Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

2 de outubro de 2008

Do som do bronze ao rumor da água

(Livro em co-autoria com A. Cunha e Silva, editado pela Orfeu, com o apoio da Câmara de Matosinhos, em comemoração dos 75 anos de Irene Vilar)










(parte do texto de JPdS)




… e esses náufragos, os mesmos que de sempre eram arremessados contra os leixões, também regurgitavam na barra, a luminosa e trágica, a traiçoeira e bela, a do Douro, ali ligeiramente a sul.


E assim, a ainda hoje menina, plena do tempo e da sabedoria dos que o exaurem, aportou à Foz, ubiquou-se de geografia e de alma, partilhou-se entre mar e rio, e persistiu nesse combate, que é ainda o seu de hoje – e que espanta o cobarde! – entre a suficiência e a inquietude.
Sou triste comigo,
mas enquanto viver serei eu.

Veio só como o do Só, do Leça às Filgueiras e ao Gilreu.

Queria que a liberdade da minha juventude se transformasse em liberdade de silêncios onde eu pudesse continuar a ser sempre igual a mim mesma.

Revoltada, como o embate das correntes lamosas de montante no encontro fragoroso com as vivas marés de sudoeste, na mesma escuma do faz-desfaz dos gessos e bronzes, destroços filhos afinal das angústias das profundezas da alma e das águas com quem vive, com quem convive.

Contam do poeta d’Anto que
…chegados ao Porto, dirigiram-se todos para a Foz e ao passar na estrada marginal, ao dobrar para Sobreiras e quando se vê a barra, por certo recordando-se nessa tarde de sol poente dos seu poentes da barra:
Ó poentes da barra que fazem desmaios
disse, espreitando pela janela do carro:
Que lindo que isto é!

E a jovem artista sabedora desses arrebatamentos, desses e das pinturas brandonianas, áureo rubras, com interstícios de fogo, a exalar hálitos verdes envolvidos nas ondas, de poalhas de ouro que se abatem sob o cabedelo, ali fez eleição.

Na destreza do cinzel e do buril, das húmidas argilas e gessos, brotou o que há muito Irene trazia nas entranhas, em gestação e parto tumultuosos, condição para um fruto, inquiridor por certo, mas apaziguador e contagiante.

Célere, naquele lugar, cravou o que leva e o que traz, porque o poeta está mais preocupado com o que urge do que com o que falta, porque o que insta é eterno e o necessário é apenas de hoje. E ali as delongas foram muitas, por culpa dos homens, e havia que operar.
O Mensageiro fixou-se como se fosse prescrito de há muito o seu lugar:

Dai velas, disse, dai ao largo vento
Que o céu nos favorece e Deus o manda
Que um mensageiro vi do claro assento;
Que só em favor dos nossos passos anda


Esse poema brônzeo, em procura do espaço primordial, de qualidade que ofende os medíocres, dessa diferença que é estigma, que é pena para carregar a vida inteira, pois o mundo é bastante para muitos e mal daqueles arqueólogos do ser que incertos e incessantemente buscam e porfiam, porque apenas lhes sobra a consciência de si mesmo, e de alguns mais, poucos, obstinados: é por aí, e se for por outro lado é abdicação, é ignomínia.

Houve fantasia, raiva, frustação... e fixei-te no tempo através da minha verdade.

É Gabriel, Miguel ou Uriel?
Pressagia novos tempos, vaticina um percursor, profetiza um salvador?
Propõe a cura, a via da contrição, o fim das trevas?
Que importa!

Antes reanuncia a demanda e prediz o que devia ser já entendimento comum:
Que pequena é a abelha entre os voláteis mas o seu fruto é o primeiro em doçura
e que
quando deres esmola não permitas que toquem trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas. Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo.

E sem os artifícios da maneira de hoje e no acanhamento inerente às alturas, à vera grandeza, aponta, de mão direita, o caminho da busca, da indagação incerta e por isso redentora, e de esquerda, a mesura sem ornatos, a contenção inata das causas avisadas.

O Mensageiro da Irene tem a mácula da humanidade e a candura celestial.
Genuflexo, olha a terra, singelo e sincero, porque as estrelas e os siderais trilhos divisam-se outrossim por entre os líquenes, nos verdes lodos do leito do rio.

Joaquim Pinto da Silva

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