Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

13 de janeiro de 2010

Portugal e Galiza, do interdito ao crucial

publicado em:
As Artes Entre as Letras, quinzenário cultural, de 31 de Dezembro de 2009;

e na net:

Portal Galego da Língua:
http://www.pglingua.org/index.php?option=com_content&view=article&id=1662:portugal-e-galiza-do-interdito-ao-crucial&catid=3:opiniom&Itemid=80, com comentários em:
http://www.pglingua.org/foros/viewforum.php?f=8

Vieiros, Galiza:
http://www.vieiros.com/columnas/opinion/1065/portugal-e-galiza-do-interdito-ao-crucial;

A Cidade Surpreendente, de Carlos Romão:
http://cidadesurpreendente.blogspot.com/;

Trabalhadores do Comércio - Iblussom, banda rock:
http://iblussom.blogspot.com/2010/01/portugal-e-galiza-do-interdito-ao.html

Nortadas:
http://www.nortadas.blogspot.com/

Barcos do Norte, Associação para a Preservação, Defesa e Estudo do Património Marítimo
http://barcosdonorte.blogspot.com/

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Portugal e Galiza, do interdito ao crucial
- um texto incómodo (a Norte e Sul do Minho) de cultura, de política

1.
Para o comum dos portugueses, o galego e a Galiza representam uma particularidade étnica e uma região entre outras, em que uma gaita-de-foles, as Rias Baixas e um bom marisco fazem quase toda a distinção para com o restante do Estado espanhol.Para alguns outros compatriotas, com alguma formação escolar, trazer-lhes-á uma remota ideia de uma literatura comum (a poesia trovadoresca), de algum relacionamento actual num tal de Eixo Atlântico, entremeado de alguns clichés sociais (o aguadeiro em Lisboa, o carregador na Ribeira, o trabalhador incansável) e talvez um preconceito histórico ligado a uma Mãe galega, Teresa, que perdeu uma batalha com o filho insubordinado que assumia pela primeira vez essa condição "superior" de português fundador, o "primeiro".

2.
Uma ditadura iníqua no século XX, uma Inquisição sanguinária (ainda que o Porto apenas tivesse tido um Auto-de-Fé, contrastando com as centenas em Lisboa e, sobretudo, de Évora e Goa) e um nacionalismo centralista afirmado sempre contra a imperial Castela, poderosa e ali ao lado, ajudaram a criar e a manter alguns dos grande mitos fundadores "nacionais", todavia vigentes, apoiados num desconhecimento que se encosta mais ao comodismo intelectual das ideias feitas do que a uma ignorância, também verdadeira, etária, geográfica e socialmente alastrada.Portugal, na sua vertente histórica de Condado Portucalense, despega-se do restante da Galiza por um acto, comum à época, de afirmação senhorial em relação a um suserano de quem não poderia já tirar vantagens, antes pelo contrário, já que toda uma Reconquista para sul prometia terras a perder de vista e levas de vassalos contribuintes. Com essa independência (do Reino de Leão), que dura há quase 900 anos, em que desenvolve as suas capacidades próprias sociais, estruturais, psicológicas e linguísticas, chega ao que é hoje: senhor de uma História rica e de uma língua pluricontinental de poder crescente.Mas a questão que sobra, ignota de muitos e relegada (por medo das consequências que poderia produzir e secundarizada pela iletrada tecnocracia vigente) é saber qual é nossa matriz cultural essencial?Nascemos do nada? Temos Viriato (que viveu seguramente a maior parte da sua vida em território hoje de Espanha) e os lusitanos (povo do qual nem sequer sabemos a língua que falava) apresentados como substrato nacional, porquê?Talvez a necessidade de afirmação nacional do ex-condado e do Portugal da altura obrigasse a um "desvio" no rigor dos nossos historiadores, comum a muitos povos, para fugir a uma verdade que poderia ainda abalar a nossa frágil independência? Talvez?A "lusitanização" de que se fala com muita frequência ao norte e ao sul do Minho, foi uma etiquetagem. Os portugueses encontraram no termo "lusitano" o mito genético para construírem uma independência mais segura. Pensariam que mantendo o cordão umbilical galego estariam mais sujeitos a uma intervenção da Grande Espanha (com Castela dominadora), que tinha absorvido a Galiza a norte do Minho, pois poderia induzir-se pretensão anexionista futura.Creio que foi esta a astúcia que permitiu justificar um Portugal, nascido do "nada" e "inventor" de uma língua que "sem origem" (a não ser o latim, apagando quase mil anos de História), e, por isso, Castela não tinha justificação nenhuma para impedir um povo/língua/cultura tão "diferente" do resto da Península, de ser independente. Recordemos, de passagem, que é o Cisma do Ocidente (1378-1417) que impondo a adaptação das estruturas eclesiásticas às estatais da altura, provoca de facto a separação política "final" entre as duas regiões.Mas porque é que hoje, integrados numa Europa que nos garante, valha-nos isso!, a paz e a segurança internacional, não retomamos o caminho da ciência e da verdade históricas e não afirmamos sem peias que Portugal é de matriz cultural essencialmente galega?Porque não se diz claramente que o galego é a nossa língua de partida, aquela de onde brotou a nossa variante, desenvolvida, apurada e internacionalizada, chamada português?Porque se persiste em não explicar desde a instrução primária essa origem comum, insistindo-se em "escavar sinais" de vontade autonómica nos séculos anteriores?As simples manobras de aproximação transfronteiriça, como muito bem assinalou Camilo Nogueira (um dos galeguistas mais esclarecidos na actualidade e que citamos aqui várias vezes), são um processo acomodatício, válido é claro para um relacionamento económico mais forte, mas que não basta para cumprir as nossas obrigações históricas e actuais, e defender o nosso passado e os nossos interesses.

