágil, como o comum dos homens – porventura mais ainda –, rasa a terra com a naturalidade própria da andorinha, afastando-se dos escolhos – dos leixões –, com o génio e a mestria dos eleitos. Do alto, espontânea e denodada – qual águia –, observa as debilidades do mundo e a sua vanglória, ciente delas sem vergar, opondo-se-lhes pela postura, pela renúncia.
Dessa longa viagem, de Matosinhos à Foz do Douro (com apeadeiros em Macau, Durban, S. Paulo, Bruxelas e tantos outros) sobra um repto coerente que é uma herança de todos nós e demonstração de um percurso universal.
Joaquim Pinto da Silva
Matosinhos, 21 de Abril de 2007
Do som do bronze ao rumor da água
(Livro em co-autoria com A. Cunha e Silva, editado pela Orfeu, com o apoio da Câmara de Matosinhos, em comemoração dos 75 anos de Irene Vilar)

E assim, a ainda hoje menina, plena do tempo e da sabedoria dos que o exaurem, aportou à Foz, ubiquou-se de geografia e de alma, partilhou-se entre mar e rio, e persistiu nesse combate, que é ainda o seu de hoje – e que espanta o cobarde! – entre a suficiência e a inquietude.
Sou triste comigo, mas enquanto viver serei eu.
Veio só como o do Só, do Leça às Filgueiras e ao Gilreu.
Queria que a liberdade da minha juventude se transformasse em liberdade de silêncios onde eu pudesse continuar a ser sempre igual a mim mesma.
Revoltada, como o embate das correntes lamosas de montante no encontro fragoroso com as vivas marés de sudoeste, na mesma escuma do faz-desfaz dos gessos e bronzes, destroços filhos afinal das angústias das profundezas da alma e das águas com quem vive, com quem convive.
Contam do poeta d’Anto que
…chegados ao Porto, dirigiram-se todos para a Foz e ao passar na estrada marginal, ao dobrar para Sobreiras e quando se vê a barra, por certo recordando-se nessa tarde de sol poente dos seu poentes da barra:
Ó poentes da barra que fazem desmaios
disse, espreitando pela janela do carro:
Que lindo que isto é!
E a jovem artista sabedora desses arrebatamentos, desses e das pinturas brandonianas, áureo rubras, com interstícios de fogo, a exalar hálitos verdes envolvidos nas ondas, de poalhas de ouro que se abatem sob o cabedelo, ali fez eleição.
Na destreza do cinzel e do buril, das húmidas argilas e gessos, brotou o que há muito Irene trazia nas entranhas, em gestação e parto tumultuosos, condição para um fruto, inquiridor por certo, mas apaziguador e contagiante.
Célere, naquele lugar, cravou o que leva e o que traz, porque o poeta está mais preocupado com o que urge do que com o que falta, porque o que insta é eterno e o necessário é apenas de hoje. E ali as delongas foram muitas, por culpa dos homens, e havia que operar.
O Mensageiro fixou-se como se fosse prescrito de há muito o seu lugar:
Dai velas, disse, dai ao largo vento
Que o céu nos favorece e Deus o manda
Que um mensageiro vi do claro assento;
Que só em favor dos nossos passos anda
Esse poema brônzeo, em procura do espaço primordial, de qualidade que ofende os medíocres, dessa diferença que é estigma, que é pena para carregar a vida inteira, pois o mundo é bastante para muitos e mal daqueles arqueólogos do ser que incertos e incessantemente buscam e porfiam, porque apenas lhes sobra a consciência de si mesmo, e de alguns mais, poucos, obstinados: é por aí, e se for por outro lado é abdicação, é ignomínia.
Houve fantasia, raiva, frustação... e fixei-te no tempo através da minha verdade.
É Gabriel, Miguel ou Uriel?
Pressagia novos tempos, vaticina um percursor, profetiza um salvador?
Propõe a cura, a via da contrição, o fim das trevas?
Que importa!
Antes reanuncia a demanda e prediz o que devia ser já entendimento comum:
Que pequena é a abelha entre os voláteis mas o seu fruto é o primeiro em doçura
e que
quando deres esmola não permitas que toquem trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas. Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo.
