(prefácio à obra Voar, a propósito de esculturas de Maria Leal da Costa, com poemas de Nuno Guimarães e fotografias de João Frazão; edição trilingue: português, inglês e lituano, da Orfeu)
Uma força interior e superior, uma compulsão e uma inquietude, um estado febril de procura do fim, não o querendo verdadeiramente mas antes gozando deleitados o prazer do precurso, do ir fazendo, assim é, pode ser!, o que se chama inspiração.
Não é um sentimento - os sentimentos não dão, por si só, obras de arte – mas antes um racionalizar, uma redução do sentir, apoiado numa técnica laboral que é, normalmente, fundamental, e vivida num momento preciso, único e concentrado, e que resultam numa escultura, num poema, numa fotografia.
É insufuciente a reprodução do real – lição sabida -, pois se a ciência desenha a onda, a arte enche-a de água, nas palavras revisadas de Pascoaes, e sem esse conteúdo, que é forma-substância – ai dos que a pensam apenas essência! – o real, sempre o ontem, nunca seria o presente e o futuro, isto é a obra de arte, aquela que aparentando imutabilidade, renasce, ou devia renascer a cada aproximação e análise.
Não duvidamos que a banalidade é uma obra terrível dos nossos olhos - ainda a águia do Marão a leccionar – e que, por essa mesma razão, eles não nos bastam para uma apreciação funda e sentida da obra de arte.
Desbanalizar, ou seja, tornar diferente, dar valor novo, portanto, é o que consegue esta triangulação feliz entre as esculturas de Maria Leal da Costa, de quem já assinalamos a Graça, dos poemas de Nuno Guimarães, afirmando: ...ludribrio o teu presente / com futuro antecipado, e as fotografias de João Frazão, na recorrente procura de um tempo perdido.
Na analogia e na desavença, com donaire, ganhemos tempo, antecipando o futuro, aproveitando este trígono inspirado e inspirador.
Tervuren, 8 de Fevereiro de 2011
Joaquim Pinto da Silva
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8 de fevereiro de 2011
3 de outubro de 2008
Inês, naquele engano da alma, ledo e cego
(exposição no Castelo de Alter do Chão, inaugurada pelo Presidente da República, Julho de 2008)
Sabemos todos que a própria História afinal não passa de uma lenda, mais fundamentada por certo, mas não isenta de fantasia e manipulada por interesses pouco históricos e coevos da sua escrita. Das lendas se faz História e da História se fazem mitos, e daí se quem conta um conto lhe acrescenta um ponto, Maria Leal da Costa resolveu colocar o seu neste drama de paixão e apaixonante, que entusiasmou o Ocidente à época (meados do século XIV) e que motivou grandes escritores e artistas a abordarem-no em escritos, desenhos, pinturas, esculturas, partituras, etc.
Sabemos todos que a própria História afinal não passa de uma lenda, mais fundamentada por certo, mas não isenta de fantasia e manipulada por interesses pouco históricos e coevos da sua escrita. Das lendas se faz História e da História se fazem mitos, e daí se quem conta um conto lhe acrescenta um ponto, Maria Leal da Costa resolveu colocar o seu neste drama de paixão e apaixonante, que entusiasmou o Ocidente à época (meados do século XIV) e que motivou grandes escritores e artistas a abordarem-no em escritos, desenhos, pinturas, esculturas, partituras, etc.
Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito [1]
Com a sua firme rejeição do ordinário, do trivial, e também do espavento, da luxúria, como tive oportunidade de afirmar em anteriores textos, Maria persiste numa figuração diluída, entendível bastante, plena de simbólica e reprodutora de leituras. Este seu lado não convencional e marcadamente contemporâneo, pois de transição clara para um futuro ainda não classificado, de afirmação de síntese – essa odiada dos fingidos vanguardismos – entre as esgotadas abstracções puras e os figurativismos, está aqui bem presente neste conjunto de obras.
A rudeza de materiais e das construções apontam à crueldade de um assassinato bárbaro, com força crua... deste causa à molesta morte sua[2], justificado em políticas, isto é, em conjunturas, a que um refinamento sentimental, talvez plangente, se obstina em condenar, porque a eternidade de um amor se justapõe a qualquer proveito momentâneo. Morrei, Amores, que Inês morreu[3], e só a tragicidade do acto eterniza uma paixão sem par, como se este poema de martírio-amor-ardente tivesse sido escrito pela espada fina que trespassou a inditosa.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra uma dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?[4]
E os ferros da escultora coroam e ferem, no peito lhe enterrais os ímpios ferros[5], acentuam uma realeza que só o é, tardiamente, pelo sangue derramado, e um amor que só existe pela contundente dor, em perversa condição, de teu sangue os crueis tingem seus ferros[6]. As coroas são ásperas e agressivas, como o foi uma morte mas também uma póstuma magnificência, com vinganças e despeitos a acompanhar. Ó que coroa lhe aparelha a morte[7]... se amor houve a morte o coroou.
