Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

1 de junho de 2006

Via Galego, na liberdade, na democracia e na nação

(artigo publicado na revista: ...)
A Milagros Francisco, de Ourense, amiga de quem perdi o rasto, devo o primeiro discurso galego firme e estruturado, nos finais dos 70’s ou inícios dos 80’s, por Vila Real e Porto. Galeguista mais firme desde então, tenho tido a oportunidade, que em Portugal é escassa, bizarramente escassa!, de conviver com meios galegos nesta capital da Europa, onde vivo há 22 anos, como que confirmando a patológica expatriação da galeguidade militante, porventura necessitando sempre da ausência para se impor plenamente.
“A afirmação, … a apologia da emigração como força civilizadora”, lição retirada pelo escritor português, Eça de Queiroz, desde 1874, e absolutamente esquecida (desprezada até) no seu próprio país, tem exemplaridade assertiva com os milhares de galegos espalhados pelo mundo.
Se é certo que a importância cultural da emigração galega para com a pátria foi de monta, o mesmo não se poderá dizer da portuguesa para com o seu país. Esta, salvo excepções ligadas ao exílio político directo dos anos sessenta e setenta e a um Brasil de fins do XIX e princípios do XX, nunca teve a força de intervenção e de influência na origem como o tiveram, por exemplo, a comunidade galega de Bons Ares* para com a terra-mãe**.
2006, ano da Via Galego, por certo a mais importante iniciativa político-cultural na Galiza dos últimos tempos, dada à luz, cremos e esperamos, sem inocência, a 25 de Abril, promete recolocar a questão da língua no centro de todos os debates, porque a língua não é um problema da Galiza, a língua é o Problema da Galiza, como repetiu Xavier Alcalá aqui em Bruxelas há alguns dias.
E porque somos poucos ainda, ou para sempre (?), os que recusamos uma galeguidade formal regional e que antes a afirmamos como identitária para um futuro moderno, progressivo e no contexto das outras nações, há que congregar nesse pleito todos os que aceitem como bandeira primeira o atrás dito.
E nesse entendimento, como não pode deixar de ser, a emigração não pode ficar de fora, sob pena de se repetir o pernicioso erro histórico romântico de confundir univocamente cultura e língua com um território preciso (aqui estamos já no centro do “tufão”, onde as rotações centrífugas lançam céleres todo o tipo “soluções”, mas a que voltaremos noutra oportunidade, se ma derem).
A nação é a verdadeira e única porta para o universal, e não o País ou o Estado. O universal é o local – a aldeia, a nação – sem os muros, diz-nos Miguel Torga, e para um mundo equilibrado, pacífico e respeitador dos direitos do homem só a nação, entidade com uma língua, uma cultura e um sentimento partilhado de pertença a uma mesma comunidade, pode ser o trampolim e não fórmulas herdadas de partilhas territoriais, respeitáveis, por certo, mas anacrónicas em relação à sociedade global que, de sempre, as forças de progresso pretenderam, e que não podem agora renegar.

Produzida uma abrangente síntese de história da língua, haveria que colocar à mesma mesa, as forças de cultura galega activas, nas variantes conhecidas de propostas para o futuro da língua (todos os ismos, “ais” e “óis”), numa reunião “desarmada” e onde o caminho, a partir daí, sim!, se encontraria por ele próprio (alusão machadiana propositada).

Depois de recebermos por cá a Santiago Jaureguizar, Antón Lopo, Yolanda Castaño, José Luís Fontenla, Marga do Val, Victor Freixanes, Uxia Senlle, Miguel Anxo Fernan Vello, Santiago Veloso, Xavier Queipo, Isabel Rei, Francisco Iglésias, Xosé Manuel Beiras, Carmen Adan, Xoan Mao, Manuel Rivas, Adela Figueiroa, Luís Bará, Miguel Varela, Camilo Nogueira, o nosso balanço é claro: há diferentes opiniões e mesmo radicalismos nas estratégias políticas da língua e galeguidade, que importa agora amenizar, sem apagar. A Galiza está por em cima, como se diz a noroeste, e seguro que a prática da liberdade que a cada galego e galeguista cabe por inerência, haverá de apontar o caminho que a mátria da língua galega (e portuguesa) há-de perseguir e prosseguir.
E se de resultados já, imediatos, me falam, relembro-vos a parábola do velho plantador de nogueiras: perguntou o príncipe ao camponês porque plantava nogueiras, se já não tinha anos de vida para lhe comer o fruto.
A resposta sabem-na vós.

Joaquim Pinto da Silva
Bruxelas, Junho de 2006

*Buenos Aires, como servilmente dizemos em português, mas, curiosamente, traduzimos Nova Iorque, Londres, e tantos outros topónimos.

**Notemos por exemplo que desde os anos 70 que Paris é a segunda cidade “de Portugal”, tendo chegado quase ao milhão de portugueses, e que nunca teve, até há pouco, um único jornal de língua portuguesa na comunidade, e, por contraste, as dezenas de jornais em russo e ucraniano que de Norte a Sul de Portugal hoje são editados por comunidades bem menos numerosas que aquela.

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