Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

2 de outubro de 2008

SALAZAR AO LEME?

Publicado no Suplemento Arte, do semanário Matosinhos Hoje, sob a direcção de A. Cunha e Silva



60 anos depois, a interessante estátua do Homem do Leme, provoca uma análise à sua motivação e objectivos. Aqui, sobre a obra, um texto de Agostinho de Campos, o linguísta famoso. Na página 3, outros, do Cardeal Cerejeira ao escritor Teixeira de Pascoaes, todos coevos do monumento e ainda um, de agora, onde se fundamenta uma leitura política e histórica sobre quem, de facto, ia ao leme.



SALAZAR É O «HOMEM DO LEME»
OBRA DE ARTE, SÍMBOLO OU RETRATO?

O nosso amigo e colaborador deste mensário, Rui Souza Roza, publicou no último número um interessante artigo sobre a estátua pública «Homem do Leme» situada na Avenida de Montevideu, Nevogilde.
Porque é sabido que os regimes, mesmo os mais democráticos, ao afirmarem-se, necessitam em absoluto de promover uma «imagem pública», nomeadamente no campo da cultura e das artes, que sirva de suporte, de «justificação» estética (melhor talvez fosse chamar-lhe «estética de justificação») e simbólica à política que promove.
É sabido também que o regime corporativo, oficialmente nascido em 1933 e dirigido por Salazar, foi particularmente cuidado neste campo, sobretudo nos seus primeiros anos de vida em que aos olhos de muitos portugueses, e de inúmeros intelectuais e artistas, aparecia como única solução, única via, para travar os desmandos politiqueiros e a corrupção da República decadente. Exemplo-mor dessa adesão à «ordem necessária» e a um processo mobilizador e congregador foi sem dúvida o SNI (Secretariado Nacional de Informação) com António Ferro à cabeça.
O mesmo aconteceu no domínio da política colonial. Henrique Galvão, mais tarde opositor feroz a Salazar e líder do sequestro do navio Santa Maria, foi um elemento renovador e modernizador da política colonial portuguesa, obviamente na mira assumida de contrapor à descolonização activa nascente na Europa a defesa do status imperial de Portugal, mas nem por isso mais «colonialista» que os caquéticos colonialistas republicanos e «democratas», indecisos e contraditórios, que precederam o 28 de Maio.
Mas, voltando ao que vimos, gostaríamos de acrescentar ao artigo de Souza Roza algo que, dito à socapa, «clandestinamente» ainda, se nos parece curioso se não mesmo revelador desses tempos idos e, afinal, dos presentes, onde tabus antigos permanecem. Analisemos então, rapidamente, alguns dos textos publicados no livro Homem do Leme, de 1938. e aqui reproduzidos, de forma a tentar responder à dúvida do título deste artigo.
O Homem do Leme, para além (ou será aquém?) das palavras do Cardeal Cerejeira, «mais do que uma obra de arte, um símbolo de Portugal», poderá ser questionado na sua génese, como Agostinho de Campos o fez: «Símbolo ou retrato, este Homem do Leme?». E mais longe ainda vai o escritor Antero de Figueiredo: «Jovens, aí tendes o timoneiro... Mocidade Portuguesa: ao Leme!».
Manuel Monteiro fala mesmo de «à parte um detalhe anedótico, superfluamente acusado» para dizer que a proximidade fisionómica entre o retrato e o retratado era escusada, isto é, pela sua carga ideológica vincada, a obra poderia ter outro rosto e a sua mensagem não se alteraria.
Importa ainda salientar a adesão a este movimento pelo Homem do Leme de homens como Teixeira Lopes e Teixeira de Pascoaes. O escultor, mais «técnico», apenas elogiando a mestria do autor. O escritor, um homem profundo e crítico, não ignorando, por certo, a semelhança, prefere quedar-se pela simbologia na sua vertente de emulação patriótica.
É claro que Américo Gomes, nesta sua obra mestra, não escondeu, pelo motivo e o momento, a sua adesão ao regime vigente (aliás, fez o trabalho com a promessa de «ser pago com encomendas futuras» por parte de Henrique Galvão). E, portanto, uma qualquer correlação entre a figura do timoneiro ao leme e a do ditador Salazar, alicerçada, não apenas nos textos e no movimento gerado em torno da sua execução e instalação pública, mas ainda numa comparação fisionómica, parece-nos não ser exagero nem sequer pura especulação.
Não adiantará muito, por certo, à análise estética da obra, nem sequer à ideologia — já suficientemente vincada, como dissemos — mas é provavelmente um detalhe interessante cuja afirmação ou negação solicitamos, desde aqui e agora, aos nossos leitores mais curiosos e conhecedores deste episódio.
Uma coisa é certa: sendo Salazar ou não sendo, o Homem do Leme é obra de arte com valor, marcada no tempo e no espaço e pertença inalienável e a preservar desta Foz, que, tal como o país, não pode nem deve recusar a sua História.

MARÇO’99 — Nº49

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