Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

3 de outubro de 2008

QUE GRANDE CONFUSÃO!

FEVEREIRO/MARÇO’02 — Nº83




Uma nova, inteligente e pérfida mistificação política está em curso. A propósito da precipitada e desajeitada forma de apresentação pública do caso do novo estádio das Antas, por parte do presidente eleito, Rui Rio, os grandes derrotados das autárquicas — Fernando Gomes, Orlando Gaspar, Nuno Cardoso, Manuela de Melo e outros — voltaram à cena política apoiando-se na movimentação popular (limitada mas importante) de apoio ao maior clube da cidade.
Pretende este sector, poderoso e dominante no PS do Porto desde há alguns anos (demasiados), fazer esquecer a gestão mais autocrática e não democrática que a Invicta conheceu, onde, nas Assembleias Municipais, o Presidente da Câmara desprezava os seus pares, na gestão ignorava os cidadãos, e na urbe os grandes empreiteiros erguiam a bel-prazer os seus lucrativos prédios sem respeito pelos direitos dos vizinhos e da alma dos lugares.
Além do mais, esta polémica veio mesmo a calhar na altura que se impunha um balanço a frio do Porto 2001, embora não se saiba quando terminarão as suas obras — a do inacabado Parque da Cidade e do Metro de superfície, ele também em carris trocados e sem fixa estação de chegada.
Recusamo-nos, como muitos outros felizmente já o fizeram, a receber nos olhos a «areia do Euro 2004».
Primeiro, porque não nos parece que o país se possa impor no contexto internacional por esta via e também que o seu desenvolvimento passe pelas grandes obras públicas, pelo menos deste tipo. Recordemos que o país está mal — hoje ninguém o esconde — e que afinal as megalómanas obras de construção civil e urbanismo (Expo'98, Centro Cultural de Belém, Porto 2001) foram afinal parte importante do descalabro económico e financeiro actual.
Segundo, porque é impossível neste momento avaliar claramente as implificações globais do que está em causa.
Queremos, no entanto, deixar claro que a cidade «densificada» de que nos falou Nuno Cardoso, é a cidade que recusamos: a construção em altura e em superfície, a destruição ou a não criação de zonas verdes, o aumento do aparcamento e do tráfego automóvel, o abandono do centro da cidade (com os seus envelhecidos habitantes, o comércio tradicional mas também o valioso património construído), a liberal política de autorizar centros comerciais a esmo, restaurantes e esplanadas sem fim, como se os habitantes fossem milhões e as suas bolsas sem fundo.
O resumo atrás é bem reflexo da situação ideológica e da prática corrente que tem dominado o PS no Porto. Eu que acreditava que socialismo democrático era uma regra da intervenção do estado, neste caso a autarquia, na gestão da cidade, compondo e gerindo sabiamente os direitos dos cidadãos, o progresso material e vivencial e a defesa da iniciativa privada, verifico afinal — e por isso lhe chamei liberal — que o capitalismo mais selvagem tem norteado a gestão camarária da era Gomes-Cardoso, e que, em resumo, apenas a alguns a sua política tem beneficiado.
A ideologia dominante é a do poder pelo poder, a prática é a da colagem a tudo que tenha conotação popular e atraia gente, o objectivo é satisfazer interesses económicos próprios e domésticas vaidades. Por isso, uma vigilância fina e aturada se impõe aos portuenses e aos portistas.

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