E sem os artifícios da maneira de hoje e no acanhamento inerente às alturas, à vera grandeza, aponta, de mão direita, o caminho da busca, da indagação incerta e por isso redentora, e de esquerda, a mesura sem ornatos, a contenção inata das causas avisadas.
O Mensageiro da Irene tem a mácula da humanidade e a candura celestial.
Genuflexo, olha a terra, singelo e sincero, porque as estrelas e os siderais trilhos divisam-se outrossim por entre os líquenes, nos verdes lodos do leito do rio.
Joaquim Pinto da Silva

(parte do texto de JPdS)
… e esses náufragos, os mesmos que de sempre eram arremessados contra os leixões, também regurgitavam na barra, a luminosa e trágica, a traiçoeira e bela, a do Douro, ali ligeiramente a sul.
E assim, a ainda hoje menina, plena do tempo e da sabedoria dos que o exaurem, aportou à Foz, ubiquou-se de geografia e de alma, partilhou-se entre mar e rio, e persistiu nesse combate, que é ainda o seu de hoje – e que espanta o cobarde! – entre a suficiência e a inquietude.
Sou triste comigo, mas enquanto viver serei eu.
Veio só como o do Só, do Leça às Filgueiras e ao Gilreu.
Queria que a liberdade da minha juventude se transformasse em liberdade de silêncios onde eu pudesse continuar a ser sempre igual a mim mesma.
Revoltada, como o embate das correntes lamosas de montante no encontro fragoroso com as vivas marés de sudoeste, na mesma escuma do faz-desfaz dos gessos e bronzes, destroços filhos afinal das angústias das profundezas da alma e das águas com quem vive, com quem convive.
Contam do poeta d’Anto que
…chegados ao Porto, dirigiram-se todos para a Foz e ao passar na estrada marginal, ao dobrar para Sobreiras e quando se vê a barra, por certo recordando-se nessa tarde de sol poente dos seu poentes da barra:
Ó poentes da barra que fazem desmaios
disse, espreitando pela janela do carro:
Que lindo que isto é!
E a jovem artista sabedora desses arrebatamentos, desses e das pinturas brandonianas, áureo rubras, com interstícios de fogo, a exalar hálitos verdes envolvidos nas ondas, de poalhas de ouro que se abatem sob o cabedelo, ali fez eleição.
Na destreza do cinzel e do buril, das húmidas argilas e gessos, brotou o que há muito Irene trazia nas entranhas, em gestação e parto tumultuosos, condição para um fruto, inquiridor por certo, mas apaziguador e contagiante.
Célere, naquele lugar, cravou o que leva e o que traz, porque o poeta está mais preocupado com o que urge do que com o que falta, porque o que insta é eterno e o necessário é apenas de hoje. E ali as delongas foram muitas, por culpa dos homens, e havia que operar.
O Mensageiro fixou-se como se fosse prescrito de há muito o seu lugar:
Dai velas, disse, dai ao largo vento
Que o céu nos favorece e Deus o manda
Que um mensageiro vi do claro assento;
Que só em favor dos nossos passos anda
Esse poema brônzeo, em procura do espaço primordial, de qualidade que ofende os medíocres, dessa diferença que é estigma, que é pena para carregar a vida inteira, pois o mundo é bastante para muitos e mal daqueles arqueólogos do ser que incertos e incessantemente buscam e porfiam, porque apenas lhes sobra a consciência de si mesmo, e de alguns mais, poucos, obstinados: é por aí, e se for por outro lado é abdicação, é ignomínia.
Houve fantasia, raiva, frustação... e fixei-te no tempo através da minha verdade.
É Gabriel, Miguel ou Uriel?
Pressagia novos tempos, vaticina um percursor, profetiza um salvador?
Propõe a cura, a via da contrição, o fim das trevas?
Que importa!
Antes reanuncia a demanda e prediz o que devia ser já entendimento comum:
Que pequena é a abelha entre os voláteis mas o seu fruto é o primeiro em doçura
e que
quando deres esmola não permitas que toquem trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas. Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo.
E sem os artifícios da maneira de hoje e no acanhamento inerente às alturas, à vera grandeza, aponta, de mão direita, o caminho da busca, da indagação incerta e por isso redentora, e de esquerda, a mesura sem ornatos, a contenção inata das causas avisadas.
