Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

8 de fevereiro de 2011

Triangulação contra a banalidade

(prefácio à obra Voar, a propósito de esculturas de Maria Leal da Costa, com poemas de Nuno Guimarães e fotografias de João Frazão; edição trilingue: português, inglês e lituano, da Orfeu)

Uma força interior e superior, uma compulsão e uma inquietude, um estado febril de procura do fim, não o querendo verdadeiramente mas antes gozando deleitados o prazer do precurso, do ir fazendo, assim é, pode ser!, o que se chama inspiração.
Não é um sentimento - os sentimentos não dão, por si só, obras de arte – mas antes um racionalizar, uma redução do sentir, apoiado numa técnica laboral que é, normalmente, fundamental, e vivida num momento preciso, único e concentrado, e que resultam numa escultura, num poema, numa fotografia.
É insufuciente a reprodução do real – lição sabida -, pois se a ciência desenha a onda, a arte enche-a de água, nas palavras revisadas de Pascoaes, e sem esse conteúdo, que é forma-substância – ai dos que a pensam apenas essência! – o real, sempre o ontem, nunca seria o presente e o futuro, isto é a obra de arte, aquela que aparentando imutabilidade, renasce, ou devia renascer a cada aproximação e análise.
Não duvidamos que a banalidade é uma obra terrível dos nossos olhos - ainda a águia do Marão a leccionar – e que, por essa mesma razão, eles não nos bastam para uma apreciação funda e sentida da obra de arte.
Desbanalizar, ou seja, tornar diferente, dar valor novo, portanto, é o que consegue esta triangulação feliz entre as esculturas de Maria Leal da Costa, de quem já assinalamos a Graça, dos poemas de Nuno Guimarães, afirmando: ...ludribrio o teu presente / com futuro antecipado, e as fotografias de João Frazão, na recorrente procura de um tempo perdido.
Na analogia e na desavença, com donaire, ganhemos tempo, antecipando o futuro, aproveitando este trígono inspirado e inspirador.

Tervuren, 8 de Fevereiro de 2011
Joaquim Pinto da Silva

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