Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

2 de maio de 2010

Por uma renovada prática cultural

No aniversário do Entre As Artes E As Letras

Esperavam o dia inteiro pela noite,
E, à noite, iam para a cama cansados de esperar
José Nicolau de Almeida
in Um Menino da Foz, ed. O Progresso da Foz, no prelo


Neste momento de verdade – assim encaravam os gregos antigos as situações de crise – a cultura portuguesa necessita de cumprir, através de rápidas e incisivas ideias e actuações, o seu papel regenerador.

No plano das ideias culturais vigentes durante as duas últimas décadas, na sociedade portuguesa, avultam pelo menos duas noções que trouxeram e trazem prejuízo manifesto ao nosso desenvolvimento cultural sustentado e equilibrado.
Uma, claramente demarcada, é a do abuso em sentido restritivo do carácter “nacional”, limitando-o a um pretenso interesse acima do indivíduo e das componentes culturais diversas (sim, não temos uma cultura homogénea), sejam estas sectoriais ou regionais.
Uma outra, também castradora e provinciana como a anterior, reflecte-se numa procura obsessiva do cosmopolitismo, confundindo-o com um aeroporto, onde todos passam mas ninguém se fica, impondo-o não como um estado, desejável é certo, mas antes como meta que, alcançada nos poria o mundo aos pés.
Os resultados aí estão: um separatismo (isto mesmo) faccioso sob a capa “nacional” privilegiando tudo que se faça na capital e arredores, e uma redutora procura demente de ser “vanguarda”, como se toda uma cultura se resumisse a isso, pior ainda, como se essa fosse a única prestável e capaz de “mudar o mundo”.

Vem isto a propósito do ilustre aniversário deste nosso jornal cultural, que não sofre deste manifesto desprezo pelo quotidiano fabricar de cultura, de produção e reprodução do novo, de artistas, escritores, músicos, actores, agentes, associações, etc.
Pela minha longa experiência de activista, de agente cultural, revejo-me nestas páginas de diversidade, de modernidade e de tradição, de reflexão e de agitação de ideias, de ponto de encontro e de contacto de quem mexe.
Da Orfeu, livraria portuguesa e galega em Bruxelas (de poucos mas convictos leitores), envio à sua directora e aos colaboradores, um abraço de parabéns, solidário e de incentivo, para que não se cansem de esperar.

Joaquim Pinto da Silva

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