O Mensageiro da Irene tem a mácula da humanidade e a candura celestial.
Genuflexo, olha a terra, singelo e sincero, porque as estrelas e os siderais trilhos divisam-se outrossim por entre os líquenes, nos verdes lodos do leito do rio.
Joaquim Pinto da Silva
1 de outubro de 2008
Du son du bronze à la rumeur de l'eau
Du son du bronze à la rumeur de l'eau
(oeuvre de A. Cunha e Silva et JPdS, edité par Orfeu, avec le soutien de la Mairie de Matosinhos, au 75ème anniversaire de Irene Vilar)
(partie du texte de JPdS en traduction de Marie Claire Vromans)
... et ces naufragés, les mêmes qui depuis toujours étaient projetés contre les écueils, abondaient aussi sur la barre de sable, lumineuse et tragique, perfide et belle, la barre du Douro, légèrement au Sud.
Ainsi l'éternelle adolescente, pleine du temps et de la sagesse de ceux qui épuisent celui-ci, accosta à Foz, présente partout de corps et d'âme, elle se partagea entre la mer et le fleuve, et persista dans ce combat, qui est encore le sien aujourd'hui et qui effraie le lâche ! entre la capacité et l'inquiétude.
Je suis triste en moi-même, mais tant que je vivrai, je serai moi.
Elle vint seule comme l'auteur du "Só", de Leça à Filgueiras et à Gilreu.
Je voudrais que la liberté de ma jeunesse se transforme en liberté de silences où je pourrais continuer à être toujours égale à moi-même.
Révoltée, comme le choc des courants boueux, en amont, dans la rencontre fracassante avec les grandes marées du Sud-Ouest, dans la même écume où se font et se défont les plâtres et les bronzes, débris finalement apparentés aux angoisses des profondeurs de l'âme et des eaux, avec qui elle vit, elle cohabite.
On raconte, au sujet du poète António Nobre:
... arrivés à Porto, ils se dirigèrent tous vers Foz et, en passant sur la marginale, au moment de tourner vers Sobreiras et quand on voit la barre, il évoqua certainement en cette après-midi où le soleil se couchait, les couchants de la barre:
Ô couchants de la barre qui font défaillir,
dit-il, observant par la fenêtre de la voiture:
Que cela est beau !
Et la jeune artiste, connaissant bien ces élans admiratifs, de même que les descriptions brandoniennes, rouge doré avec des interstices de feu, exhalant des souffles verts enveloppés par les vagues, des poussières d'or qui se rabattent sous le cap de sable, a fait de cet endroit son lieu d'élection.
Grâce au maniement adroit du ciseau et du burin, des argiles humides et des plâtres, jaillit ce qu'Irene portait depuis longtemps dans ses entrailles, gestation et accouchement tumultueux, condition pour que le fruit soit propre à l'investigation, mais aussi conciliant et exemplaire.
Là, elle implanta très vite tout ce qu'elle avait glané, car le poète est plus soucieux de l'urgence que du manque; en effet l'insistance vise l'éternité tandis que le nécessaire ne concerne que le moment présent. Et les retards furent nombreux, à cause des hommes, mais il fallait agir.
Le Messager s'établit comme si sa place avait été prévue depuis longtemps:
Déployez les voiles, dit-il, dans l'espace venteux
Car le Ciel nous favorise et Dieu le veut
Sur son siège clair j'ai vu un messager
Dont l'unique dessein est de nous protéger
Ce poème de bronze, en quête de l'espace primordial, d'une qualité qui offense les médiocres, avec cette différence qui est le stigmate, la peine à supporter la vie entière, car le monde s'adresse surtout à la masse et il appartient peu à ces archéologues de l'âme, incertains qui cherchent sans trêve et s'acharnent, parce qu'ils gardent la conscience d'eux-mêmes, et à quelques autres, peu nombreux, obstinés: telle est la voie à suivre, sinon c'est l'abdication, c'est l'ignominie.
Il y eut de la fantaisie, de la rage, de la frustration... et je t'ai fixé dans le temps à travers ma vérité.
S'agit-il de Gabriel, Michel ou Uriel ?
Présage-t-il des temps nouveaux, un précurseur, un sauveur ?