Não possa mais a paixão
Que o que deveis fazer;
Metei nisso bem a mão,
Que é de fraco coração[8]
Esse coração, fero e silvestre, provido de uma luz sanguínea, quase incandescente, que seduziu Pedro e se finou em clarões espaçados de agonia, era de Inês, a galega, dessa Galiza ainda hoje atraiçoada pelos mesmos, os do vence a razão do Estado, morre a do afecto[9], porque não soube defender-me, dei-me toda [10], e isso expia-se a cada jacto de luz. O grand’amor nunca se força[11], brota inato protegido por Nike (a grega deusa da Vitória), pela sua veracidade estrutural, como as esculturas de Maria Leal da Costa, reflectidas e impulsivas em sábia dosagem. Do ceptro é digna, impera em corações[12]. A escultora arrebata-nos com os mutantes piscares, ergue mais alto, sublima o drama, isto é, a vida, quer dizer... a morte, porque imparáveis irmãs, opostas razões siamesas, declinam em lampejos o verbo que vale a pena, o que sobeja, Amar.
Tervuren, 1 de Julho de 2008
Joaquim Pinto da Silva
[1] Camões [2] Camões [3] Bocage [4] Camões [5] Bocage [6] António Ferreira [7] António Ferreira [8] Garcia de Resende [9] Camões [10] António Ferreira [11] António Ferreira [12] Bocage
Joaquim Pinto da Silva
[1] Camões [2] Camões [3] Bocage [4] Camões [5] Bocage [6] António Ferreira [7] António Ferreira [8] Garcia de Resende [9] Camões [10] António Ferreira [11] António Ferreira [12] Bocage
2 de outubro de 2008
Peças para Casa de Camilo, Famalicão, 2008
Peça mármore e ferro
Retorcidos, alineares, complexos e sem pontas são os caminhos das paixões. Ana e Camilo não escaparam às tragédias contíguas à perdição do amor. As paixões…, boas e más, têm tal analogia, que parece haver uma só manivela para todos os corações.
Peça aneis encaixados (para pendurar)
Sobrepostamente, em Seide, se consumou amor e desgraça. Ao arrepio da lei e da perversidade humanas, as juras feitas selaram-se em alianças, até a desventura cega atacar pelo desespero.
Retorcidos, alineares, complexos e sem pontas são os caminhos das paixões. Ana e Camilo não escaparam às tragédias contíguas à perdição do amor. As paixões…, boas e más, têm tal analogia, que parece haver uma só manivela para todos os corações.
Peça aneis encaixados (para pendurar)
Sobrepostamente, em Seide, se consumou amor e desgraça. Ao arrepio da lei e da perversidade humanas, as juras feitas selaram-se em alianças, até a desventura cega atacar pelo desespero.
1 de outubro de 2008
Peregrinaçam, Fernão Mendes Pinto
Exposição de esculturas de Maria Leal da Costa
Abriu a 19 de Abril de 2008, em Matosinhos
Porque temo que os que quiserem medir o muito que há pelas terras
que eles não viram, com o pouco que vêem nas terras
em que se criaram, queiram pôr em dúvida, ou porventura
negar de todo o crédito àquelas coisas que se não conformam
com o seu entendimento e com a sua pouca experiência.
Fernão Mendes Pinto
Depois de abordar, a convite da Fundação Luso Espanhola, o tema das relações ibéricas, em exposição inaugurada em Sevilha, na primeira quinzena da Novembro de 2007, no Consulado de Portugal, e que seguiu para Bruxelas, no Edifício Madou da Comissão Europeia (segunda quinzena), Maria Leal da Costa dá corpo a um tema que a ocupa há mais de 2 anos, a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. Tal será em Matosinhos, a convite da Câmara, em programa paralelo ao Encontro de Literatura de Viagem, sob o título: Peregrinaçam, em que se dá conta de muitas e muito estranhas esculturas que criei ou recriei.
A nível formal, esta mostra acentua a viragem na produção da escultora, iniciada com aquelas duas citadas exposições, em direcção a uma ousadia expressiva que a coloca, sem dúvida, no que de melhor se produz a nível nacional.
