Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

23 de outubro de 2011

Abertura

(de Foz do Douro, a Letra e o Lugar de, António Rebordão Navarro)

Que pode um homem só que só possui
um lápis, um papel, um coração,
outra coisa fazer além de um mundo novo?
(1)

1. De comum com António Rebordão Navarro, e ele que nos perdoe a imodéstia da comparação, teremos, por certo, muitas outras características, mas duas há, no entanto, que com satisfação especialmente registamos: um sincero — como só os poetas o sabem, o podem!, ter — amor à mesma terra, ao mesmo cenário de "linha líquida"(2) que é o rio e mar e "esta vila adormecida" que estava "...a cem léguas do Porto e da vida"(3).
A segunda é que – parafraseando o mexicano Octávio Paz, a nossa obra é a nossa biografia, isto é, sem aquela, sem um labor paulatino, sério e "resistente ao mito da finalidade"(4), nós não existiríamos. Quem nos quiser compreender e explicar analise antes de tudo a produção publica. Qualquer outro dado ou explicação agregada fará figura acessória: fazemos, logo somos!
Poderíamos, ainda para nossa conveniência, falar duma outra similitude, pese embora o seu lado triste, que é o dos reconhecimentos e apoios, mas melhor será ir adiante... e confiar.

2. Aprendemos em simultâneo Foz e а Literatura com Raul Brandão. Com Rebordão Navarro a lição continua sedutora e profícua.
Ambos registam as grilhetas do horizonte intangível, notam as perguntas sem resposta, a hesitação e o non sense das falsas opções da existência (e do texto!), produzindo unia literatura sem tese, não explicativa, despretensiosa mas incisiva, sobretudo, a abordar as limitações humanas. Não há procura duma redenção, mas antes a primazia do momento, cru, chocante muitas vezes, mais dramático em Raul Brandão, mais prosaico em Rebordão Navarro.
Sobretudo neste, marcou-nos e marca-nos a evocação permanente da variedade dos possíveis desenvolvimentos da narração e da acção, da imensidão explícita da criação provável, do "fingimento" literário. São motes não desenvolvidos, hipóteses de histórias sem seguimento, é a enumeração de "saídas", desprestigiando "a saída", logo, acentuando o seu acaso, valorizando a escolha, promovendo a Literatura, desmitificando o texto.
Ambos cépticos sobre a condição humana povoam os seus textos de pícaros ou, pelo menos, de não-heróis. Opõem-se as personagens: no caso de Rebordão Navarro, burguesas, opacas, secas, limitadas, por vezes repulsivas; em Raul Brandão, populares, atractivas, transparentes. Ocupam-se do momento remetendo o leitor para a eternidade, sem a obsessão desta.
Nem um nem outro são de modas, embora modernos; nem um nem outro são de escolas, embora coerentes e coesos; nem um nem outro são "comprometidos", embora atentos à sociedade e profundamente humanistas: emocional e participante Raul Brandão, "fotógrafo", ausente, Rebordão Navarro; nem um nem outro são cosmopolitas, embora universais nos seus sentires localizados.
"Nenhuma terra é só um solo limitado. Nenhuma terra é um lugar apenas. Os lugares são ficções. Todos os espaços se preenchem. Tornam-se vida, aventura, epopeia. O resto é geografia"(5). E, neste sentido, Rebordão Navarro juntou-se a Camilo, a Ramalho, a Eça, a Pascoaes, a Ruben Α., a Júlio Diniz, a Alvarez, a A. Nobre, a Vieira da Silva, a Garrett, a Junqueiro, a J. R. Miguéis, a D. Carlos I, a A. de Serpa, a Sophia de M. B. Andresen, a Xavier de Novais, a A. do Castro, a Silva Gaio, a Magalhães Basto, a Luís de Magalhães, a Manuel Real, a Eugénio de Andrade, a Vasco G. Moura, a Carlos Marques Queirós, a Jorge de S. Braga, a José A. de Castro, a Raul Simões, a Carlos Tê, a Hélder Pacheco, a Neves Pinheiro, e... dizíamos nós, todos estes "criaram" a Foz: promoveram-na da banal geografia à condição de cenário e de actriz, de espaço a conteúdo, de topónimo a arte. António Rebordão Navarro tem uma responsabilidade acrescida nesta transmutação, até porque ainda acredita, ainda insiste. "Q Parque dos Lagartos", "Mesopotâmia", "A Praça de Liège", e tantas outras crónicas e textos dispersos são evocações e presenças desta terra.
E, tal como Utopia tornada real e eternizada pela escrita de More, pela escrita perdurará a Foz, indiferente aos atropelos físicos quotidianos de que é vítima. Muito pode, pois, um lápis, um papel, um coração.

3. De gratidão, ainda algumas palavras terminais. Uma para o Artista Armando Alves, que participa activamente nesta homenagem da Foz aos 40 anos de escrita de Rebordão Navarro, através da concepção gráfica da capa do livro e do cartaz/poema "As Mulheres da Cantareira", curiosamente concebido para comemorar o 30° aniversário do mesmo evento.
O nosso reconhecimento também à escritora Agustina Bessa-Luís pela sua solidariedade — traduzida na Apresentação — e companheirismo "ďarmas" para com o autor e, indirectamente, para com esta edição.
Uma última palavra para a Fundação Ensino e Cultura Fernando Pessoa, na qual orgulhosamente participamos, e ao seu Presidente, o Professor Salvato Trigo(6), a quem devemos, muito para além da cedência das suas instalações, o início duma colaboração que é já frutuosa.
Estamos seguros que sob a égide de Pessoa e no cenário do edifício-sede da Fundação, um antigo palacete da Foz devidamente recuperado, o escritor António Rebordão Navarro terá uma homenagem que merece e que a Foz lhe deve, de há muito.

Tervuren, Novembro de 1992

Joaquim José Pinto da Silva

1. ARN in "O Dia dentro da Noite".
2. ARN in "Julho Cultural Foz 84".
3. Raul Brandão in "Os Pescadores".
4. Agustina Bessa-Luís in "Sobre o Poema de ARN", 1983.
5. ARN in "Festas da Foz do Douro", Agosto de 1970.
6. Que, curiosamente, já tinha assinado o prefácio à obra "Estados Gerais" de ARN.

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