Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

10 de junho de 2010

Sobre a obra, O Filósofo Fantasma, de Pedro Baptista

(Com chancela Zéfiro e prefácio de Celeste Natário, a ser apresentado em 25 de Junho de 2010, às 18.30 h, no Palacete Viscondes de Balsemão, Porto)



Onde pára a obra A Ritmanálise, de Lúcio Pinheiro dos Santos?
Onde "parava" Lúcio Pinheiro dos Santos?


Nos sótãos poeirentos de muitas mansardas portuguesas ou forâneas, jazem em arcas encoiradas, em malotes de torna-viagem, ou em comerciais sacos, cartas, textos e obras insuspeitas de vida própria, em espera insensível de casualidades ou procuras capazes de lhes dar o interesse ou a nomeada merecida. Isto sem falar de tudo o que também jaz nesses cemitérios protegidos e apaziguadores de consciências burocráticas que são as bibliotecas e os arquivos.

A Ritmanálise, de Lúcio Pinheiro dos Santos, é uma dessas obras à qual um filósofo francês, Gaston Bachelard, dedica uma importância reverente, no seu trabalho A Dialéctica da Duração (todo o último capítulo), publicado em 1936, e que até hoje nunca se encontrou.
Felizmente que Bachelard faz longas citações reverentes desse trabalho, permitindo-nos assim alcançar a sua importância, atestada aliás pelas intermináveis repercussões internacionais comprovadas pelas citações fácil e imediatamente verificáveis no mundo web.

Pedro Baptista refere alongadamente este mistério, mas debruça-se também sobre um outro, inseparável, a espessa bruma envolvendo o próprio autor do texto, Lúcio Pinheiro dos Santos.
Dele se publicara o testemunho sobre o seu irmão de carácter e de visão, Leonardo Coimbra, e pouco mais. Ora, conhecendo os meios da filosofia portuguesa, totalitariamente "quase" universitária, a ênfase dada à Ritmanálise na obra de Bachelard, a importância deste na filosofia contemporânea, e as suas largas repercussões internacionais, e sabendo que algumas tentativas de encontrar o texto A Ritmanálise foram feitas aqui e ali, é, mesmo assim, muito estranho que mais de 50 após a sua morte, o autor não tenha sido objecto de procura, de "explicação" biográfica que é de onde saem muitas vezes as "descobertas" importantes.
Pedro Baptista fê-lo. Em texto de filosofia, por certo, mas de filosofia sábia (redundância necessária), aquela que não se imagina sem uma acção consentânea, aquela que não é diletantismo abstracto e que, como tal, não se esgota em si mesma, que sobrevive e é valida se interagir com os outros saberes, numa procura e exercício de vida.
Encontrou então o autor, ao que parece, um Fantasma que não o é, um Filósofo que o é.
Lúcio Pinheiro dos Santos "uniu o inseparável", uma filosofia, a descobrir no livro, a uma acção cívica forte e assumida, como opositor à tirania reinante em Portugal em favor das forças aliadas contra o fúnebre nazi-fascismo do Eixo.

Se, depois desta obra, continuamos sem saber onde pára o tratado A Ritmanálise (para nossa vergonha ainda não se fez o que se devia neste campo), ficámos no entanto a saber que não existe afinal nenhum Fantasma, que Pinheiro dos Santos teve vida e viveu-a, e sobretudo que o mérito indiscutível da sua obra filosófica, apesar de sustentada em citações de outrem, não é de todo, nem separável nem por arriba do seu empenhamento político e cívico exemplar.

Mais, em contexto de mudança política e social em Portugal, esta obra traz, à filosofia portuguesa e à sociedade, um "novo ritmo", menos bolorento e mais entusiasmante, de que tanto precisamos.

Joaquim Pinto da Silva

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