Certo é que Maria resiste às tendências, obsessivas em muitos, das "confluências de linguagens", sobretudo à fácil utilização da imagem móvel. Tem recusado, não como princípio mas como método seu na actualidade, a inclusão de novas tecnologias da imagem, de modo a não sobrecarregar o amador, amarrando-o apaticamente em salas, frente a televisores, e adoptando materiais básicos próprios à sua formação, região e objectivos a que nesta fase se propõe: mármores, ferros e pouco mais.
"Na sua Serra de S. Mamede, em Marvão, fora do bulício urbano, a escultora elaborou uma série de trabalhos, alguns espectaculares pela dimensão e aparência, onde faz uma "tradução da Peregrinaçam. E dizemos tradução porque os seus trabalhos não só implicam uma interpretação, como também uma reformulação em linguagem outra da saga-sátira do homem nascido em Montemor-o-Velho".
A assombrosa retentiva, noção atribuída precedentemente por Teófilo Braga a Mendes Pinto referente à sua fabulosa memória, também a teve Leal da Costa, conseguindo nos seus trabalhos uma apreciação lata, viva e insinuante da obra-tema.
"Leal da Costa não procurou propriamente “explicar” a Peregrinaçam em esculturas, mas antes comentar, reescrever, uma obra inesgotável de perspectivas e de impressões, numa evocação de passos, de momentos. Construiu, assim, uma coerência narrativa de pedra e ferro capaz de, em espaço e volumes, nos atrair de imediato, abstraindo o referente – afinal o importante, aqui e agora, é o exibido -, mas também, concomitantemente, de nos impelir à leitura e releitura da obra-mestra de há 400 anos.
Maria executou estas esculturas apoiada numa firme recusa do banal", fugindo ao simplismo "em respeito criterioso de dois valores patentes: a diferença, que não a originalidade a todo o preço, e a responsabilidade (em si mesma) pela obra feita. Tudo blindado à exibição mundana e ao complexo vanguardista".
A obra Maria, mentes? Minto, que consiste num velho e morto castanheiro, oco e grandioso, deitado em cima de uma armação de ferro, ao qual está acorrentado, é genial de evocação da temática da obra nas suas diversas lições. Esse madeiro que serviu ao fabrico de caravelas e naus, que é aparatoso e grandeza por fora, mas podre e oco por dentro, que navega por cima dos andaimes do Império, a seco, que é natureza e liberdade, mas agrilhoado às teias da mesquinhez da nação é uma obra espectacular e diremos mesmo de fundo místico, pela consciência natural que porta, pela humanidade que se ressente, pelas mensagens quase ocultas que transporta.
"É um gesto pensado e maduro, um monumento à contenção exterior do sempre limitado saber face ao sempre inconfinado ignoto, mas paralelamente um produto de imaginação fecunda, aquela que prevale e precede a ciência.
Esta peça, a merecer espaço público ajustado, sagra em natureza e humanidade uma ímpar obra da cultura portuguesa para a qual remete, sem por isso prescindir da sua autónoma afirmação contemporânea. Côncava Funda da Casa do Fumo, enigma useiro em Mendes Pinto (Lúcifer, por vezes explicitado), poderia também chamar-se. Afinal ignorância e intolerância, a par com a ousadia e a intrepidez são a nossa podridão frondosa, a nossa grandeza oca."
"A facilidade de viagem, a sua democratização, e o império universal da comunicação, nas suas versões mais privadas ou mais públicas, colocaram o “mundo na aldeia” e não o inverso, como muitas vezes se pensa. Nas artes plásticas a mudança é então profunda: ninguém espera, ansioso, que um artista chegado de Nova Iorque, Berlim e muito menos de Paris lhes traga a novidade, o espavento último, que surpreendeu, que viu, que presenciou. Maria, atenta e viajada, sabia antes e agora mais ainda, que o cosmopolitismo, como valor acrescentado a uma cultura, como adjunção de perspectivas e novas maneiras, era importante mas não essencial. Fincou-pé na terra, de onde lhe arrancou os materiais, e produziu estas peças que, sendo dele, transpõem o seu tempo. Está ciente que a novidade pode ou deve procurar ultrapassar a sua época, colocar-se além, mas humilde e implicitamente reconhece a sua pertença de raiz ao que corre, ao que partilha com o mundo, e que só assim a sua obra não morrerá à nascença.
Este texto, apoiado em partes retiradas do catálogo a sair, pretende chamar a atenção para esta exposição e para a carreira desta escultora, longe ainda do reconhecimento que merece, talvez pela independência que revela e pela carreira paulatina, segura e sólida que patenteia, tão fora das explosões efémeras e das pompas das cortes artísticas dominantes.
