Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

2 de outubro de 2008

A Comunidade Portuguesa na Bélgica

(comunicação às Jornadas da Comunidade Portuguesa na Bélgica, Bruxelas, 7 e 8 de Maio de 1994)

Ponto prévio

A minha participação nestas Jornadas, desde as reuniões gerais e dos grupos de trabalho até ao dia de hoje, enquadra-se na actividade de participação cívica e cultural da Fundação Fernando Pessoa na vida da Comunidade Portuguesa na Bélgica.
É claro, no entanto, que, os pontos de vista aqui expressos, apenas responsabilizam a minha pessoa e não aquela instituição.

Introdução

O texto-síntese do grupo de trabalho, e mesmo as precedentes intervenções, dizem já o essencial da problemática cultural da Comunidade.
Limitar-me-ei, portanto, a realçar aspectos não abordados ou menos desenvolvidos ou ainda tratados diferentemente nesses textos e intervenções.
Trata-se, assim, de um conjunto de notas de questionamento, de interrogações e, quando muito, de ligeira "provocação".
Não há conclusões espectaculares, há apenas ajuda para o diagnóstico.
Não é, nem na forma nem no conteúdo, um texto finalizado - se é que eles existem - antes sendo um conjunto de reflexões de percurso, de notas.
Não há, enfim, maldizer, mas simplesmente crítica..., na versão de António Sérgio de
que "a cultura é a crítica".

Do ser e do estar

A Comunidade Portuguesa na Bélgica debate-se, para além de outros problemas mais ou menos conhecidos e definidos e já aqui referidos, com duas outras características e circunstâncias que importa relembrar:
- a realidade portuguesa de partida, com a falta de formação cívica e de base da nossa população e com o por demais referenciado individualismo doentio, e
- a realidade do país de acolhimento e o "choque cultural" da chegada e instalação: o que se chama de defesa das raízes, só tem sentido, se estiver claro nas nossas cabeças que, para a maioria de nós, isso significa facilitar a integração, logo, o apagamento geracional a longo prazo dessas mesmas raízes.
Tal, e ao contrário do que poderia deduzir, apenas valoriza toda a actividade actual de defesa dessas mesmas raízes não só pela "utilidade prática" do facilitar da integração, evitando assimilações traumáticas forçadas e apressadas, mas também pelas vantagens, para a cultura de partida, de manter durante um ainda longo período os seus portadores e ainda, mesmo que essa cultura se tenha, aparentemente, apagado de todo, de manter um vínculo emotivo com os "assimilados".

Alguns apontamentos para reflexão

1. A presença cultural portuguesa na Bélgica é efémera, vive de "fogachos", oram brilham, ora se apagam; Não há instituições permanentes e abertas;
Não há uma correspondência entre actividade, e muito menos entre efeitos, e as numerosas associações portuguesas existentes: amadorismo e desorganização estão presentes; A inexistência de agentes culturais e de quadros formadores é gritante; O vínculo à cultura e à mãe pátria é visto como algo que vai de per si, sem esforço, nem acção e muito menos sem renovação permanente. O folclore, as festividades, o pouco teatro repetem-se até ao aborrecimento. Os frequentadores de cada uma das muitas sedes associativas existentes são os mesmos há anos: quase ninguém de novo, salvo o último que emigrou e chegou.

2. A persistência de actividade está mais nos individuais, sobretudo nos profissionalizados ou não-amadores: artistas plásticos, músicos, professores, empresários, escritores, etc., do que nessas associações.
Aqueles fazem parte importante e de pleno direito da Comunidade Portuguesa.
Daí que a criação da Federação das Associações, discussão antiga aqui de novo proposta, será, por certo, uma necessidade, mas não substituirá jamais uma outra instituição representativa da totalidade da Comunidade Portuguesa. As associações são uma parte importante mas não o todo.
3. A Comunidade Portuguesa vive em círculo hermético, melhor, em vários pequenos círculos, em conjuntos mas sem subconjuntos, há tangentes, mas não há interpenetração; a colaboração inter-associativa e intersectorial é nula. Cada um (individual, grupo, associação, etc.) por si e para si.

4. Para ser recebido é preciso receber: as culturas belgas e outras não entram nas associações portuguesas;
Queremos mostrar-nos aos outros, para que reparem em nós; gostamos deles quando visitantes, mas ignoramo-los quando são dia-a-dia. As acções luso-belgas ou com outras comunidades emigrantes na Bélgica ninguém as viu.

