Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

2 de outubro de 2008

XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura

1983

COISAS MINHAS, RECADOS MEUS

O Acontecimento Cultural do Século
XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura
Lisboa, Maio a Setembro /1983

Um milhão de visitantes em Lisboa, 1700 peças históricas e artísticas das quais mais de 400 vindas dos países europeus, Canadá, Japão, Brasil, etc., 700 mil contos de despesas (80 por cento das quais em recuperação de monumentos), estes são alguns dos números «assustadores» que a XVII Exposição de Arte, Ciência e Cultura nos apresenta como testemunho de uma grandeza que não é só «matemática».
De facto, acabado que foi o «império» expansionista iniciado nos finais do século XV, «voltámos» de novo à Europa onde «nascemos» e onde fomos «criados».
Mas hoje, e para não repetirmos um dos erros desse período áureo, ou seja, trocarmos quase completamente o nosso continente e espaço histórico-cultural — a Europa — pela aventura marítima que nos prometia «os mundos e fundos» das especiarias e dos metais, hoje, dizíamos, impõe-se não fazer o inverso, isto é, a troco de uma «reentrada» no «Velho Continente» abandonarmos tudo aquilo que constitui o enorme e valioso livro da «Presença Portuguesa no Mundo».
Esta exposição prende-se, a meu ver, exactamente a este movimento que visa a nossa integração plena e efectiva na Europa — nosso direito indiscutível — mas de forma que respeite e, mais do que isso, tenha em conta o nosso passado e a nossa importância quanto mais não seja cultural.
Sim, porque isto de haver centenas e centenas de «Silvas» no Srilanka, de existir o «Bairro Português» em Malaca, de Ceuta ter muralhas portuguesas, isto não falando no Brasil, Angola, Goa, Moçambique, Cabo Verde, Diu e Damão, onde a nossa presença foi mais prolongada, isto tudo, referíamos, representa um capital, «estático», é certo, mas que se impõe transformar em «investido». Investimento esse que não pode nem deve ser visto pela óptica exclusivamente comercial e política mas também, e principalmente, pela perspectiva cultural, a única que deixa e desenvolve raízes profundas e duradoiras, a única que promove e defende a paz.
A XVII Exposição é, por tudo isto, uma intervenção crítica na mentalidade europeia que, apoiada num extraordinário desenvolvimento tecnológico e científico, tem tendências — naturais e humanas mas criticáveis e corrigíveis — de supremacia civilizacional e de arrogância que chega nalguns — poucos — casos a ser de índole rácica. Mostrar à Europa e recordar aos portugueses que também ajudámos a «fazer» o mundo, e de que maneira, e, principalmente, que temos um lugar e um papel de direito e de facto no mundo, papel esse para o qual nos estamos preparando para assumir, eis outra faceta deste acontecimento.
Em 7 de Maio, quando da inauguração, presidida pelo Presidente da República, estará «aberta» aos portugueses uma parte importante da sua memória. Haverá alguém que recuse um convite para visitar a sua memória?
Se há é porque esse alguém já nem sequer tem «memória».

(publicado n'O Eco», n.º2, 1983)

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