Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

29 de outubro de 2018

Do Pasteleiro à Pasteleira Notas de História, 2016

Do Pasteleiro à Pasteleira
Notas de História

Os 26 casais (casa de campo) referenciados em Lordelo pelas Inquirições
afonsinas, de 1258, deram lugar no século XXI a um largo aglomerado
habitacional de à volta de 23 mil pessoas.
Podemos fazer ideia de uma povoação vivendo da agricultura, da pesca e
da construção naval, afastada e muito da cidade do Porto, em que, durante
séculos, uma ida (e volta) deveria representar jornada penosa e arriscada.
Com certeza que pelo rio – se este estivesse pelos ajustes, seria mais
sossegada e rápida.
Com dois núcleos claros, um rural disperso em quintas e outro junto ao rio,
unidos no foco centrado na Igreja, viam os seus habitantes passar o tempo
de forma invariável e bucólica. Os fenómenos da natureza, como
tempestades e cheias, e os “cobradores” reais ou locais eram únicos a
perturbar aquela paz rústica e uma vida modesta, mas cremos suficiente
para as necessidades parcas de uma população curta e estável. Talvez ainda
a entrada rio acima de um galeão ou barca, às vezes corsários ou inimigo,
perturbasse esse sossego ancestral.
Dos monges cistercienses de Tarouca, proprietários da “Granja de
Portucale”, no século XII falam-nos os especialistas, dividindo-se na
localização daquela (entre a capela da Senhora da Ajuda ou próximo da
Ribeira da Granja, no vale da mesma… afinal tudo tão cerca).
Há que realçar na vida ribeirinha a enorme importância dos estaleiros onde
se produziram muitas das naus que, em 1384, ajudaram a Lisboa a
defender-se do exército de Castela que a cercava.
A talho de foice e rapidamente, é importante lembrar essa outra intervenção
fundamental da nossa cidade na conquista de Lisboa, cujos 870 anos se
comemoram para o ano.
Voltando ao tema, recordamos ainda que, dos estaleiros de Lordelo, saíram
também muitas das embarcações que, em 1415, foram conquistar Ceuta,
marcando o início da Expansão. E o mesmo se repetiu aquando de outras
conquistas, por exemplo, Alcácer Ceguer, Arzila.
1758
Saltando épocas, importantes para outro tipo de trabalhos que não este,
entramos no século XIX que, em termos sociais e urbanos, para Lordelo e
para o país, valeram uma profunda transformação, bem visível ainda hoje.
Começou mal o século. A política expansionista de Bonaparte trouxe-nos
os seus exércitos da “liberdade” e da “igualdade”, como se a primeira fosse
compatível com invasões e a igualdade fosse uma noção abstracta,
aplicável a esmo.
Na segunda invasão, em 1809, Lordelo sofreu na pele a fúria do exército de
Soult. A 29 de Março, no mesmo dia em que a Ponte das Barcas levaria
consigo para o fundo do rio, milhares de portuenses, os franceses
assaltavam casas, igrejas e outras propriedades e, não satisfeitos, matavam
todos os que lhe apareciam pela frente (descrito pelo pároco da altura,
Boaventura de Brito).
Ainda não se apagara essa viva memória e já Lordelo é cenário principal de
mais peleja.
Durante o Cerco do Porto, como sabem, os liberais, desembarcados em
Julho de 1832 e ocupando a Invicta, aqui ficaram cercados durante um ano
pelo exército do usurpador, antes de alcançarem a vitória.
Essa resistência foi possível pela bravura das gentes da cidade e do exército
de D. Pedro, e ainda pela inteligente estratégia que permitiu aos sitiados
manter não apenas a Serra do Pilar nas suas mãos (único lugar liberal na
margem esquerda) como também a estrada entre o Porto e a Foz, em cujas
praias desembarcavam mantimentos e, possivelmente, homens e armas.
Lordelo era esse lio fundamental entre as praias e o coração da cidade.
Entre outros, os redutos da Flecha dos Mortos e do Pasteleiro ficaram na
História. No primeiro – que urge memorizar no local – foi valente o José
Estevão (que sem armas e homens, diz-se, queimou as barbas do
comandante inimigo antes de fugir debaixo uma de chuva de balas), e no
segundo fica-nos o curioso registo do nome.
A página 141 de “O Cerco do Porto, de 1832 para 1833” (publicado
em1840), escrito por um anónimo que assinava, “Um portuense”, cita-se
várias vezes a Casa do Pasteleiro, local também de renhidos e mortais
combates de artilharia e à baioneta.
No seu romântico flanar, pouco depois (1835), Camilo Castelo Branco,
refere-se ao lugar e à casa do Pasteleiro, em “Cenas da Foz”.
(in “Dois Escritores Coevos”, de Augusto Gama)
Este é um dos enigmas que sobrou para nós.
Como se efeminiza um topónimo? Como se passa do Pasteleiro à
Pasteleira?
Num mapa do primeiro terço do século XIX é claramente afixado o nome
masculino.

