A propósito de: http://linguas.pt/2014/05/15/o-espantoso-mundo-das-linguas/
Publicado por Isabel Rei Samartin no Facebook e dos comentários:
Xose Lois D. Lucio Non será o revés, Isabel ?
Isabel Rei Samartim É o que diz o artigo, eu não digo nada...
E aqui o meu:
Claro que historicamente é o inverso. O português provém do galego e é o nome internacionalizado dessa língua nascida entre o Mondego e a costa noroeste da Península Ibérica. Mas o texto tem mais detalhes "perigosos". Por exemplo: " Há países que têm como língua nacional a língua duma região doutro país (Andorra)." Não é correcto dizer isto, porque Andorra é "dona" também da sua língua, pois aquele território fala catalão de há séculos, provavelmente antes até de algumas regiões da actual Catalunha. Outros erros: “Há países que criaram a sua língua em 1984 (Luxemburgo).” e “Há países que pegam numa língua morta e a ressuscitam (Israel)”. Ora uma língua não se cria por decreto, e o luxemburguês é uma língua muito mais antiga que a data da sua oficialização, assim como não se pode chamar, linguisticamente falando, de língua morta a uma língua que sempre foi usada, escrita e estudada como o hebreu (e o latim). Como se é “morto” se sempre se viveu, pelo menos para alguns?
Importa é relembrar mais alguns conceitos importantes da linguística, ignorados por muitos mas fundamentais, e que nos trazem dissabores nas batalhas de defesa das línguas em que nós entramos, por exemplo: a diferença entre língua e dialecto
não existe cientificamente, ela é produto da História e da política (houve quem dissesse, e bem, que a língua o é porque tem um exército por detrás); outro conceito importante é o da natureza “artificial” de todas as línguas, tal como o esperanto. As línguas são produto humano (repito, como o esperanto), construídas ao longo de séculos pelo homem em comunidade (aqui sim, o esperanto distingue-se, porque foi laboratorial, fruto de estudo individual e proposto como um sistema, totalizante); por último, por agora, uma língua cresce ao longo de séculos, afinando-se pela fala praticada em grupo e apenas mais tarde se reverte em escrita. Entre a sua criação, como fala, insisto, e a sua “transposição” (artificial também) em texto, decorrem por vezes muitos séculos. Daí que os “800 anos da língua portuguesa”, “comemorados” este ano com o aval da classe política, seja criação absurda, tendo mesmo no seu manifesto inicial, que guardo preciosamente, nem sequer citado uma vez as palavras galego ou Galiza*. Como pudéssemos falar de língua portuguesa sem falar do galego, como se a espada de Afonso Henriques (ou do escriba do testamento de Afonso II) tivesse ela também feito desabrochar “das entranhas da Mãe” uma língua nova, imaculada, nascida de um latim que durante mil anos tivesse estagnado à espera desse golpe de génio.
Custa a muitos portugueses, eu sei-o, dizer que a nossa língua nasceu do galego, ao qual se assemelha ainda e muito, essa língua praticada no noroeste peninsular (atenção: não apenas na actual Galiza), como custa dizer que afinal Teresa e seu filho só poderiam ter falado galego, porque galegos eram. Custa, porque o “nacionalismo” que praticam é o do Estado-nação, uniformizador e totalitário, avesso às origens verdadeiras e confusionista, identificando fronteiras com nações e línguas com Estados.
Sei-o porque muitos dos meus compatriotas ainda hoje, na Bélgica, onde ainda vivo, não conseguem entender a férrea disputa dos flamengos pela sua língua. Não entendem como num país bilingue (ou tri) não hão-de os flamengos vergar-se, é o termo, e falar francês (nunca exigem o contrário, note-se). Não compreendem que se a política linguística flamenga não fosse o que é independentemente de excessos claros e criticáveis) toda a periferia de Bruxelas seria hoje maioritariamente francófona. E não o é, por força daquela firmeza. Coloquem-lhes a questão (tema vivido em tempos no Algarve, onde existe uma população residente britânica e anglófona enorme) se aceitariam que a publicidade, em Portugal, fosse apenas redigida em inglês, e veriam os tais nacionalistas remoerem e protestarem.
*Rectificado mais tarde para 800 anos da escrita, mas foi tarde, muito tarde, os "princípios" estavam declarados e marginalizavam totalmente o galego.
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9 de dezembro de 2014
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