Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

2 de outubro de 2008

CARTA DE ESTOCOLMO

Estocolmo, Novembro de 1995


CARTA DE ESTOCOLMO

Que importância teria o Gilreu se estivesse no meio das 24 mil ilhas que cercam a capital da Suécia?

Alfredo Nobel, August Strindberg, os Vikings, Bergman, e tantos outros nomes e coisas estavam presentes quando a paisagem sai das nuvens e se aproxima do pequeno postigo em que a admiro. Florestas e lagos, muitos, centenas, que rapidamente se bordejam de casas de madeira invariavelmente pintadas de vermelho baço.
A Karin e o Johan esperavam por mim lá em baixo, no Arlanda. No carro, explicaram-me que, em breve, com o gelo, se podia ir de Estocolmo a Upsala, a 45 km, de patins, pelos intermináveis lagos, rios e canais. Na velha Sigfura, a meio caminho entre aquelas duas cidades, tanto apreciei as pedras rúnicas, legado de pedras esculpidas por esse povo viking afinal não tão selvagem assim, como a tarte de maça com creme, tomada num íntimo café numa antiga casa de madeira já com lareiras a crepitar.
Upsala, a famosa Upsala da centenária Universidade e de Ingmar Bergman, ali estava, sapiente e possante. No caminho até lá, Johan mostrou-me aquela que iria dentro de dias ser o seu novo habitat: uma pequena casa de madeira, mais que centenária, junto a um lago e rodeada de bosque não muito espesso. Na cidade, ao entrar no seu apartamento, um T2 simples, mobilado à escandinava, linear e eficaz, e de sala comum não muito grande, não pude evitar o comentário de que, para um casal de igual situação social e financeira (relativamente) em Portugal, aquele seria considerado um apartamento modesto.
A carne de rena foi novidade agradável, antes de um salmão bem acompanhado pela excelente cerveja sueca. (Re)convidei-os para o Porto e Foz, o que motivou fãlar do grupo e do jornal, e, sei lá porquê, até do Manuel Pinto e da Academia de Danças e Cantares, de quem ofereci uma cassete (tinha oferecido também, é claro, essa obra soberba da Irene Vilar que é a medalha do Passeio Alegre). Só voltaria a ver o Johan na véspera de voltar, quatro dias depois, altura em que me ofereceu um interessante livro, em francês, de Torgny Lindgren. Recordámos então essa outra oferta, de quatro anos atrás, de poetas suecos traduzidos em português (ver caixa, página 8).
Ver o Vasa, antes de chegar a Estocolmo, era a única visita que mentalmente eu me impunha. Evidentemente a velha atracção do mar oriunda de todo esse passado entre rio e mar que vocês conhecem, é a explicação principal do facto. Maravilhava-me saber que encontraria um barco que desde 1628 a 1961 (333 anos) jazia num dos inúmeros canais de mar do imenso porto de Estocolmo.
Bem vingado está dessa pequena tempestade que, dizem alguns, fez balançar para o mesmo lado os muito pesados canhões de bronze do seu interior, fazendo-os tombar e, de seguida, afundar-se. É que agora fizerem-lhe um edifício propositado para ele, em que a luz difusa e uma certa humidade permanente o transformasse no mais popular museu da cidade.
Em sete pisos bem ilustrados com objectos encontrados no seu interior, maquetas, velas restauradas, mapas, etc., podemos apreciar os seus 70 metros de comprido, com dezenas de esculturas exteriores e perfeitamente restaurado com 95% de material original. Tal como cá (que é aí!...)
Pasmei ao ouvir falar do resto da Europa como de «o continente». Por ignorância cultural apenas, pois estando a península só a uns curtos quilómetros de mar da Dinamarca, a Suécia e a Noruega estão de facto ligadas apenas ao continente pela Finlândia, isto é, por milhares de quilómetros de terras geladas.
É «fácil» ser ecologista num país de natureza tão bela, mas agreste, como este. O mesmo não posso dizer da coragem que foi preciso ter para decidir em 2010 terminar definitivamente com a energia em proveniência de centrais atómicas. É que se conhece bem o papel determinante daquela e desta no progresso económico do país desde há uma dezena de anos. Sabia também que a bela Estocolmo era ainda por cima a «capital mais limpa» da Europa; o que não podia imaginar é que, passando de autocarro ou de metro, nas inúmeras pontes, que ligam as quinze ou mais ilhas da urbe, se pudessem ver pescadores, de fato de borracha e cana de pesca, em plena cidade... a pescar salmão.
Muitos passeios na Gamla Stan, a cidade velha, recordam-me o Barredo... e a Cantareira/Monte, sobretudo no que falta fazer. Não seno a instituição que são em Portugal, os cafés vão ganhando em importância, sobretudo entre os jovens, que deles começam a fazer pontos de encontro: maioritariamente self service e sempre plenos de velas acesas, tradição nórdica omnipresente na cidade.
Prometi-me voltar, até para ver a nova casa da Karin e do Johan. Ficou também aquela Casa da Cultura por visitar, edifício enorme e no coração do centro citadino, em que o variado cartaz do dia e bichas (agora é filas, não é?) importantes de clientes à porta são prova de dinamismo e de progresso.
Porque será que «toda a gente» só quer ir às Caraíbas, Polinésia e afins?



GUNNAR EKELOF
(1907-1968)

Senhora a mais rica em tudo
Em pureza e impureza
A mais rica na beleza
Em convívio, em solidão
Donzela que te disfarças
Como mulher que mendiga
Sentada no pavimento
Estendendo a tua mão

Dei-te a moeda de prata
Que era a que te pertencia
Escondida na de cobre
Que era quanto me cabia

(1959)

No Outono

No outono
Ou na primavera —
O que é que importa?
O mar respira tão pesadamente
O mar fica tão polido depois disso
As catástrofes esquecem-se tão
Rapidamente
Depois disso e a partir de agora

(1959)

Sofrer é difícil
Sofrer sem amar é difícil
Amar sem sofrer é impossível
Amar é difícil

(1959)

Tradução de Vasco Graça Moura

SANDRO KEY-ABERG
(1922-...)

Há um cheiro a verniz no armário
E as lágrimas rastejam pelo tecto

Vejo as suas mãozinhas gordas
Amassar pão migalhas de orgulho

Dentro do corpo inchado
O sonho febril já se enfurece

E na palma da mão a boca sopra
Um charco de fantasias sequiosas

O inverno nórdico sueco com o seu casaco de uivos
Seguro com alfinetes de estrelas

Atira intermináveis pântanos sobre a mesa
Com suas ásperas mãos

A curta faca descasca a ternura de seus dedos
Onde um cego verão rasteja

A humilhação conservada em vinagre
Rasteja sobre as abelhas mortas dos lábios

Por momentos monto um joelho
Na direcção dum vislumbre de ânimo

Uma solidão com os dedos roídos
Arrasta a minha vida por sobre o seu corpo

(1957)

Tradução de Ana Hatherly

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