Propose-t-il la solution, le chemin de la contrition, la fin des ténèbres ?
Qu'importe !
Il renouvelle plutôt la quête et prédit ce qui devrait déjà appartenir au sens commun:
Que l'abeille est petite parmi ce qui vole mais son fruit est le premier en douceur
et aussi
quand tu donnes une aumône, ne permets pas qu'on joue de la trompette devant toi, comme font les hypocrites. Quand tu donnes une aumône, que ta main gauche ne sache pas ce que fait ta main droite, afin que ton aumône reste en secret.
Et sans les artifices de la manière d'aujourd'hui et dans la retenue inhérente aux sphères supérieures, à la vraie grandeur, il montre, de sa main droite, le chemin de la recherche, de l'investigation hasardeuse et donc rédemptrice, et de la gauche la mesure sans ornements, la concentration innée des choses avisées.
Le Messager d'Irene porte la tache de l'humanité et la candeur céleste.
En génuflexion, il regarde la terre, naïf et sincère, parce que les étoiles et les chemins sidéraux se divisent également parmi les lichens, dans les boues vertes du lit fluvial.
Joaquim Pinto da Silva
(oeuvre de A. Cunha e Silva et JPdS, edité par Orfeu, avec le soutien de la Mairie de Matosinhos, au 75ème anniversaire de Irene Vilar)
(partie du texte de JPdS en traduction de Marie Claire Vromans)
... et ces naufragés, les mêmes qui depuis toujours étaient projetés contre les écueils, abondaient aussi sur la barre de sable, lumineuse et tragique, perfide et belle, la barre du Douro, légèrement au Sud.
Ainsi l'éternelle adolescente, pleine du temps et de la sagesse de ceux qui épuisent celui-ci, accosta à Foz, présente partout de corps et d'âme, elle se partagea entre la mer et le fleuve, et persista dans ce combat, qui est encore le sien aujourd'hui et qui effraie le lâche ! entre la capacité et l'inquiétude.
Je suis triste en moi-même, mais tant que je vivrai, je serai moi.
Elle vint seule comme l'auteur du "Só", de Leça à Filgueiras et à Gilreu.
Je voudrais que la liberté de ma jeunesse se transforme en liberté de silences où je pourrais continuer à être toujours égale à moi-même.
Révoltée, comme le choc des courants boueux, en amont, dans la rencontre fracassante avec les grandes marées du Sud-Ouest, dans la même écume où se font et se défont les plâtres et les bronzes, débris finalement apparentés aux angoisses des profondeurs de l'âme et des eaux, avec qui elle vit, elle cohabite.
On raconte, au sujet du poète António Nobre:
... arrivés à Porto, ils se dirigèrent tous vers Foz et, en passant sur la marginale, au moment de tourner vers Sobreiras et quand on voit la barre, il évoqua certainement en cette après-midi où le soleil se couchait, les couchants de la barre:
Ô couchants de la barre qui font défaillir,
dit-il, observant par la fenêtre de la voiture:
Que cela est beau !
Et la jeune artiste, connaissant bien ces élans admiratifs, de même que les descriptions brandoniennes, rouge doré avec des interstices de feu, exhalant des souffles verts enveloppés par les vagues, des poussières d'or qui se rabattent sous le cap de sable, a fait de cet endroit son lieu d'élection.
Grâce au maniement adroit du ciseau et du burin, des argiles humides et des plâtres, jaillit ce qu'Irene portait depuis longtemps dans ses entrailles, gestation et accouchement tumultueux, condition pour que le fruit soit propre à l'investigation, mais aussi conciliant et exemplaire.
Là, elle implanta très vite tout ce qu'elle avait glané, car le poète est plus soucieux de l'urgence que du manque; en effet l'insistance vise l'éternité tandis que le nécessaire ne concerne que le moment présent. Et les retards furent nombreux, à cause des hommes, mais il fallait agir.
