Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.
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23 de fevereiro de 2010

Para o Francisco Fialho do Blog Nortadas

A alma, ao contrário do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a matéria. Em certos homens a alma chega a ser visível, a atmosfera que os rodeia tomar cor. Há seres cuja alma é uma contínua exalação: arrastam-na como um cometa ao oiro esparralhado da cauda - imensa, dorida, frenética. Há-os cuja alma é de uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. Daí também simpatias e antipatias súbitas quando duas almas se tocam, mesmo antes da matéria comunicar. (Raul Brandão )

E, depois da fala do Mestre, devia ficar calado.Mas, que queres? As vãs glórias empurram-nos para a exibição, não resistimos ao acrescento, ao detalhe de mão, à nota pessoal – que prezarás, por certo! –, mas que talvez sejam afinal o conteúdo da vida, pois o desconhecido, a transcendência, o cogitare, é curta conversa, ínfima no quotidiano. E, por isso, cá estamos, testemunha da transmutação… de um rio noutro, sim porque os de alma visível, não têm revelação mais que espante.
E é disto mesmo que precisamos: da grandeza das transparências, das persistências de causas que endourecem, de correntes contínuas de dedicação, de procura e de humanismo, de caudais de carácter, como tu, … como o Douro.

23.2.2010
Joaquim Pinto da Silva

10 de maio de 2009

Irina Veretennicoff

Chère Irina,

Ton intelligence, ta générosité, cette capacité de voir dans les détails le fonds des cœurs humains, cette argutie qui fait de quelqu’un un être supérieur, ces capacités et dons, nous les avons remarqués chez-toi depuis le début de notre chemin commun.
Bénéficier de ton amitié est un privilège irrévocable, une richesse à la quelle nous tenons comme les grands valeurs de nos familles.
Félicitations

Fernanda et Joaquim

14 de julho de 2008

Para a IL

Para a IL, no dia do seu aniversário, 22.10.2003

Mas que Jornada esta!

Acordei com raiva! Afinal, nada de novo, todos os dias é assim. Este grisalho céu está distante do nosso, como a restinga está do horizonte.
Nessa restinga, habituamo-nos a ver por entre paus de oliveiras e laranjas arrancadas pelas cheias, uma infinita quantidade de objectos, uns banais, outros repulsivos, a que nunca indiferentemente reagíamos, mantendo sempre a atracção da possível descoberta. Quem sabe se nas derradeiras horas um náufrago não teria deixado uma mensagem, ou um lanternim de barco afundado não estaria encoberto na gravilha, ou ainda, a moeda, a volta, o anel dos desgraçados não brilharia meio encoberto na areia?

Ir à praia era o dia-a-dia, mas é curioso que, sendo o Verão a animação, a descoberta das moçoilas da aldeia, o piscar d'olhos desejoso e provocante, o divertimento, é do Inverno que guardamos as lembranças: o aterrador barulho, constante e abafado, do mar, a tempestade, "a que derrubava palmeiras", a nortada, nunca gélida mas penetrante, as bonanças que nos permitiam, pelas mãos seguras dos nossos Pais – que saudades! -, ver os escolhos dos navios, a marginal devastada, o acirrar da miséria pelas cheias na Cantareira, onde ainda não passava o Chico Fininho.

E do alto do meu Farol, o da Luz, quando olhava o teu, o da Barra, pensava que, como mundo, era bastante. Tanta gente, a nossa, conhecendo-lhes as misérias e a grandeza, as vias, o comércio, as casas, ricas e pobres emparelhadas, o rio e o mar sem os quais lhe faltaria o ser, o Monte e Túnel das minhas avós, o imenso jardim de acácias e araucárias, os campos lavrados, o sável a saltar nas linguetas do Marégrafo, a Casa Mourisca mentirosa da sua idade, o Bico de Sobreiras a marcar a curva, a Pérgula a recordar magalas e engates, a viela dos Abraços perigosa e confidente, e por aí adiante.
Sabemos agora – já desconfiávamos! - que outros mais exóticos e diferentes mundos não apenas não apagaram aquele como o valorizaram, numa mistura de realidade e de visão ideal a que a ausência se presta.

Aquela rua cheirava a mistério: empedrada, estreita, bordejada, ora de altos muros ora de cantarias trabalhadas, tinha à ponta, o grande, o sempre fechado castelo, onde à socapa se trepava pelas frecheiras de granito, e no topo, o religioso Antero de Figueiredo, a guardar o mercado e o lavadouro da Ervilha. Cercava o que? Será como dizem os sabidos, as posições liberais nos longínquos mil oitocentos e trintas, ou já vinha de trás, e protegia o centro da aldeia, o da rua Central, o Paraíso, o largo que deve o nome à feira que ali houve?
Se me recordo das britânicas festanças do colégio, da casa de bonecas do Zé, o nosso futuro campeão nos courts, o palacete dos Peixotos, o carpinteiro, e tudo o resto, o que está e o que se foi, mais viva na memória, signo e sinal da tortuosa via que ligava os campos da Ervilha aos baluartes do fortim, estás tu, I, querida amiga, espaço único e integrado no que eu próprio sou.
Na boca o sabor a sal. Vir-nos-á da espuma transportada pela ventania, contra a qual abríamos a boca no Alto Castelo, ou do simples pousar, silencioso e regular nos nossos lábios, das gotas vindas de cima?
Com verdade, não posso eu, nem tu, dizer que é apenas tristeza.
Parabéns!