Joaquim Pinto da Silva
28 de outubro de 2007
A repulsa do ouropel, a Graça na obra de Maria Leal da Costa
(texto para a exposição no Consulado de Portugal, em Sevilha, e no edifício Madou, da Comissão Europeia, em Bruxelas, ambas entre Novembro e Dezembro de 2007)
Será porventura um lugar comum, nos nossos dias, dizer que um artista plástico não se insere numa determinada corrente ou escola. Será, mas não é pelo facto de a repisar até à exaustação que uma verdade, ou mentira!, o deixa de ser, reconhecendo embora o valor persuasivo da repetição, nem muito menos que a sua utilização operativa seja desnecessária.
A mesma asserção aplica-se ao conceito de vanguarda, a mor das vezes transmudado, desnaturado, exactamente em categoria de escola e corrente, outorgando aos seus membros uma qualidade, um privilégio inatacável e restritivo.
Por outro lado, hoje em arte não há um tempo internacional, menos ainda unânime que reconhecido, excepto se o considerarmos como aberto, lato abrangente, portanto, permissivo, logo inoperacional do ponto de vista crítico[1].
É fincado nestas alegações que pretendo arrumar, em sumário, o percurso de Maria Leal da Costa e, no concreto, esta viragem sensível e sentida com as obras desta exposição preparada para Sevilha e Bruxelas.
Desafiando-se e desafiada por um mote histórico-cultural – as relações com o Estado vizinho nas suas constituintes e contradições – a escultora ancorou-se num dicionário de formas largo, significante, simultaneamente patente e enigmático, capaz de presentificar essas realidades da geografia, das histórias, das culturas, das sociedades que, aquém-Pirinéus, conjunta e separadamente vivem e sobrevivem. Não esqueçamos aqui a mutabilidade, a capacidade de reescrita próprias à História, por oposição à perenização (relativa) da obra de Arte. Não esqueçamos ainda que, em liberdade, o direito centrípeto a uma confluência, é companheiro igualitário – deve ser – do direito centrífugo à dispersão, e esta proposição é pertinente nos aspectos multifacetados das sociedades.
Os assomos de mudança de rumo criativo que as esculturas Jogo de Memórias, na Câmara de Portalegre e, sobretudo, Gilreu, em Bruxelas e O Poder do Silêncio, em Vilnius, tanto denunciavam, assume-se aqui e agora como caminho seguro e não como simples experiências avulsas. Se hace camiño al andar prova-o assim Maria Leal da Costa numa pragmática de continuidade/ruptura de sentido ascendente, distinta, isso sim, dum por aí generalizado e aparente “triunfo” precoce, obviamente em declive a posteriori que, só pode ser, vazante.
Enquadrando a sua obra numa tríade possível de abordagem do processo criativo: Tema, Substância, Acaso, estas obras evidenciam uma simplicidade plástica formal - apartada dos minimalismos redutores e dessa forma pura, tão do agrado da sociedade pósmoderna - acompanhada por um esquematismo criativo de linhas claras mas, insisto!, de significações abertas e motivadoras.
De fora das grandes elaborações[2] teóricas, que amiúde escravizam o labor feito, não se julgue por isso, que o cinzel e o torno da escultora se passeiam diletantes sobre os materiais, num desnorte dirigido pelo acaso[3]. Não! Há uma sabedoria de aplicação regrada entre este e a substância pretendida, isto é, entre um ponto de partida, ainda que indeciso e vago, e um ponto de chegada, um ensaiar, um proceder através de propostas e esboços, interrogações pacientes da matéria[4].
A matéria é assim uma espécie de obstáculo sobre o qual se exerce a actividade inventiva[5]
A obra de Maria Leal da Costa é uma ondulação pacífica, mais de pulsão que de razão, não eliminando esta, antes a submetendo, numa rebelião de silêncio, sem estapafúrdios e excentridades, absolutamente independente e consciente de que a procura da identificação não tem nenhum interesse; pelo contrário, o interesse reside na diferença, posto que a criação justamente deriva dela[6].
Há ainda uma busca da essencialidade, pela bipolaridade das peças que são levadas a um singelismo atractivo e peculiar, em brevidade de impulsos e palavras talhadas ou cortadas, numa capacidade de simplificar os meios para eliminar o desnecessário para que o necessário possa falar[7].
Nas conjugações felizes de mármores e ferros, nas alianças, certas ou aparentes, nos anéis encaixados ou sobrepostos, nas ramificações e penetrações de tubos, nos enroscados, não se ditam, não se decretam caminhos artísticos, vias únicas para a salvação das Artes, e muito menos da História. Antes há uma proposta de Graça, de encanto e sedução, capaz de levar mais fundo e enriquecer o passante, numa necessária e salutar desbanalização da vida[8].
