Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

18 de março de 2006

Um Homem, os seus feitos,Uma Obra, os seus efeitos

Intervenção na Sessão de lançamento do livro História do Batel Vae com Deus, de Raul Brandão, na Afurada, em 18 de Março de 2006

Preliminar

Perante uma obra redescoberta dum autor com a importância desta e com a ciência que é a nossa, tentamos fazer obra consistente, no pressuposto que ser primeiro a mais obriga e que apresentar uma obra não é esgotá-la, e menos ainda explicá-la, mas antes atrair a ela leitores e abrir, aqui e ali, portas a outros olhares e a outros temas.
Evocaremos aqui passos da obra e do prefácio, que nos parecem relevantes, repetindo-nos um pouco, é certo, mas num ou noutro ponto iremos um pouco mais além, sobretudo nos caminhos arredios à natureza e objectivo do prefácio, mas admissível em apresentação pessoal.
"Uma escrita mar do peixe" – a de Brandão – é isso mesmo: lugar certo para lançar rede, infalível certeza de recolha de saber e de humanidade

Os seus feitos

"A paisagem mais bela é aquela em que fomos criados e que faz parte da nossa substância". Assim se exprime Raul Brandão sobre o seu berço, a Foz do Douro, terra que lhe deu mote e brasão dos quais nunca mais se separaria e que, regularmente, reapareceriam na sua obra, quer em citação, quer em cartas, quer em memórias.
Recordemos pela similitude e paralelismo, o que Teixeira de Pascoaes disse a propósito do seu Marão de infância: “desde então a minha memória converteu-se num extenso panorama escuro, com uma grande montanha ao fundo”.
Continua o ilustre sanjoaneiro: "nunca Londres ou a floresta americana me incutiram mistério que valesse o dos quatro palmos do meu quintal. Nunca caça às feras no canavial indiano foi mais fértil em emoção e aventura, que a armadilha aos pássaros na poça do Monte, com o Manuel Barbeiro".
E esse espaço é bem delimitado: “A Foz é para mim a Corguinha, o Castelo e o Monte, com o rio da vila a atravessá-lo, e a rua da Cerca até ao farol… essa vila adormecida … a cem léguas do Porto e da vida”.
Aqui, neste cenário, cheio de poentes que se enbrasam, e cujas descrições são famosas pelo carácter pictórico em que se apoiam (e que me levou a ir buscar ao pintor Emerenciano a definição de escripintura), o nosso escritor, filho e neto de homens do mar, ganhou por experiência própria e por adesão moral uma veneração extrema, uma pertença, aos pescadores.
No ano em que nasceram os poetas António Nobre e Camilo Pessanha, 1867, nascia também Raul Germano Brandão, na Rua da Bela Vista, nº 62, na Foz do Douro, a 12 de Março.
Os Pais matriculam-no no Colégio S. Carlos, na Rua Fernandes Tomás, o que foi para ele um tumultuoso embate com o mundo. Os castigos, a mentira, o mal também ali os aprendeu, ao som do vozeirão do mestre de latim que se ouvia até ao Bolhão.
Em 1891, terminado o curso secundário, frequentou o Curso Superior de Letras.
Frequenta a Escola do Exército e está no activo militar, como Camões e Bocage recorde-se, a partir de 1888, em funções sobretudo burocráticas no Ministério da Guerra.
Dedica a Guerra Junqueiro a sua primeira experiência literária publicada em 1890, Impressões e Paisagens.
Pouco depois, em 1983, integra um jovem e irreverente grupo, apelidado Os Nefelibatas – os sonhadores, os que andam nas nuvens – e redige na sua maior parte o manifesto partidário das correntes vigentes do simbolismo e do decadentismo face às “ultrapassadas” fórmulas realistas e parnasianas.
História dum Palhaço, de1896, é um produto desse período.
Promovido a alferes em 1896 e colocado no Regimento de Infantaria 20, em Guimarães, onde conhece a mulher, Maria Angelina, com quem casa em 1897, reconstruindo uma casa em Nespereira, a Casa do Alto, onde viria a viver largo tempo, a partir de 1903. Da sua vida militar, onde foi um inadaptado, diz-se que "pedia por favor aos soldados que apresentassem armas" e "por obséquio executassem o direita volver". Confessou que na escola exército aprendeu "coisas inúteis que me deram mais trabalho a esquecer que a aprender".