(colocar talvez lado a lado para se ler bem Pasteleiro)
E, nestoutro, de alguns anos antes, figura igualmente Pasteleiro
Mais tarde, após os anos sangrentos do Cerco, surge então estampado a
actual feminina Pasteleira (e, talvez por isso, afirmativa e ampliada),
representando agora mais do que um local esconso habitado por um
casarão, um topónimo conhecido de um bairro em sentido estrito e também
da sua envolvente.

Em conversa com Raul Simões Pinto – o maior “retratador” da zona, ele
expande a sua original tentativa de explicação do fenómeno de mudança de
género: como é a partir de meados do século, que se dá a forte
industrialização daquela área (algumas fábricas existiam desde o início do
mesmo), por ela e a ela ocorrem centenas de operários que, atendendo à
parca rede de transportes públicos, se deslocam, alguns de muito longe, na
famosas pasteleiras, as bicicletas pesadonas fabricadas em série na altura.
Seria então por extensão do nome que o “rebaptismo” se dera.
O que é certo é que de nome de uma casa, provavelmente de um pasteleiro,
vivendo no meio de um pinhal cerrado, a Pasteleira regista-se, ufana, e dá
nome a arruamento relevante.
E é precisamente essa estrada/rua que enganchando a Oeste na Rua
Central/do Padre Luís Cabral, e a Este na de Serralves e, na seguinte, a do
Campo Alegre (“onde existia a casa do Manuel Quintino, mais tarde a
Faculdade de Letras, da Universidade do Porto, entretanto já transferida
para um local entre o Gólgota e a Rotunda da Boavista), dizíamos nós, que
é esse “continuum” que constituiu durante séculos o acesso da cidade do
Porto ao mar, a S. João da Foz (ver mapa reproduzido). Foi por aqui que
transitaram ainda os primeiros carroções, pejados de banhistas, que
arribaram ao Passeio Alegre para frequentar as praias do Ourigo/Caneiro e
do Castelo, à Foz.