Decorrentemente talento e produção se cruzam nestas obras, abstraídas duma obsessão de originalidade – preterida, como dissemos, à essencialidade – e na negativa da arte-espectáculo, numa contemporaneidade vivida sem temores ao cotejo e sem intenções de doutrinação.
Não há mais Salões de Nadar onde os visitantes se horrorizam com as pinturas expostas ou críticos a chamar mordazmente fauves aos artistas petulantes. Podem colar excrementos às telas, defecar em perfomances bcbg[9] ou ainda automutilarem-se em directo; nada, mas nada, hoje em dia, pasma um público e uma crítica revestidos de carapaças resistentes a toda a insolência, por força da sua banalização e iteração. Os complexos, em Arte, podem não ser, e não o são na maior parte dos casos, de inferioridade, mas são seguramente sentimentos inferiores.
A produção de Maria Leal da Costa insere-se então numa muito abrangente movimentação para um certo retorno da arte a um espaço de negociação[10], onde o trabalho, como a liberdade, não são desfechos mas antes trajectória, e onde se reassume a transcendência do objecto criado, que não é apenas o que ali está, mas também a sua capacidade de gerar individuais interpretações: nem definitivas, nem exclusivas, nem provisórias, nem aproximativas[11].
E se ao crítico compete, de uma certa maneira eliminando a noção de belo, desvirginar, racionalizar[12] a leitura da obra, considerando-a sempre como produto inacabado[13], para o artista, em processo de elaboração, a independência, a indiferença, em relação àquele e ao público, deve ser total.
Maria Leal da Costa, na fabricação de escultura, não se debate perdulariamente entre o verdadeiro e o falso, o retrocesso ou a evolução, problemas enfim exteriores à substância da Arte; contrapõe, em pedra e ferro, um empenhamento resoluto numa intenção, temperada por um preclaro talento.
A mesma asserção aplica-se ao conceito de vanguarda, a mor das vezes transmudado, desnaturado, exactamente em categoria de escola e corrente, outorgando aos seus membros uma qualidade, um privilégio inatacável e restritivo.
Por outro lado, hoje em arte não há um tempo internacional, menos ainda unânime que reconhecido, excepto se o considerarmos como aberto, lato abrangente, portanto, permissivo, logo inoperacional do ponto de vista crítico[1].
É fincado nestas alegações que pretendo arrumar, em sumário, o percurso de Maria Leal da Costa e, no concreto, esta viragem sensível e sentida com as obras desta exposição preparada para Sevilha e Bruxelas.
Desafiando-se e desafiada por um mote histórico-cultural – as relações com o Estado vizinho nas suas constituintes e contradições – a escultora ancorou-se num dicionário de formas largo, significante, simultaneamente patente e enigmático, capaz de presentificar essas realidades da geografia, das histórias, das culturas, das sociedades que, aquém-Pirinéus, conjunta e separadamente vivem e sobrevivem. Não esqueçamos aqui a mutabilidade, a capacidade de reescrita próprias à História, por oposição à perenização (relativa) da obra de Arte. Não esqueçamos ainda que, em liberdade, o direito centrípeto a uma confluência, é companheiro igualitário – deve ser – do direito centrífugo à dispersão, e esta proposição é pertinente nos aspectos multifacetados das sociedades.
Os assomos de mudança de rumo criativo que as esculturas Jogo de Memórias, na Câmara de Portalegre e, sobretudo, Gilreu, em Bruxelas e O Poder do Silêncio, em Vilnius, tanto denunciavam, assume-se aqui e agora como caminho seguro e não como simples experiências avulsas. Se hace camiño al andar prova-o assim Maria Leal da Costa numa pragmática de continuidade/ruptura de sentido ascendente, distinta, isso sim, dum por aí generalizado e aparente “triunfo” precoce, obviamente em declive a posteriori que, só pode ser, vazante.
Enquadrando a sua obra numa tríade possível de abordagem do processo criativo: Tema, Substância, Acaso, estas obras evidenciam uma simplicidade plástica formal - apartada dos minimalismos redutores e dessa forma pura, tão do agrado da sociedade pósmoderna - acompanhada por um esquematismo criativo de linhas claras mas, insisto!, de significações abertas e motivadoras.
De fora das grandes elaborações[2] teóricas, que amiúde escravizam o labor feito, não se julgue por isso, que o cinzel e o torno da escultora se passeiam diletantes sobre os materiais, num desnorte dirigido pelo acaso[3]. Não! Há uma sabedoria de aplicação regrada entre este e a substância pretendida, isto é, entre um ponto de partida, ainda que indeciso e vago, e um ponto de chegada, um ensaiar, um proceder através de propostas e esboços, interrogações pacientes da matéria[4].