Quer antes, quer durante a vida militar e quer depois, foi um activo jornalista, colaborando em diversas revistas e jornais: Revista de Portugal, Monitor de Bouças, Monitor, Brasil-Portugal, Correio da Manhã, Revista de Hoje, da qual foi co-director (1894-1896), A Arte, tendo sido chefe de redacção dos jornais O Dia e A República e outros.
Depois de O Padre, em 1901, e A Farsa, em 1903, redige e publica Os Pobres, em 1906, obra que é, em conteúdo e na estrutura, assim como na temática e compromisso sociais, uma verdadeira novidade na literatura nacional.
Em 1912, foi reformado no posto de major.
Em dois anos, de 1912 a 1914 interessa-se pela novelística histórica e publica El-Rei Junot e A Conspiração de 1817, exercícios mais sobre a condição humana que de História, onde amplia as vertentes do tresvario e do excentrismo humanos.
Húmus, de 1917, é ainda mais ousado. A sua originalidade levará David Mourão-Ferreira a dizer que este livro, sendo «contemporâneo do aparecimento das principais obras de Proust, de Joyce e de Kafka, bem como do período da gestação da obra de Faulkner», expressa «um determinado número de características que também se encontram em maior ou menor grau, e sob diversas formas, em todos aqueles autores». Esta alma eslava e religiosa, segundo João Pedro de Andrade, chega aqui ao cume da explicitação das suas angústias, das suas dúvidas sobre a existência que são irrespondíveis, como que esbarrando numa “parede sem porta”. “Era religioso, se por este vínculo se entende possuir-se alma amante e solidária com os seres e as coisas do mundo”, alude ainda Aquilino Ribeiro. «Atrás das palavras com que te iludes, de que te sustentas, das palavras mágicas, sinto uma coisa descabida e frenética, o espanto, a mixórdia, a dor, as forças monstruosas e cegas». Vergílio Ferreira acrescenta: «o que define Raul Brandão é o pressentimento de um novo mundo e a informe, indisciplinada contradição em que se move».
As Memórias publicadas em 1919, 1925 e o III postumamente em 1933, para além da narração de particularidades do tempo, aprofundam de quando em vez essa noção simultânea de procura e não resposta.
"O homem é tanto melhor quanto maior quinhão de sonho lhe coube em sorte. De dor também". É com esta insígnia que faz nascer o seu teatro. O Gebo e a Sombra, o Rei Imaginário e O Doido e a Morte, de 1923 são as primeiras peças, onde alvitra um teatro simples, baseado no poder pedagógico da arte dramática e no intento de interessar o público com dramas sumários que fossem populares e humanos.
Nesse mesmo ano, surgem Os Pescadores, a sua obra mais difundida. Foi o próprio Raul Brandão quem, numa carta dirigida a Albino Forjaz de Sampaio, dividiu a sua obra em duas metades distintas que caracterizou do seguinte modo: uma em que dá conta da sua luta com o "fantasma"; outra em que se detém "com alegria a fixar a paisagem e a luz". Desta forma, Brandão procedia à classificação d’Os Pescadores nesta segunda categoria. Ao fazê-lo, assim esquematicamente, facilitou quanto a nós o rebaixamento em geral, de que falamos no prefácio, da sua obra.
É evidente a existência de duas aparentes abordagens literárias na sua obra, pois com Os Pescadores, estariam, Impressões e Paisagens, As Ilhas Desconhecidas e esta História do Batel. No entanto, o mesmo pasmo perante “o fantasma”, o mesmo “non sense” da existência, o mesmo grotesco e absurdo existem e em força nestes trabalhos.
Após viagem aos Açores em 1924, vai dar à estampa As Ilhas Desconhecidas, que para além de ser considerada uma das primeiras obras de séria temática açoriana, firma a conhecida diferenciação por cores daquelas ilhas: Terceira, ilha lilás, Pico, ilha negra e S. Miguel, ilha verde.
Publica ainda A Morte do Palhaço e o Mistério das Árvores, em 1926, a peça de teatro, Jesus Cristo em Lisboa, em 1927, em colaboração com Teixeira de Pascoaes, O Avejão, em 1929) e, com a sua mulher, Maria Angelina, Portugal Pequenino, em 1930.
O Pobre de Pedir é publicado em 1931 pela mulher, após a sua morte, assim como o III volume das Memórias (Vale de Josafat), como referimos.
Morre em Lisboa, a 5 de Dezembro de 1930, com 63 anos de idade.