Le Messager s'établit comme si sa place avait été prévue depuis longtemps:
Déployez les voiles, dit-il, dans l'espace venteux
Car le Ciel nous favorise et Dieu le veut
Sur son siège clair j'ai vu un messager
Dont l'unique dessein est de nous protéger
Ce poème de bronze, en quête de l'espace primordial, d'une qualité qui offense les médiocres, avec cette différence qui est le stigmate, la peine à supporter la vie entière, car le monde s'adresse surtout à la masse et il appartient peu à ces archéologues de l'âme, incertains qui cherchent sans trêve et s'acharnent, parce qu'ils gardent la conscience d'eux-mêmes, et à quelques autres, peu nombreux, obstinés: telle est la voie à suivre, sinon c'est l'abdication, c'est l'ignominie.
Il y eut de la fantaisie, de la rage, de la frustration... et je t'ai fixé dans le temps à travers ma vérité.
S'agit-il de Gabriel, Michel ou Uriel ?
Présage-t-il des temps nouveaux, un précurseur, un sauveur ?
Propose-t-il la solution, le chemin de la contrition, la fin des ténèbres ?
Qu'importe !
Il renouvelle plutôt la quête et prédit ce qui devrait déjà appartenir au sens commun:
Que l'abeille est petite parmi ce qui vole mais son fruit est le premier en douceur
et aussi
quand tu donnes une aumône, ne permets pas qu'on joue de la trompette devant toi, comme font les hypocrites. Quand tu donnes une aumône, que ta main gauche ne sache pas ce que fait ta main droite, afin que ton aumône reste en secret.
Et sans les artifices de la manière d'aujourd'hui et dans la retenue inhérente aux sphères supérieures, à la vraie grandeur, il montre, de sa main droite, le chemin de la recherche, de l'investigation hasardeuse et donc rédemptrice, et de la gauche la mesure sans ornements, la concentration innée des choses avisées.
Le Messager d'Irene porte la tache de l'humanité et la candeur céleste.
En génuflexion, il regarde la terre, naïf et sincère, parce que les étoiles et les chemins sidéraux se divisent également parmi les lichens, dans les boues vertes du lit fluvial.
Joaquim Pinto da Silva
20 de setembro de 2008
Mensageiro, em Sobreiras
Bronze de Irene Vilar, no Jardim do Ouro, 2001
Na curva onde o Douro
Se despede da cidade
E o sol é mais todo
No cair da jornada.
Carlos A. Moreira de Azevedo
Que não têm sexo, que se registam na tradição biblíca judaica ou depois na anunciação a Maria da sua maternidade, que intervieram ainda no séc VII – Gabriel - na revelação do Corão a Maomé, que são amiúde chamados a combater os seus « contrários », os demónios, que « existem », porque os povos não mentem e no mais recôndito das suas mentes eles estão sempre presentes, vigilantes, de guarda, anunciando, que é a sua função e razão de ser.
O Mensageiro* (que é tradução do grego angelos, donde deriva anjo) ali está desde há alguns meses : do local onde António Nobre desmaiava com o pôr-do-sol no mar, o bronze em genuflexão convive agora com gaivotas, o rio e … a nossa esperança inquebrantável num mundo melhor.
10 de setembro de 2008
MEDALHA JARDIM DO PASSEIO ALEGRE
LIBRETO DA MEDALHA COMEMORATIVA DO CENTENÁRIO DO JARDIM DO PASSEIO ALEGRE, DE IRENE VILAR
1988
O PROGRESSO DA FOZ (1)
Numa cidade que, infelizmente, persiste em destruir as suas zonas verdes, comemorar os 100 anos de um jardim reveste-se de múltiplo significado.
O Passeio Alegre e a zona envolvente, onde muito há a remodelar e a introduzir, têm resistido tenazmente ao assalto desenfreado de mesquinhos interesses económicos — bem mais perigosos do que o do simples passante que pisa a relva — e daí que festejar o seu Centenário seja simultaneamente festa e alerta.
Ao «eternizá-lo» em medalha, Irene Vilar entra publicamente na sua defesa e melhoramento.
Nós limitamo-nos a subscrever.
(1) O PROGRESSO DA FOZ orgulha-se de ser esta a sua 4ª iniciativa no âmbito das comemorações do Centenário do Passeio Alegre. As três anteriores foram: edição do livro de S. Oliveira Maia «Onde o Rio Acaba e a Foz do Douro Começa», concerto na Igreja Matriz da Foz do Douro pelo Grupo Vocal Arsis de Lisboa, e álbum de seis desenhos inéditos intitulado «O Passeio Alegre visto por Pedro Barbosa».
