Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

23 de outubro de 2011

Dizer qualquer coisa…

(sobre a pintura de José António, por ocasião da sua exposição na Atlântida, em Bruxelas)

Se "cada dia que passa nos aproximamos mais da época da composição consciente e racional em que o pintor explicará orgulhosamente as suas obras" (1) e, também, se essa "explicação" – como se ela fosse inteiramente possível – se produz muitas vezes duma forma mais hermética e ilegível que a própria obra, então teríamos como provável que o crítico, o historiador de arte, seria linearmente o grande criador pictural, o mestre da pintura contemporânea.
Tal não é – tal não será nunca – a ver/a reali/dade da arte. Uma obra, no seu âmago e perenidade, "explica-se" por ela própria. A sua existência é a sua explicação. Parcelar e temporalmente, o analista, o estudioso, emite pontos de vista, acrescenta dados, elimina e aduz pistas, e toda essa actividade, teorizadora, absolutamente indispensável à formação do público e dos próprios artistas, tem como fonte inesgotável a obra ela mesma. Assim se compreende também que muitos estudos e apresentações de obras de arte sejam por si criações, ultrapassando a análise diacrónica, técnico-funcional, estrutural, dos trabalhos, um diálogo outro com a origem através da criação – aqui recriação literária.
A inexistência dum declarado "sentido oculto", como em Caeiro, é, paradoxalmente, a "verdade" profunda da obra de José António, e, no entanto, ą sua obra não se esgota assim que é vista, tal como acontece com certas produções da arte contemporânea de carácter, no essencial, experimentalista e destrut/subversivo. José António permanece entre essa "subversão", a desmontagem, e uma, certa que não total, como se impõe, aliás, а legibilidade assumida (defendida) que não o impede de recusar a violência ideológica normalizadora do "bom senso ou bom gosto", do grupo, da classe (e... do espaço e do tempo). A sua figuração – das grafites aos óleos – trabalhando sobretudo a figura humana, é uma "produção, não um produto; uma enunciação, não um enunciado, uma estruturação, não uma estrutura" (2).
Desenhar e pintar é, em José António também, um extravasar simultaneamente consciente e involuntário, dos fantasmas endógenos do ser profundo. É a erupção – a comunicação, para simplificar/complicar – da nossa afirmação de humanidade, isto é, da nossa diferenciação no seio da mãe primeira (pleonasmo?!). E mesmo quando a figura humana é disforme, quase grotesca, larga e em formas curvilíneas (tecto da Sistina, Almada?...) ainda aí é o ser-rei que se espelha entrecortado por traços ou manchas coloridas que são signos e movimentos, que são vida.
Em José António não procuremos a filiação, abarquemos apenas a sua inspiração – que é paternidade –, a sua poética. Essa é a complexidade da sua e de toda a … simples Arte.

30 de Outubro de 1987
Joaquim José Pinto da Silva

(1) Kandinsky
(2) Eduardo Prado Coelho

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