A matéria é assim uma espécie de obstáculo sobre o qual se exerce a actividade inventiva[5]
A obra de Maria Leal da Costa é uma ondulação pacífica, mais de pulsão que de razão, não eliminando esta, antes a submetendo, numa rebelião de silêncio, sem estapafúrdios e excentridades, absolutamente independente e consciente de que a procura da identificação não tem nenhum interesse; pelo contrário, o interesse reside na diferença, posto que a criação justamente deriva dela[6].
Há ainda uma busca da essencialidade, pela bipolaridade das peças que são levadas a um singelismo atractivo e peculiar, em brevidade de impulsos e palavras talhadas ou cortadas, numa capacidade de simplificar os meios para eliminar o desnecessário para que o necessário possa falar[7].
Nas conjugações felizes de mármores e ferros, nas alianças, certas ou aparentes, nos anéis encaixados ou sobrepostos, nas ramificações e penetrações de tubos, nos enroscados, não se ditam, não se decretam caminhos artísticos, vias únicas para a salvação das Artes, e muito menos da História. Antes há uma proposta de Graça, de encanto e sedução, capaz de levar mais fundo e enriquecer o passante, numa necessária e salutar desbanalização da vida[8].
Decorrentemente talento e produção se cruzam nestas obras, abstraídas duma obsessão de originalidade – preterida, como dissemos, à essencialidade – e na negativa da arte-espectáculo, numa contemporaneidade vivida sem temores ao cotejo e sem intenções de doutrinação.
Não há mais Salões de Nadar onde os visitantes se horrorizam com as pinturas expostas ou críticos a chamar mordazmente fauves aos artistas petulantes. Podem colar excrementos às telas, defecar em perfomances bcbg[9] ou ainda automutilarem-se em directo; nada, mas nada, hoje em dia, pasma um público e uma crítica revestidos de carapaças resistentes a toda a insolência, por força da sua banalização e iteração. Os complexos, em Arte, podem não ser, e não o são na maior parte dos casos, de inferioridade, mas são seguramente sentimentos inferiores.
A produção de Maria Leal da Costa insere-se então numa muito abrangente movimentação para um certo retorno da arte a um espaço de negociação[10], onde o trabalho, como a liberdade, não são desfechos mas antes trajectória, e onde se reassume a transcendência do objecto criado, que não é apenas o que ali está, mas também a sua capacidade de gerar individuais interpretações: nem definitivas, nem exclusivas, nem provisórias, nem aproximativas[11].
E se ao crítico compete, de uma certa maneira eliminando a noção de belo, desvirginar, racionalizar[12] a leitura da obra, considerando-a sempre como produto inacabado[13], para o artista, em processo de elaboração, a independência, a indiferença, em relação àquele e ao público, deve ser total.
Maria Leal da Costa, na fabricação de escultura, não se debate perdulariamente entre o verdadeiro e o falso, o retrocesso ou a evolução, problemas enfim exteriores à substância da Arte; contrapõe, em pedra e ferro, um empenhamento resoluto numa intenção, temperada por um preclaro talento.
Eu sou bela, ó mortais, como um sonho de pedra[14].
Joaquim Pinto da Silva
Tervuren, 28 de Outubro de 2007
Notas:
[1] Longe vai o tempo, o último neste sentido, em que Miguel Wandshcneider, em Circa 1968, Museu de Serralves, dizia, “em Portugal não faltam artistas sintonizados com os paradigmas emergentes, o que falta é uma assimilação e dominância desse mesmo paradigma”. Exactamente o que desapareceu, pulverizando-se sem remédio, foi esse mesmo conceito de paradigma único, mandante.
[2] E de “elaboradas explicações largamente denecessárias”, como acentuou explicitamente a Documenta 12, em Kassel, que Maria Leal da Costa, atenta e conhecedora, visitou, assim como visitou a Skulptur Project, em Münster.
[3] Longe também vai o Action Painting, esgotada que foi a sua efémera, ainda que valiosa, lição.
[4] Pareyson.
[5] Umberto Eco.
[6] Gao Xingjian.
[7] Hans Hoffman.
[8] Leonardo Coimbra.
[3] Longe também vai o Action Painting, esgotada que foi a sua efémera, ainda que valiosa, lição.
[4] Pareyson.
[5] Umberto Eco.
[6] Gao Xingjian.
[7] Hans Hoffman.
[8] Leonardo Coimbra.
[9] Bon chic, bon genre.
[10] Documenta 12.
[11] Umberto Eco.
[12] Gao Xingjian.
[13] Michel Butor.
[14] Baudelaire.
[10] Documenta 12.
[11] Umberto Eco.
[12] Gao Xingjian.
[13] Michel Butor.
[14] Baudelaire.
