Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

3 de outubro de 2008

E de novo o mar galgou a terra


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.Farolim de Felgueiras, desenho de João Nunes
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Quando quero ver o mar, venho aqui.
Não é grandeza que se olhe do rés-do-chão.
Sítio da Nazaré, 10 de Agosto de 1969
Miguel Torga
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.Duelo sempre desigual, repetição sistemática do David-Golias, mais uma vez mãe natureza reduziu seu filho mais travesso e afoito — o homem, à sua condição de espectador manietado e impotente da sua fúria devastadora.
O mar, nosso bem conhecido de há séculos, teima em não se vergar aos ditames que lhe queremos impor. Não há nesga do seu feito, conquistado pela técnica humana, a que ele não responda iradamente, quebrando o cais intruso, arrasando a marginal ou ainda assoreando os portos.
Sobreiras, Cantareira e Passeio Alegre foram o palco onde decorreu a última cena conhecida desta desequilibrada batalha. Levando de vencida o rapinado areal do Cabedelo e a exígua correnteza fluvial, o mar atacou a zona marginal entre o jardim do Passeio Alegre e o jardim do Calem e massacrou sem dó nem piedade o cais, a estrada e mesmo as casas ribeirinhas.
Foram noites e dias de terror vividas por dezenas de famílias, vendo as suas portas, janelas e paredes frontais servirem autenticamente de quebra-mar ao oceano em fúria, numa angústia desesperante entre o vaivém da maré, sempre à espera da fatal hora-onda da tragédia.
A viva recordação desses momentos de pleno sofrimento e de raiva incontida nos gestos e palavras, não deve esvair-se em esquecimento nos períodos de acalmia que se seguem infalivelmente ao mau tempo.
É que a bonança também precede a tempestade...

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