Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

3 de outubro de 2008

«DA PEDRA À TARTARUGA»

ou breve história de O PROGRESSO DA FOZ

O Jornal (II Série, Novembro de 1978 a Novembro de 1980 e Junho a Outubro de 1981) e Grupo Cultural (a partir de 1987)


Quem sabe? Quem sabe se a tartaruga, na verdade, não seria uma pedra que, à força de sonhar, teria começado a andar?
Guy Marchamps


Foi em meados de 1977, na Presidência da Junta de José Manuel Quelhas da Silva, que fizemos a proposta de criação de um jornal local, apartidário e aberto, que transpusesse regularmente em papel um desenvolvimento, que se pretendia harmonioso e consistente, da nossa terra, que não permitisse uma descaracterização da paisagem e das gentes perante os já anunciados ventos economicistas e egoístas que, infelizmente, se verificaram, e ainda que pontificasse os valores culturais, imprescindíveis a qualquer desenvolvimento válido de um país.

O «JORNAL DA FOZ»

Vínhamos de uma experiência interessante, o «Jornal da Foz», cujos três primeiros números, sobretudo, acusavam nitidamente o peso do momento, isto é, do período social e politicamente conturbado do pós-25 de Abril. Participámos fundamentalmente no n.º 4, de Abril de 1976, que, através de uma maior atenção aos problemas culturais e históricos, procura ainda rectificar o radicalismo, tão espaventoso quanto inútil, dos números precedentes.
Mas... em vão. Os rótulos fortes do título e dos activistas em campo impediam, na altura, qualquer convergência «colectiva» num jornal «da terra».

OS PRELIMINARES

Aliás, essa pesada «herança» de suspeição, que perdurou ainda por longos anos, marcou claramente o compromisso que deu o ser ao nosso jornal: O PROGRESSO DA FOZ era propriedade da Junta de Freguesia e o seu conteúdo, previamente à publicação, era controlado por uma Comissão de Fiscalização, emanente da Assembleia de Freguesia.
Após sugestão nossa, e de comum acordo com o Executivo e a Assembleia de Freguesia, o director tinha sido escolhido: José Augusto de Castro. Foi numa das muitas manhãs — aquela, de Primavera — que passávamos no Café Moreira, a ler o nosso jornal ou a rabiscar as nossas papeladas, que sondámos e obtivemos a anuência daquele a quem muitas vezes, tanto justa como injustamente, tivemos como adversário político (obviamente, incluindo nesta o confronto de gerações), mas a quem, sempre, um passado com salpicos de lenda e um comportamento cívico exemplar, nos trazia admirador e, sobretudo, respeitador.
A partir desse momento, JOSÉ AUGUSTO DE CASTRO representou o essencial de O PROGRESSO DA FOZ, a quem, além do mais, baptizou (ver «História de um título», neste mesmo número).
Logo, ou mais tarde, mais ou menos colaborantes, outros nomes, muitos mesmo, passaram pelo jornal, quer escrevendo, quer ajudando em tarefas diversas, conforme lista que num próximo número publicaremos.
O primeiro número de O PROGRESSO DA FOZ sai, portanto, em Novembro de 1978. Seguem-se dois anos, mais precisamente 25 meses de publicação regular, em que, pela primeira vez na sua história, a Foz, a sua evolução, a sua sociedade, a actualidade, as suas associações e artistas, o desporto, etc., são sistemática e seriamente abordados e divulgados.
Paralelamente, toda uma informação de cultural geral era regularmente transmitida: páginas de Literatura, de Música, de defesa do património construído e paisagístico, sobre instituições culturais da cidade e do país (recordamos as Fundações Eng.º António de Almeida e a Calouste Gulbenkian), as actividades da UNESCO, conselhos dietéticos e informações utilitárias, a Carta do Brasil, etc.
O PRGRESSO DA FOZ foi um jornal local, popular e aberto é certo, mas intransigente na linha cívica e cultural traçada. Apesar disso, ou melhor, por isso, as mentalidades que, na altura (eventualmente hoje estarão diferentes!?), por defeito próprio ou por força dos momentos políticos e socialmente atribulados, não viam com bons olhos uma imprensa consciente, segura de si própria e, sobretudo, livre, resolveram destruir o «sonho» e «empedernir de novo a «tartaruga».

O FIM DE UMA BELA EXPERIÊNCIA

O Presidente da Junta de Freguesia, após as eleições autárquicas de fins de 1979, Manuel Osório, foi o coveiro desta bela experiência.
José Augusto de Castro viu-se obrigado à demissão do cargo e a entregar à Junta a responsabilidade do jornal. Sem entrarmos nos detalhes, que tanto nos penalizaram e sobretudo ao Homem Bom que era o Director do jornal, diremos que diversos subterfúgios foram utilizados para justificar... o injustificável: calar O PROGRESSO DA FOZ.
Saíram ainda mais quatro números do jornal sob uma nova Redacção, sob a batuta centralizante do Presidente do Executivo. Os seus responsáveis, homens de bem, certamente inocentes da irresponsabilidade daquele, levaram ainda por diante a publicação de cinco números do jornal (n.º 26 a 30, Junho a Outubro de 1981), mas este, decapitado do seu esteio principal — José Augusto de Castro — não resistiu e finou-se.

O RETORNO DE UM NOME

Em Março de 1987, após algumas novas experiências, entre as quais avultou a do «Julho Cultural Foz 84», de que falaremos num próximo número, e voltando, entretanto, o Executivo da Junta a ser presidido por homens tolerantes sensíveis à Cultura e à Liberdade, encetámos um novo caminho, menos comprometido, é certo, mas altamente produtivo e importante para a zona oeste da cidade do Porto.
Enquanto Grupo Cultural, tomámos o nome do extinto jornal, no nosso pleno direito moral e na assumida esperança de um dia o reeditar, e... «a pedra voltou a andar».
A Foz, que até ao momento tinha merecido uma ou outra publicação esporádica, passou a ser motivo de variadas edições, novos livros de História, de Sociologia, de Arte, reproduções e álbuns de gravuras e pinturas em azulejos e papel, medalhas, etc. Fomos responsáveis principais, com alguns outros, é claro!, da nova grande atenção e fama que hoje merece a zona da Foz (ver nossa lista de edições, na página 9 deste jornal).

A III SÉRIE VEM AÍ

O nosso trabalho foi germinando, as instituições, melhor ou pior, vão ganhando nova visão dos problemas, e surgem as condições mínimas: constituiu-se uma equipa, fez-se um plano, ganharam-se apoios e, confiante, aqui está o N.º 1: «a pedra virou mesmo tartaruga».

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