1 de maio de 2007
Silence
of
Maria Leal da Costa
Follower of the formal strictness and without adornments, not needing extravagance to affirm originality, or the provocation either to indicate challenge, the work of Maria Leal da Costa matches the modern way of her time, without expunge a traditio that she assimilated well and she assumes entirely.
In that heritage is, for instance, the increase of the valorisation of the materials that in their qualities, textures and colours are an integrant part of the meanings and not only it support. In her contemporaneousness a constant register is pointed out between the figure and its evocation, for times tenuously, in a simultaneously reflected and impulsive poetics, indifferent at the explicative prefixed concepts and at the categories imposed by the prevailing critics.
Being born is to put on the mask and in the modulation of the representations that we choose, the valid ones, i.e. the sincere ones, it exists that of assuming the functions, the ages, the homelands that our life knows.
In this beautiful Lithuania it will remain Silence - Philosophy’s first temple stone – that was simply conceived but conscientiously that the stone represents absolute ecstasy, the absolute serenity, the dead and angelical state of the things and that all the enigma of the life is closed in the head of an ant.
It is a homage to those who elected, forced or voluntary, silence as knowledge, sometimes even The supreme knowledge, or elected it as a weapon, often with a deafening effect, knowing we that the artworks are great due to their indefinite and imperfect content, and from this fertile imperfection is our spirit fed.
Peoples are big and their geography is scarce – therefore, the rivers Nemunas or Tejo, the Neris or Douro, are more valuable than their distance –but we are aware of our contingency: the infinity is itself minus the meter in which we stand out; the eternity is itself minus the hour in which we live.
If we want – tells us Maria Leal da Costa -, and in the highest wall the breach appears, and in the opposite side of the rubble, the tight fist point to the inventor of the silence: remove the word humanity and we will be covered of hair, in an moment.
(Text on aphorisms of the Portuguese poet Teixeira de Pascoaes, about the sculpture Silence, of Maria Leal da Costa (http: // www.mlealdacosta.com), done in May of 2007, in the Park of Vilnoja, Lithuania).
Joaquim Pinto da Silva
Maria Leal da Costa
Follower of the formal strictness and without adornments, not needing extravagance to affirm originality, or the provocation either to indicate challenge, the work of Maria Leal da Costa matches the modern way of her time, without expunge a traditio that she assimilated well and she assumes entirely.
In that heritage is, for instance, the increase of the valorisation of the materials that in their qualities, textures and colours are an integrant part of the meanings and not only it support. In her contemporaneousness a constant register is pointed out between the figure and its evocation, for times tenuously, in a simultaneously reflected and impulsive poetics, indifferent at the explicative prefixed concepts and at the categories imposed by the prevailing critics.
Being born is to put on the mask and in the modulation of the representations that we choose, the valid ones, i.e. the sincere ones, it exists that of assuming the functions, the ages, the homelands that our life knows.
In this beautiful Lithuania it will remain Silence - Philosophy’s first temple stone – that was simply conceived but conscientiously that the stone represents absolute ecstasy, the absolute serenity, the dead and angelical state of the things and that all the enigma of the life is closed in the head of an ant.
It is a homage to those who elected, forced or voluntary, silence as knowledge, sometimes even The supreme knowledge, or elected it as a weapon, often with a deafening effect, knowing we that the artworks are great due to their indefinite and imperfect content, and from this fertile imperfection is our spirit fed.
Peoples are big and their geography is scarce – therefore, the rivers Nemunas or Tejo, the Neris or Douro, are more valuable than their distance –but we are aware of our contingency: the infinity is itself minus the meter in which we stand out; the eternity is itself minus the hour in which we live.
If we want – tells us Maria Leal da Costa -, and in the highest wall the breach appears, and in the opposite side of the rubble, the tight fist point to the inventor of the silence: remove the word humanity and we will be covered of hair, in an moment.
(Text on aphorisms of the Portuguese poet Teixeira de Pascoaes, about the sculpture Silence, of Maria Leal da Costa (http: // www.mlealdacosta.com), done in May of 2007, in the Park of Vilnoja, Lithuania).
Joaquim Pinto da Silva
The Power of the Silence, Vilnius, Lituânia
(Texto sobre aforismos do poeta Teixeira de Pascoaes, para a escultura O Poder do Silêncio, realizada e instalada definitivamente no Parque de Vilnoja, na Lituânia, em Maio de 2007)
Nascer é pôr a máscara e na modulação das representações que escolhemos, as válidas, isto é, as sinceras, existe essa de assumirmos as funções, as idades, as pátrias que a nossa vida vai conhecendo.