NÓTULA HISTÓRICA
Por carta régia de 15 de Fevereiro de 1790, D. Maria I faz avançar o plano de Reynaldo Oudinot relativo aos trabalhos a executar na barra do Douro, que previa, entre outros, a construção de um dique-cais entre as perigosas rochas das Felgueiras e a capela de S. Miguel-o-Anjo.
Esta obra, cujos alicerces implantados no rio já estavam executados em inícios de 1793, é considerada como essencialmente terminada dez anos depois pelo Eng.º Nogueira Soares, responsável geral pelos trabalhos na barra.
O dique-cais e o ajardinamento da zona interior, entre o dique e as construções no sopé da colina da Igreja Matriz, levaram ao fechamento de uma extensa área, referenciada por Teodoro de Sousa Maldonado, na sua conhecida gravura publicada em 1789 (1), como «Praya» e que Alberto Pimentel retrata do seguinte modo:
«No descampado... os pescadores consertavam as redes. Aquele local pertencia-lhes por tradição. Há anos os pescadores receberam mandado de despejo, e a Câmara Municipal do Porto mandou ajardinar o terreno, preparando assim um passeio que, à força de árvores, de flores e de relva, chegou a ser alegre» (2).
Não foi, portanto, pacífico, nem muito alegre, o nascimento deste jardim. Os seus utentes e «proprietários» consuetudinários — os pescadores — viram-se assim privados não só do seu «atelier» de conserto de redes como também e principalmente, de uma reentrância do rio nessa praia-descampado, a que chamavam a poça, e onde acobertavam os seus barcos no descanso e para reparações.
Mas o urbanismo e o património construído têm destas coisas: o que num certo momento é declaradamente um atentado, pelo menos, aos direitos e usos populares e, talvez, à paisagem, passa, depois de executado a ser, ele próprio, um património a salvaguardar. (3)
Emílio David, que já tinha deixado à cidade a sua marca de paisagista nos jardins do Palácio de Cristal, é quem elabora o plano de ajardinamento do Passeio Alegre, terminado em 1888. Na altura já o Chalé Suíço ou do Carneiro funcionava, tornando-se, pouco a pouco, em local de paragem obrigatória a quem demandava a Foz e, sobretudo, como centro de encontro literário e artístico: Ramalho Ortigão, Alberto Pimentel, Arnaldo Gama, Camilo Castelo Branco foram alguns dos que por ali passaram nesta época.
Os obeliscos do lado sul, oriundos da Prelada, o fontanário do lado norte, provindo do convento e S. Francisco, a fonte luminosa, ao gosto do início do século, e alguns outros acrescentos, nomeadamente os «riviéricos» sanitários (no dizer de Rebordão Navarro), tudo foram marcas e marcos de embelezamento e enriquecimento de um jardim que merece de nós todos um tratamento e uma fruição contínua, tal como entenderam os moradores da zona ao proporem e conseguirem, em 1978, a salvaguarda jurídica para o conjunto urbanístico que o rodeia.
(1) Editada por nós em painel de azulejos em 1987.
(2) «O Porto há 30 anos»
(3) Não é o caso, por exemplo, da Rua Coronel Raul Peres (estrada nova) que destruiu a airosa Rua da Praia, a bela e selvagem escarpa que ia dos fins da Rua da Senhora da Luz ao início da Avenida do Brasil e amputou gravemente as praias da Senhora da Luz, Ingleses e Cova da Raposa. Este foi e é um atentado que acreditamos seja ainda remediável, até porque a «estrada» continua a ser, visivelmente, um acrescento inestético e desajustado ao conjunto urbano em que se insere.
1988
O PROGRESSO DA FOZ (1)
Numa cidade que, infelizmente, persiste em destruir as suas zonas verdes, comemorar os 100 anos de um jardim reveste-se de múltiplo significado.
O Passeio Alegre e a zona envolvente, onde muito há a remodelar e a introduzir, têm resistido tenazmente ao assalto desenfreado de mesquinhos interesses económicos — bem mais perigosos do que o do simples passante que pisa a relva — e daí que festejar o seu Centenário seja simultaneamente festa e alerta.
Ao «eternizá-lo» em medalha, Irene Vilar entra publicamente na sua defesa e melhoramento.