5. A Comunidade necessita da valorização dela própria; Um país atractivo, mas longínquo e um passado rico, mas "passado", não bastam à afirmação de uma Comunidade; Ela mesma e os seus melhores valores, enquadrados numa modernidade de meios e de filosofia, são os requisitos de afirmação;

6 Será que a "importação" da mãe pátria de produtos e organizações culturais – tal como a Europália - é a única solução para uma eficácia garantida?
Será que os portugueses na Bélgica não conseguem criar uma própria actividade cultural, digna, válida e moderna, que partindo sobretudo dela, Comunidade, -dá sua realidade e verdadeiras necessidades, parta para a sua imposição e auto-regeneração?

7. Faltam os grandes projectos de comunicação intracomunidade: rádio, jornais e televisão.
A RTPi não assumiu essa função - a sua filosofia é apenas a de manter o emigrante em contacto com o país de origem. A sua política cultural é medíocre ou nula: o emigrante é o fado, repetitivo, conservador, apelando à inacção: a integração e o incentivo à elevação do seu nível cultural não são a sua filosofia,
O seu resultado é desastroso para as segundas gerações;
Saudade, vontade do retorno sem execução - até porque o país não aguentaria o impacte -, não se procura um apelo bem localizado à integração plena, conjugada com a vivência das origens. "Portugal é o melhor do mundo" e aqueles que, afinal, descobrem que há outros "melhores do mundo", isto é, uma segunda geração mais exigente, com vida autónoma e interesses próprios noutro: país, sente-se defraudada: "Portugal sim, mas só de férias".

8. O papel do Estado (i.e., nas comunidades emigrantes, das Embaixadas) deverá ser sobretudo apoiante e incentivador;
Deve dedicar-se sobretudo aos sectores deficitários e ou muito dispendiosos, por exemplo, às condições primárias da formação cultural, ou seja, a educação e o civismo;
Deve investir fortemente:
- na ajuda à, e na reivindicação, da criação das instituições de "permanência": bibliotecas, escolas, museus, arquivos, centros de investigação, "bases operacionais" fundamentais para a actividade "concreta" ;
- na formação permanente, profissional mas também humanística ;

Antes de finalizar, uma proposta

Para que estas palavras interrogativas, de meias-verdades e, provavelmente, de nenhuma conclusão o não sejam completamente, atrevo-me a apresentar uma proposta que ponho desde já à vossa consideração, e cuja execução, colmatará uma das deficiências aqui apontadas:
Com os considerando que atrás fiz acerca da ausência da comunicação intra-comunidade, com as conhecidas consequências de desconhecimento mútuo e de falta de informação atempada, proponho que as entidades que hoje, na Bélgica, se dedicam a publicar com enorme esforço e custos os seus boletins autónomos, a saber: a Associação dos Empresários Portugueses na Bélgica, o nosso amigo Eça e Costa (que momentaneamente parou a sua Tribuna), a secção de Bruxelas do Partido Social-Democrata e, talvez, a da própria Embaixada de Portugal, portanto, todas estas publicações, interessantes, sem dúvida, mas de acção e importância limitada, se unifiquem numa outra, onde outras pessoas e instituições tragam as suas disponibilidades, e que esta se transforme num jornal ou revista que seja verdadeiramente representativa da Comunidade Portuguesa na Bélgica e de interesse para o seu quotidiano.
Outros caminhos, absolutamente separados das publicações ora existentes, não são de renegar, interessando acima de tudo a concretização da ideia.
Tratar-se-ia duma publicação periódica, onde cada entidade participante, em toda a liberdade e autonomia/colocaria os seus artigos, opiniões e publicidade.
A situação da nossa Comunidade hoje, entre outras variadas e prementes necessidades, exige essa publicação. Sem eia e sem essas outras carências nestas Jornadas inventariadas, continuaremos a ser os bons portugueses, educados, honestos e "integradinhos", que os outros poderão talvez individualmente respeitar mas que não sentem a existência enquanto grupo organizado e de interesses autónomos.

A findar

A Fundação Fernando Pessoa de Bruxelas, entre outros objectivos, nasceu e existe para servir a Cultura e a Comunidade Portuguesa na Bélgica.Não teremos o remédio exacto para os males, nem seremos - assim o desejamos – os únicos a procurá-lo. Certo é que, quer na procura duma permanente e aguerrida acção em prol da elevação do nível cultural geral da nossa Comunidade, quer ainda na sua interactividade com as culturas nacionais belgas e outras, a nossa Fundação exercerá o seu papel.

Joaquim Pinto da Silva
Fundação Fernando Pessoa

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