Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

2 de outubro de 2008

NÃO SE PASSA NADA!

Novembro/Dezembro/2001

NÃO SE PASSA NADA!

Algumas constatações antes de 16 de Dezembro (eleições autárquicas)

Não vai haver novos capítulos a abrir na história da cidade do Porto, e também das suas freguesias ocidentais. A partir destas eleições autárquicas, o Porto vai ser gerido com até aqui e Nevogilde e a Foz seguir-lhe-ão as pisadas.
No que concerne às freguesias ocidentais, a continuidade é evidente: nem o poder nem as oposições apresentaram nenhum objectivo mobilizador das populações e instituições capaz de dar cor ao cinza que por aqui paira. Nem uma campanha pela preservação e valorização da paisagem e do património se anuncia — e nós sabemos da sua premência — nem a criação de um centro cultural activo e participado (não estatizante) se anuncia, nem sequer a realização de um evento social, cultural, juvenil de qualidade e d peso se prepara.
Continuaremos a ser zona residencial à beira-mar, em que as exigências culturais se satisfazem no interior. Manteremos, é certo, as manifestações populares (S. Bartolomeu, Feira de Artesanato) em que o lúdico abafa por completo a evolução espiritual que deveria acontecer.
Afinal, as grandes questões serão, de novo, a defesa de uma casa de valor do camartelo, a luta contra um imóvel desproporcionado, uma mudança de trânsito decretada e concebida mais uma vez por burocratas fechados em gabinetes e caótica na sua execução.
Impávidas, ou quase, as Juntas (Assembleias e Executivos) continuarão a tomar ares de Câmara nas suas reuniões, a pensar que os votos que têm representam apoios sinceros e a «decidir» e circuito fechado, fora dos sentires da população que, ao revés, lhes «pagam» com um soberano alheamento, quando não desprezo, em relação ao que se passa, discute e se opta nas ruas de Fez e de Corte Real.
Chegamos a um ponto em que nos passa a ideia já proclamada por outros — e são muitos —, de questionar a própria existência destas autarquias (as Juntas), que parecem, afinal, decoração desnecessária e custosa, desprezadas ou ignoradas pelas Câmaras Municipais de quem, aliás, politicamente, dependem quase exclusivamente.
Quanto à cidade, muitos e importantes pontos mereceriam reflexão e conclusão. Infelizmente, se para reflexão ainda temos algumas qualidades, para conclusões e implicações práticas destas, não temos sido os melhores.
Comecemos pelo Metro, de superfície. Anunciado em anteriores campanhas como ex-libris do candidato, que de novo se anuncia como vencedor, ele «não atou nem desatou». Foram incompetências técnicas clamorosas, deitando prédios abaixo e com dispendiosas avarias da «Micas». A nível político, nem se fala: muitos candidatos a presidir à primeira viagem, e, pelo que vimos, aquando do primeiro troço (troço ou ramito?) vamos ter inaugurações cada vez que o Metro poder andar mais cem metros, e em 2004 — queira Deus — vamos oferecê-lo novinho aos holligans invasores.
Outros anúncios anteriores e actuais do candidato potencialmente vencedor relacionam-se com os Parques da Cidade. O do Ocidente, ainda não terminado, é despudoradamente atacado pelo actual gestor da Câmara (que sempre dissemos ser politicamente teleguiado pelo passado e futuro presidente). Na altura em que escrevemos isto, não sabemos se levou para diante a sua intenção de autorizar a construção da frente urbana do Parque, o que, a acontecer, representará um dos maiores ataques políticos em Portugal à democracia participativa que se conhece, isto após ter sido prometido um referendo sobre o caso.
Quanto ao Parque Oriental, a promessa mantém-se: vai fazer! Mas para quando «essa zona desfavorecida» será contemplada, não se vêem datas fixadas. Demagogicamente, vem o putativo candidato a vencedor relembrar a questão. Tenho para mim que enquanto os empreiteiros não construírem «significativamente» na zona, com atractivos anúncios de casas junto ao Parque, nada arrancará. Depois, então, sim. E nessa altura, falar-se-á de outras frentes urbanas para compor o ramalhete... mesmo com planos de famosos e «inquestionáveis» arquitectos.
O Porto 2001 vai acabar. Não se atrevam, porém, a fazer balanços políticos que não sejam acompanhados da respectiva ficha financeira. A validade cultural e urbana do conseguido não é de todo independente dos fundos envolvidos e dos prejuízos que, por exemplo, as obras trouxeram ao comércio das respectivas zonas. Considerando que não houve fundos da União Europeia, com datas limite de execução para a Capital da Cultura, mantém-se a questão do porquê deste afã construtor em tão curto espaço de tempo, com prejuízos óbvios para a população da cidade e também para o estudo e a planificação das obras.
A Casa da Música vai então ser «emblemática», claro que vai!, mas — à parte a sua valia arquitectural e a sua função na cidade — pela negativa: destruiu-se apressadamente a histórica remise dos eléctricos, não ficou pronta durante o ano festivo, ninguém ousou avançar com um término fixo, e concluiu-se que afinal a sua manutenção vai custar uma fortuna, propondo-se para ela um modelo de financiamento igual ao do Centro Cultural de Belém.
Sabendo nós que o CCB recebe anualmente, e directamente do orçamento de Estado, a quantia de 7,5 milhões de contos, e que, indirectamente do Estado ou Câmara, muitos outros milhões, em organizações que «obrigatoriamente» ali têm de acontecer para rentabilizar os espaços, então o que prevemos para a nossa Casa da Música não é muito prometedor. Por um lado, será um servedouro do dinheiro público, isto é, de nós todos, e, por outro, uma fonte de centralização de actividades por deveres de nacionalização.
Por aqui vamos ficar. Nós não dependemos de eleições nem de cores (por isso é que elas não gostam de nós). Fazemos política com a crítica, com a intervenção e com actividades culturais, como, aliás, muitos outros nesta cidade e, quase sempre, os poderes — os seus detentores, claro — ou nos ignoram ou, a maior parte das vezes, nos sabotam.
Para eles não há população, há eleitores, não há democracia e consciência cívica, há apenas mandatos em que fazem o frete a gerir o público na mira essencial de se perpetuarem nos poderes que detêm.

(publicado n'O Progresso da Foz nº 81/82

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