Os seus efeitos

Se, por um lado, é hoje teoricamente consensual a valia e a modernidade da obra brandoniana, é verdade também que os efeitos perniciosos dos seus antagonistas continuam a fazer-se sentir na divulgação geral da obra, incluindo, essa parte fundamental, a do ensino, onde ao nível primário e secundário, as obras imediatamente mais acessíveis vão sendo eliminadas dos manuais e, no superior, são escamoteadas nos curricula e nas organizações específicas (seminários, congressos, publicações).
Vejamos algumas daquelas rejeições:
Castelo Branco Chaves considerou a obra de o autor de Os Pescadores repetitiva e anárquica, sem muitas leituras, sem organização e considerava a espontaneidade do autor de Húmus, um traço de incultura. As suas personagens são sempre as mesmas, a sua obra não é um percurso: "a sua obra tem o rotativismo de um disco". Vai mesmo mais longe e afirma que o "supremo momento... não era Newton descobrindo o teorema..., mas aquele em que qualquer pária, miserável, blasfemo, ou em que qualquer mulher sofre e odeia."
António Sérgio exigia a uma obra um "travejamento intelectual" que não encontrava em Raul Brandão a quem acusa de esboçar quadros de apresentar fracções e não unidades. Sérgio, recordemos, foi um crítico acérrimo da Renascença Portuguesa e dos seus principais, Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoaes.
Nesse manual escolar que todos conhecemos e folheámos, a História da Literatura Portuguesa, de Óscar Lopes e António José Saraiva, sobre Os Pescadores diz-se que "expande barrocamente um espanto sempre extasiado de ver e sentir" e, sobre outras obras, "a obsessão de amplificar em tudo e todos a faceta louca e grotesca, o ponto de contacto entre o trágico e o reles". Mais à frente inclui Brandão num notável grupo de individualidades como Sampaio Bruno, Junqueiro, Pascoaes, Leonardo Coimbra e Fernando Pessoa, "predominantemente originários da média burguesia provinciana", partilhando "opostas inspirações: o positivismo e o transcendentalismo (ou panteísmo) ostensivamente heterodoxo".
Neste resumo, por definição circunscrito, estão no entanto os principais óbices a uma maior projecção da obra de Brandão até hoje: desorganização e espontaneidade da escrita, a repetição das personagens, a valorização do grotesco e do popular em desabono da ciência, o culto do espanto, do êxtase, a evidente heterodoxia.
Estes conceitos, ainda bem vivos na sociedade portuguesa de hoje, de vanguardismos bastardos, de progressismos elitistas e inconsequentes, acoplados a um tradicionalismo e a um imobilismo ideológico transversal a toda a sociedade, sem curiosidade, sem interrogações, dogmático, contíguo a uma centralização cultural e política asfixiante, são os responsáveis do abandono da obra do autor de Húmus.
A necessidade de interrogar, de duvidar, de procura do como e do porquê, insistente, permanente é traço fundamental do nosso escritor. Junta-se-lhe um comprometimento avalizado e de inclusão, no sentido em que o escritor está com as suas personagens, convive e solidariza-se com elas. Por isso mesmo não é uma colagem de oportunidade a algo que lhe é estranho, daí permitir-se o desaforo sobre o seu país, a propósito de D. Pedro IV: "o homem que quis dar ao seu país a liberdade, quando o seu país não se importava da liberdade par nada". Mas o que, provavelmente agradou ainda menos aos seus críticos é que, na defesa segura e aberta das suas origens e pensar, afirma: "ao passo que o semita, no sul, queimava gente aos milhares, nunca foi possível fazer no Porto um auto de fé".

O “Vae com Deus”