QZ

Para a RF

Para a RF, num dia triste para ela e para todos os que a conhecem
30 de Janeiro de 2002

Não me perguntes porquê...porque não sei

Amor meu,

Vinha do Castelo do Queijo, passeando a vista pelos belos palacetes de Montevideu, com o Salazar a vigiar-me feito (e bem) Homem do Leme, e curvo para a Brasil, minha morada hoje e caminho de sonhos e namoricos e digestivos passeios em grupos a rever a vida e a programar borgas (recordas-te?), e a romântica Pérgula que se falasse poria a chorar muitos corações, como também se chora ao fixarmo-nos sobre o Homem do Salva-Vidas, duro, trágico, tal como nos "Pescadores" do Raul Brandão (que devias reler, tanta humanidade lá dentro), e o "afoga-cães", que não sei se destes afogou, antes, e pelo seguro, "desafogou" almas e corpos, e passei à "minha" praia, a da Luz, onde ainda trato as pedras por tu, cada taloca na memória, a poça, de 2 metros de largura e não mais que metro e meio de profundidade, e que, valente e orgulhoso atravessei a nado e que foi acto a merecer a Ordem de Santiago e Espada, e continuei pela Senhora da Luz, cruzei gentes que amo e me "pertencem" – como poderia viver sem eles? – e reflecti frente ao Moreira, o NOSSO Moreira, de horas perdidas e ganhas, em discussões, em olhares e desejos, a preparar o Douro em Vila Cova (que raiva!, que dor me aperta? Qual será?), e a desvendar ambições: a televisão a cores, o próximo automóvel, as férias. Avancei roído do tempo que passou, vi a barra, cujos poentes "faziam desmaios", como disse o António Nobre, e o farol mais bonito do mundo, porque quero que assim seja, e cheirou-me à maresia, ao nevoeiro espesso que nos esfria (ou aquece?) e mete a alma no lugar (como o vinho do Porto para a criada do Eça de Queiroz), e creio mesmo que ouvi a ronca, essa que gravei e que trouxe para fora, quando me "prostituí", e que ainda me soa quando a maldição do pensamento voa para aí.
0 Castelo não mexeu – como sempre! - ao passar defronte, resisti aos bolos do Chalé, a Matriz sobranceira lá estava, curvei os Pilotos. Passei pelo Chico Fininho e subi S. João, abanquei à porta do Faria e estavas lá. Estavas e estarás, porque...nunca passaria por lá sem ver a G à janela.

QZ

20 de janeiro de 2005

Carlos Mendonça (à l'occasion de son décès)

A Carlos,

Lois faites, statues contemplés, odes écrites,
Tout a sa fosse. Si nous, chairs à quoi
Un soleil intérieur donne le sang, avons
Un couchant, pourquoi pas elles?
Nous sommes des contes contant des contes - le néant.

Fernando Pessoa

Il y avait un horizon, large comme notre mer, de choses à vivre, de choses à faire.
Tout promettant était le jour suivant.
J'ai pu encore te montrer mon espace, ma ville, mon terroir, ma ‘terre’.
Tu iras, sûrement et sans faille, me montrer celle qui est sera désormais la tienne.

Mais ce n'est pas perdu Carlos!

La connaissance préalable de notre sort n'élimine pas le désarroi, le trouble.
L'impuissance vitale n'empêche pas notre fureur contre cette destinée.
La défaite assurée ne coupe pas notre âme à poursuivre.
Cette rencontre, c'est catarse, oui!, mais c'est aussi notre défense.

Ce n'est pas perdu Carlos!

Et il y a Sofia et Carlos Eduardo, preuve sinon de triomphe, signe fort de tenace résistance.

Il y a encore et aussi Albertina, tendre et constante compagne, courageuse, qui sera plus forte, d’elle-même et de ton image.

et, derrière elle, cette marée de larmes et mémoires de ceux qui t'on connu, et inévitablement aimé.

Ce n'est pas perdu, Carlos! Ce n'est pas perdu!

Perdants, perdants, ... sommes nous!

Joaquim Pinto da Silva
Bruxelles, le 20 janvier 2005

16 de janeiro de 2003

Para o João do Raul Brandão (aquando do funeral)

Um minuto sós a sós com o espanto, a infame igualitária não desvanece: retorno, que cremos sempre precoce, ao pó primário, falência abrupta do alienante optimismo.

Não tem ideias, não envelhece, enruga-se em nós, força-nos a vir aqui egoisticamente recordar não a inapelável – a tua ! –– mas a nossa, a que nos espreita, aquela a que ansiamos escapar ingenuamente avançando no redil, rodando como o ponteiro, de alfa a alfa inexorável.

“Agita-se então em sonhos o mundo que não existe, e os mortos adquirem uma expressão que é a da minha própria alma. Se isto é ternura, a ternura é o que há de melhor no mundo ; se é saudade, a morte é o que há de melhor na vida.”

Não a saberemos afrontar como tu, mas, o que nos desassossega, é ela repetir a truculência connosco. Os nossos medos foram a tua dor; a nossa recordação, a ambição da irrepetibilidade.

A evocação, João, é - tudo bem pesado - também de nós próprios.

Afinal… sempre foi assim!

Tervuren, 16 de Janeiro de 2003