Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

21 de outubro de 2012

Um adeus aos colegas das instituições europeias


Caros amigos, caros colegas,

“Com o coração se pede. Com o coração se procura. Com o coração se bate à porta e é com o coração que essa porta se abre”.
Com esta frase de Santo Agostinho (mas que podia ser do pregador S. Domingos de Guzman*), quer a minha vontade, a educação e o dever que agradeça à cabeça ao Frei Eugénio Boléo que me abriu esta porta, pois, com certeza, só o coração a pôde abrir, já que nenhum dever lhe impunha esta deferência.
E como a maré é dos obrigados, aqui vai: à Rosalina Bernon e ao Joaquim Silva Rodrigues, companheiros que me ajudaram nesta tarefa ingrata do acto do Adeus, desde o início até hoje.
Ao meu amigo Albano, do Café Portugal, que não é certamente o melhor restaurante do mundo, mas é totalmente português no acolhedor trato, que nos distingue, e na boa comida que nos serve. O Café Portugal é na Avenue de la Couronne. O único senão é aquela vermelhidão feia que o decora**.
Aos que aqui me precederam, escolhidos entre amigos com um simples critério de representarem mais ou menos os serviços e sectores que percorri, e sem desprimor algum para com outros, quero recordar-vos D. Quixote, que obrigou toda uma aldeia dos confins de Castela a dizer que Dulcinea del Toboso era a mulher mais bela do mundo, mesmo sem a conhecerem. Pois foi, mais ou menos o que fiz a todos os que me precederam. O meu reconhecimento para eles por cumprirem tão bem, mesmo em demasia, o que, cabalisticamente, lhes pedi.
Permitam-me ainda salientar mais alguém:
Os meus últimos colegas, os da unidade de Espanha, da Direcção-Geral da Política Regional (REGIO), de belas e diferentes origens e línguas, da firme Castela (Andaluzia, Estremadura, Rioja, Astúrias, Navarra, etc), à orgulhosa Catalunha, ao bravio País Basco, até à saudosa e terna Galiza, incestuosa mãe e irmã do meu país.
Que as referências que aqui faço sejam sentidas por eles como saudação especial… eles compreendem-me!
Sorrio habitualmente muito para o mundo (ingenuidade?) porque creio que, mesmo tardando, ele nos reflecte, tal como um espelho. E um sorriso, o último de hoje em especial, envio à minha mulher, a Fernanda.

Nesse excelente livro da literatura espanhola, “Diana”, escrito pelo português (hèlas!) Jorge de Montemor (de Monte Mayor), o autor põe na boca da personagem Célia, as seguintes palavras :
“Diz ao teu senhor que quem sabe dizer tão bem o que sente, não deve senti-lo tão bem como o diz.”
Ao invés, para mim, que sei pertinazmente bem, demasiado bem, que as palavras são magras acompanhantes dos sentimentos que nos cruzam, peço-vos que, através das minhas pobres frases, vós todos procurem, adivinhem mesmo, as emoções por que passo, a profunda tristeza de deixar de vos ver tão amiúde, pelo menos a uma maioria.
Do Conselho à REGIO, passando pelo SCIC, pela AGRI, pela EAC, pela PRESS, e pela ECFIN – movimentações nem sempre da minha escolha – tive o prazer de conviver com pessoas de sólida formação humana, de grande nobreza de caráter. A alguns, muitos, tive a honra de os juntar ao meu círculo mais próximo de amigos e, do conjunto dos funcionários das instituições europeias, dos quais sois os meus preferidos representantes, guardo uma recordação rica e comovida.
Ainda com Jorge de Montemor (de Montemor-o-Velho, para precisar), vos digo:
“a causa de vos esquecermos é a mesma que obriga a que nos esqueçais. Faz e desfaz o amor as coisas, e a estas mudam-nas tempos e lugares”.
Ou seja, na quotidiana e sempre nova viagem que encetamos, algumas amizades podem desfalecer, mesmo esquecer-se, mas o traço enérgico e valoroso da sua passagem refletir-se-á para sempre em nós no nosso futuro.
Nada é em vão!
E como “ a gratidão é a moeda com que o pobre paga as suas dívidas” (Bernard Shaw) assim é com um entranhado reconhecimento, um sentido obrigado, que vos digo:
Até sempre!

Bruxelas, 9 de Outubro de 2012
Joaquim Pinto da Silva

*Fundador da congregação dominicana que é a proprietária deste local onde estamos.
** As cores de um clube de futebol.

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