Nós limitamo-nos a subscrever.
(1) O PROGRESSO DA FOZ orgulha-se de ser esta a sua 4ª iniciativa no âmbito das comemorações do Centenário do Passeio Alegre. As três anteriores foram: edição do livro de S. Oliveira Maia «Onde o Rio Acaba e a Foz do Douro Começa», concerto na Igreja Matriz da Foz do Douro pelo Grupo Vocal Arsis de Lisboa, e álbum de seis desenhos inéditos intitulado «O Passeio Alegre visto por Pedro Barbosa».
NÓTULA HISTÓRICA
Por carta régia de 15 de Fevereiro de 1790, D. Maria I faz avançar o plano de Reynaldo Oudinot relativo aos trabalhos a executar na barra do Douro, que previa, entre outros, a construção de um dique-cais entre as perigosas rochas das Felgueiras e a capela de S. Miguel-o-Anjo.
Esta obra, cujos alicerces implantados no rio já estavam executados em inícios de 1793, é considerada como essencialmente terminada dez anos depois pelo Eng.º Nogueira Soares, responsável geral pelos trabalhos na barra.
O dique-cais e o ajardinamento da zona interior, entre o dique e as construções no sopé da colina da Igreja Matriz, levaram ao fechamento de uma extensa área, referenciada por Teodoro de Sousa Maldonado, na sua conhecida gravura publicada em 1789 (1), como «Praya» e que Alberto Pimentel retrata do seguinte modo:
«No descampado... os pescadores consertavam as redes. Aquele local pertencia-lhes por tradição. Há anos os pescadores receberam mandado de despejo, e a Câmara Municipal do Porto mandou ajardinar o terreno, preparando assim um passeio que, à força de árvores, de flores e de relva, chegou a ser alegre» (2).
Não foi, portanto, pacífico, nem muito alegre, o nascimento deste jardim. Os seus utentes e «proprietários» consuetudinários — os pescadores — viram-se assim privados não só do seu «atelier» de conserto de redes como também e principalmente, de uma reentrância do rio nessa praia-descampado, a que chamavam a poça, e onde acobertavam os seus barcos no descanso e para reparações.
Mas o urbanismo e o património construído têm destas coisas: o que num certo momento é declaradamente um atentado, pelo menos, aos direitos e usos populares e, talvez, à paisagem, passa, depois de executado a ser, ele próprio, um património a salvaguardar. (3)
Emílio David, que já tinha deixado à cidade a sua marca de paisagista nos jardins do Palácio de Cristal, é quem elabora o plano de ajardinamento do Passeio Alegre, terminado em 1888. Na altura já o Chalé Suíço ou do Carneiro funcionava, tornando-se, pouco a pouco, em local de paragem obrigatória a quem demandava a Foz e, sobretudo, como centro de encontro literário e artístico: Ramalho Ortigão, Alberto Pimentel, Arnaldo Gama, Camilo Castelo Branco foram alguns dos que por ali passaram nesta época.
Os obeliscos do lado sul, oriundos da Prelada, o fontanário do lado norte, provindo do convento e S. Francisco, a fonte luminosa, ao gosto do início do século, e alguns outros acrescentos, nomeadamente os «riviéricos» sanitários (no dizer de Rebordão Navarro), tudo foram marcas e marcos de embelezamento e enriquecimento de um jardim que merece de nós todos um tratamento e uma fruição contínua, tal como entenderam os moradores da zona ao proporem e conseguirem, em 1978, a salvaguarda jurídica para o conjunto urbanístico que o rodeia.
(1) Editada por nós em painel de azulejos em 1987.
(2) «O Porto há 30 anos»
(3) Não é o caso, por exemplo, da Rua Coronel Raul Peres (estrada nova) que destruiu a airosa Rua da Praia, a bela e selvagem escarpa que ia dos fins da Rua da Senhora da Luz ao início da Avenida do Brasil e amputou gravemente as praias da Senhora da Luz, Ingleses e Cova da Raposa. Este foi e é um atentado que acreditamos seja ainda remediável, até porque a «estrada» continua a ser, visivelmente, um acrescento inestético e desajustado ao conjunto urbano em que se insere.
Subscrever:
Mensagens (Atom)