Nesta bela Lituânia ficará o Silêncio - essa primeira pedra do templo da filosofia – concebido singelamente mas na consciência de que a pedra representa o êxtase absoluto, a serenidade absoluta, o estado morto e angélico das coisas e de que todo o enigma da vida está fechado na cabeça de uma formiga.
É preito àqueles que forçada ou voluntariamente elegeram o silêncio como saber, por vezes o supremo, ou como arma, amiúde com um ensurdecedor efeito, sabendo nós que as obras de arte são grandes pelo indefinido e imperfeito que encerram, pois dessa imperfeição fecunda se alimenta o nosso espírito.
Os povos são grandes e a sua geografia é escassa – por isso, os rios Nemunas ou o Tejo, o Neris ou o Douro, valem mais que o seu percurso – mas sabemos da nossa contigência, o infinito é ele menos o metro em que avultamos; a eternidade é ela menos a hora em que vivemos.
Queiramos nós, na muralha altaneira se abre a brecha, no lado oposto ao entulho, o cerrado punho indicia o inventor do silêncio: eliminem a palavra humanidade e ficaremos cobertos de pêlo, num instante.
JPdS
Nascer é pôr a máscara e na modulação das representações que escolhemos, as válidas, isto é, as sinceras, existe essa de assumirmos as funções, as idades, as pátrias que a nossa vida vai conhecendo.
Nesta bela Lituânia ficará o Silêncio - essa primeira pedra do templo da filosofia – concebido singelamente mas na consciência de que a pedra representa o êxtase absoluto, a serenidade absoluta, o estado morto e angélico das coisas e de que todo o enigma da vida está fechado na cabeça de uma formiga.
É preito àqueles que forçada ou voluntariamente elegeram o silêncio como saber, por vezes o supremo, ou como arma, amiúde com um ensurdecedor efeito, sabendo nós que as obras de arte são grandes pelo indefinido e imperfeito que encerram, pois dessa imperfeição fecunda se alimenta o nosso espírito.
Os povos são grandes e a sua geografia é escassa – por isso, os rios Nemunas ou o Tejo, o Neris ou o Douro, valem mais que o seu percurso – mas sabemos da nossa contigência, o infinito é ele menos o metro em que avultamos; a eternidade é ela menos a hora em que vivemos.
Queiramos nós, na muralha altaneira se abre a brecha, no lado oposto ao entulho, o cerrado punho indicia o inventor do silêncio: eliminem a palavra humanidade e ficaremos cobertos de pêlo, num instante.
JPdS
1 de janeiro de 2007
Hasta la muerte, escultura
Hasta la muerte
Perde muito quem não vê a outra face das coisas
Provérbio chinês
Provérbio chinês
A sabedoria morrerá às mãos de si mesma ou da sua falta… sobretudo, da sua falta. É o entendimento – como consciência do Ser e do seu acanhamento - que nos diz isto. Só que o entendimento é poético, é sumamente individual, logo condenado a não se expandir por si, a restringir-se ao sujeito.
Da floração à morte e seu retorno, um ciclo condicionado pelo mineral que também somos e, infindo, cremos nós, na nossa exígua participação no cosmos.
Nas seis caixas-flores (não é o sete a perfeição?, então a lição é clara!), o passante rodando verá morrer e renascer, definhantes e pletóricas, sem axiologias, linear na sua redutora e contundente afirmação da maior verdade que conhecemos e entendemos, a vida… a morte.
Da floração à morte e seu retorno, um ciclo condicionado pelo mineral que também somos e, infindo, cremos nós, na nossa exígua participação no cosmos.
Nas seis caixas-flores (não é o sete a perfeição?, então a lição é clara!), o passante rodando verá morrer e renascer, definhantes e pletóricas, sem axiologias, linear na sua redutora e contundente afirmação da maior verdade que conhecemos e entendemos, a vida… a morte.
2
Circunda-se, e as mutações sucedem-se entre confluências e dissensões, numa espécie de dança em que repulsas e atracções se alternam mas mutuamente se sustentam. Não há volubilidade, porque o enlace é sólido, inalterável.
Em ferro e mármore é este canto: dos materiais herdou a força, a solidez, a alvura e a ferrugem; a graça veio-lhe do fogo e do buril; da singeleza do risco advém-lhe a elegância; por fim, o sentimento procede da ternura do amanho, da conjugação da imprevisibilidade da intenção com a certeza do acaso.
Em ferro e mármore é este canto: dos materiais herdou a força, a solidez, a alvura e a ferrugem; a graça veio-lhe do fogo e do buril; da singeleza do risco advém-lhe a elegância; por fim, o sentimento procede da ternura do amanho, da conjugação da imprevisibilidade da intenção com a certeza do acaso.
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