Estes contos, reencontrados graças a esse garimpeiro da cultura que é o Cunha e Silva, vêm provar… o “já provado”, alimentando assim o assombro dos admiradores e também as reticências dos adversos.
De facto, pegue-se ao acaso num destes contozinhos e goze-se o prazer de uma escrita belíssima, onde as repetições de palavras, ideias e factos, voluntárias por certo, são elemento fundamental para a atracção do leitor e a unidade do conjunto. Os elementos factuais dos contos anteriores, as tramas, são de somenos, a sua ignorância não perturbando a apreensão do discurso.
Os tipos, as situações e as paisagens enlaçam-se num tempo, sem rigor no texto, provocando uma leitura evocadora do ambiente marítimo, enobrecendo o duro e perigoso labor piscatório alcandorando-o ao lugar que merece.
Realcemos de novo na individualidade de cada conto o tal fio de drama, condutor e permanente, que permite a obra ser capeada sob um mesmo título.
Acerca das reconhecidas duas faces da escrita de Raul Brandão: a apolínea, da luz e das paisagens e a da morte, da tragédia e do fantasma, fica agora provado que, pelo menos, nunca tiveram dois períodos de fabricação distintos, e queda para outra oportunidade contradizer até o próprio escritor, que as reconhecia, examinar a fundo a sua pertinência, pois figuras como o Vareiro, do Batel, ou o José Libó d’Os Pescadores, e tantas outras, acrescentam sem dúvida o espaço das angústias humanas às narrações iluminadas e luminosas da escrita.
Estes dez contos, que provavelmente poderiam ter sido mais, porque não há rasto de fim adrede assumido, aparecem em 1901, de Janeiro a Julho na revista Brasil-Portugal, nascida dois anos antes, e que tem em Raul Brandão o seu correspondente na cidade com mais ligações comerciais ao Brasil, o Porto.
Notamos a premonição da feitura d’Os Pescadores, a tal “obra formidável que o assunto merece”.
Retemos ainda a construção dos tipos, tão ao gosto do escritor marinho, lisas, simples, ingénuas e toscas, como o arrais Manuel Pereira, o "velhote, borracho, curtido, negro e desdentado (que) raro larga o cachimbo...de barro (que lhe) fumega nos lábios de sátiro", que é o Vareiro, a família com o Pai, da Afurada, já falecido no mar, sobrando a Mãe, filho e filha, cada um com o seu percurso, e a Ardida – esse pícaro – tresloucada e valente, que comanda homens, para além da síntese dos perfis dos homens e mulheres do mar, segundo a sua terra de origem: os poveiros, os de Ovar, os de Paramos, os sanjoaneiros, etc.
O Senhor dos Navegantes leva um dízimo para a protecção dos mareantes e o funcionamento da economia do batel é explicitado: "cada homem tem em geral duas ou três (redes) e do que com elas tiram ao oceano pagam um quinhão ao barco: de cada dúzia de pescadas uma é para o patrão do batel”.
A Foz, lugar da Cantareira, é ponto de partida dos quadros, referindo-se ainda a Póvoa, Ovar, Paramos, Espinho e a Afurada. Nesta Cantareira, sobressai a referência à “consulta” esse lugar imaterial, do qual estamos agora mais seguros do que na feitura do prefácio, como sendo um espaço de diálogo e de audição de dados factuais meteorológicos e de opiniões avisadas de anciãos e homens da barra acerca das possibilidades de pesca e de navegação do dia.
Do texto, como curiosidade, referimos também no intróito, esses velhos e pequenos cachimbos de barro muito do uso dos homens do mar, desde há séculos.
Está então percorrido texto e prefácio. Concluamos.

Meta

Um reconhecimento ao Professor António Cunha e Silva, que, por amizade e companheirismo intelectual, se lembrou de mim para esta homenagem, e à Cristina e ao Jorge Castelo Branco pela ousadia de serem editores no Portugal de hoje e de se aventurarem a navegar com o Batel Vae com Deus.
Alargue-se ainda o obrigado à escultora Irene Vilar, filha de Matosinhos e adoptada pela Foz, isto é, símbolo-súmula desta sessão, e ainda à Ronda da Foz do Douro, animadores desta jornada com a sua alegria e seus cantares.
Perdoem-me ainda e agora a intrusão pessoalista com base numa saudade inscrita no prefácio: José Carvalho Nunes, primo do meu lembrado Pai, a quem me habituei a inseparar da Cantareira, terra também dos seus filhos, Teresa, Francisco e João, e ainda da Agustinha, do Afonso e do Alfredo Framelã, tudo gente de meu sangue, e ainda outros, ali da Rua de S. João, como a Gina, companheira de juventude até há bem pouco, e os inditosos Pais Faria.
Com a personagem de Brandão, que seguramente Fernando Pessoa leu: “Tenho chorado tantas lágrimas como aquele mar salgado”.

Diz o mestre: "Vivemos de palavras. Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas. São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem".

Que valham estas palavras para uma saudação final ao pretexto e finalidade deste encontro, os Pescadores – consubstanciado nesta terra valente da Afurada -, que, “como todos os pobres, têm uma vida…ignorada, simples e grande”.

Joaquim Pinto da Silva
Tervuren, 16 de Março de 2006

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