A estrada marginal, da Ribeira/Miragaia à Cantareira, debruando o rio, é
bastante mais recente. Só existe quando se leva de vencida, à dinamite, o
promontório da Arrábida, esse soberbo bloco de pedra entrante no rio e que
impedia a conclusão de qualquer passagem.
A Pasteleira chega então ao século XX, fazendo parte da freguesia de S.
Martinho de Lordelo do Ouro, integrada que estava, desde 1836, tal como a
Foz e Aldoar, na cidade do Porto.
Mantém-se ainda rural, piscatória e construtora de barcos, mas agora
fortemente industrial: dos têxteis, aos químicos, passando pela metalurgia e
outros.
Estas unidades industriais laborando em pleno décadas a fio, empregando
centenas de operários e produzindo claramente riqueza, trouxeram consigo
também desvantagens visíveis.
Uma delas foi a poluição da belíssima Ribeira da Granja (a falta de rede de
saneamento público também ajudou). Nos seus curtos quilómetros,
provindos em parte, do Padrão da Légua, e de outra, de Arca d’Água, com
junção em Ramalde do Meio, viveu grande porção do século XX
“internamente” morta e, externamente, inútil, malgrado o bucolismo das
sua margens e a graciosidade das suas quedas de água.
Ainda se conseguiu ver, não no nosso tempo, ranchos de lavadeiras com a
sua roupa doméstica nas suas margens, mas terminou sendo um vazadouro
de objectos e subprodutos industriais, sobretudo químicos, que lhe coloriam
as águas, que putrificavam o ar, chegando os seus gases acumulados a fazer
levantar as tampas do saneamento.
Mas voltaremos à Ribeira mais adiante.
A industrialização de que falamos, e que todo o Porto viveu, ou não fosse
sempre uma cidade de vanguarda em todos os aspectos, levou a uma
migração massiva para a urbe, de pessoas dos subúrbios campestres.
Nasceram então as “ilhas”: aglomeração de pequenas casas, em geral
alinhadas de cada lado de um caminho central, comumente de terra batida.
Casas diminutas, insalubres, onde viviam promiscuamente famílias
numerosas.
É, portanto, tendo em mira a resolução desse problema social, agravado
pela degradação do casario do Porto histórico medieval, que nasceram os
planos camarários para a construção de bairros sociais.
Nasce o de Ramalde, em 1952, com traço de Fernando Távora, o da Rainha
D. Leonor, em 1954, e o de S. João de Deus, em 1956.
Até 1966, treze bairros são construídos, tornando a Câmara Municipal do
Porto no maior senhorio do país.
(as imagens seguintes são para dividir segundo a sua qualidade pelo curto
texto que se segue sobre o Bairro ou concentradas)
É, neste enquadramento que nasce o Bairro da Pasteleira.
Previsto no Plano de Melhoramentos da cidade, 1956/166, é construído
entre 1957 e 1960, a sul do bairro existente já de Gomes da Costa, e a
poente da Casa de Serralves. Cercam-no as ruas João Rodrigues Cabrilho, a
Norte, Bartolomeu Velho, a Sul e a nascente, e João de Barros, a poente. É
formado por 27 blocos (4 pisos na maioria) com 608 fogos: 36, T1, 130,
T2, 410, T3 e 32, T4, com uma clássica distribuição “esquerdo-direito” a
partir de uma escada central. As vias interiores ao bairro são sem-saída. Foi
construída uma escola, na rua João Rodrigues Cabrilho, para albergar 400
alunos.
Em simultâneo, nasce por decreto do então Administrador Apostólico da
Diocese do Porto, D. Florentino de Andrade e Silva, a paróquia
experimental de N. S. da Ajuda, que,
em 28 Janeiro de 1973, Paróquia com estatuto próprio.
É nesta Paróquia, e na sua Igreja construída paredes-meias com o Bairro,
que surge o então Padre António Teixeira Coelho, tão citado nesta obra e
seu prefaciador.
Apesar da amálgama de origens geográficas, embora sempre de condição
humilde e neste contexto social e urbano, os novos habitantes do Bairro não
tardam a manifestar, nessa década de todas as ousadias (a de 60), um forte
espírito gregário, associativo.
O Solar Clube surge na dianteira do espírito irrequieto próprio à juventude,
mas mais vincado naquela época. Não tratam apenas da diversão pura, do
hedonismo que hoje campeia. Não! Atrevem-se a ler, a conversar sobre os
temas mais diversos, alguns vetados, a discorrer sobre as vanguardas
artísticas e musicais, e, … a escrever, coisa rara naquele meio.
Mais raro ainda, foi terem tido quem, com inteligência e devoção sociais, a
que não foi estranho o Concílio vaticano II, os tivesse acompanhado e
orientado. A Igreja cumpriu um dos papéis a que se propôs, pela mão do
Padre Coelho.
Visitante ocasional do Solar, amigo de muitos dos “solarengos”, pude
constatar a vitalidade daqueles que fugiam ao destino da sua condição,
recriando-o pela cultura, pela solidariedade e pelo inconformismo face às
injustiças. Mas atrás está quase tudo dito sobre os anos do Solar.
Nesse espírito criativo e de resistência, citemos, de novo, o CACO, jovens
estudantes e operários, o Grupo Coral da Igreja, onde muitas jovens
encontraram também forma de se formarem (e algumas de casarem com os
do Solar), o grupo de futebol amador, Durium 70, o grupo excursionista,
Pés Descalços, animado pelo José Dara, a revista literária “underground”,
Pé de Cabra, e outros mais que, repito, fugiam à contingência do meio e da
condição e sobreviveram e viveram.
Para terminar, uma constatação e uma esperança.
Vi a Mata da Pasteleira degradada, a abarrotar de lixo e de barracas, em
concorrência com as “bidonvilles” parisienses da mesma época.
Pude assistir, em 2003, à sua transformação em Parque-pulmão, com a
vegetação cuidada e equipamentos de lazer (7 hectares), nomeadamente a
ciclovia a ligá-lo ao Parque da Cidade.
Vejo ainda hoje, a Ribeira da Granja contaminada, mas nada que se pareça
com o esgoto que foi há bem pouco tempo.
Confirmo a beleza simples de partes do seu percurso (muito dele está
entubado), particularmente as quedas de água junto ao Bairro Pinheiro
Torres e da Pasteleira.
Acredito que a recuperação dessa Ribeira, para usufruto da população local
e visitantes, é tarefa importante para a intervenção cívica, como o fez e faz
o NDMALO, Núcleo de Defesa do Meio Ambiente de Lordelo do Ouro,
desde 1978, e como o podem e devem fazer os nobres herdeiros do
associativismo da Pasteleira, em particular os do Solar Clube.
A Pasteleira está viva!
Joaquim Pinto da Silva

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