3.
Nascidos antes mas estruturados nos movimentos liberais do século XIX, os Estados-nação já culminaram a sua função destruidora da diversidade política e nacional interna (CN). O conceito de que a um Estado, de fronteiras reconhecidas, corresponde uma nação de per si, com a lógica da jacobina igualdade cidadã e uma imposição de jure de uma língua comum, "aprofundando" assim a necessidade dessa comunidade linguística, "naturalmente " aceite, isto é, imposta por uma centralização, levaram, por exemplo, na França, à quase destruição, pelo menos ao aniquilamento político, da Bretanha, da Alsácia, da Córsega, do País d'Oc, e de outras nacionalidades, mais umas que outras, sobrevivendo ainda uns restos de sentimento nacional "recuperável" na ilha mediterrânica.Em Espanha, pese os esforços de Castela, três nações conseguiram resistir até hoje, mantendo não apenas as suas línguas nacionais, mas também acesa a chama nacional e a vontade de perseguir os desígnios próprios a cada nação, a soberania à cabeça.A ideologia "nacionalista" do Estado-nação (o pior dos "nacionalismos", porque disfarçado de supranacional) projecta sobre as nações internas a acusação de pretenderem a constituição de nações etnicamente uniformes, contrapondo a ideia de povo à de território, que seria a própria de Estados como o espanhol, que teriam assim os atributos da pluralidade, da diversidade e, incluso, da mestiçagem e da democracia (CN).Na Galiza - ou não fosse tão igual a nós - existe uma situação de impasse, motivada, é certo, pela pressão terrorista de um centralismo avassalador, mas sobretudo por um movimento nacionalista preso a um esquerdismo - que é a doença infantil do galeguismo - que recusa abrir-se a outras camadas sociais ou que indistingue luta nacional e luta social, prejudicando gravemente um objectivo próprio, horizontal e acima de qualquer outro (acima, disse bem!), dando a volta, mas cedendo no fundo (e ainda com C. Nogueira) ao marxismo dogmático de Hobsbawn que qualifica os nacionalismos das nações sem Estado, como um fenómeno historicamente transitório, identificável com os interesses das burguesias, à maneira do que, em Portugal, deve ser o pensamento de um Bloco de Esquerda sobre esta questão, ou de outra "esquerda", mais larga e novo-rica que confunde o ser do mundo com a perda empobrecedora da personalidade própria (CN).

4.
Na Galiza, o eixo principal pelo qual a luta nacional tem de passar, e que "beneficiou" neste momento do ataque desenfreado do espanholismo linguístico (que acusou os nacionalismos de querer impedir o bilinguismo, quando o problema é exactamente o inverso) é o da língua.O nacionalismo, presa ainda do conceito maximalista atrás citado e, nalguns sectores, ainda de um isolacionismo (bem burguês (pequeno), aliás) hesita em tomar a peito esta questão, armando-se da coragem dos Pais Nacionais do galeguismo político (primeira metade do Século XX).Se ser nação é assumir a possibilidade de construir um Estado. mais verdade ainda é ser nação é que a língua própria seja indiscutivelmente a língua nacional" (CN). E esta, o galego só a pode cumprir cabalmente, se for aglutinadora e cimento de um povo, se se lhe der a continuidade histórica necessária, aquela que o galego enquanto tal, remetido durante muitos séculos a língua apenas oral e rural, não pôde beneficiar, mas que o galego, enquanto português, se temperou, tornando-se não apenas língua literária de larga produção mas ainda língua pluricontinental, a quinta mais falada no mundo (maternal).

Citamos o mais conhecido galeguista português, até hoje, Rodrigues Lapa:
Certos indivíduos, arvorados em linguistas, ignoram ou fingem ignorar a diferença entre vários tipos de língua: a que falamos no trato quotidiano, propriamente a fala; a que empregamos na escrita; e a que é mais elaborada e usamos na literatura. As duas pontas desta cadeia são obviamente a fala e a língua literária. Não é lícito confundi-las. O processo da língua oral é simples: uma vez lançada a mensagem, o signo é esquecido; mas o enunciado literário não morre por ter servido, "está feito expressamente para renascer das suas cinzas e tornar a ser indefinidamente o que acaba de ser", assim escreveu Paulo Valéry.A recuperação literária do galego padece de um erro fundamental: a transplantação pura e simples da fala corrente para o texto dos livros. Não é assim que se forja uma literatura.

Considerar o galego como parte integrante do sistema linguístico galego-português-brasileiro, com o nome internacional de português, aproximar radicalmente (em sentido próprio) o galego escrito da norma portuguesa-brasileira, enriquecer a nossa língua comum dos milhares de vocábulos e expressões galegas, eis o caminho a percorrer: o que falta.

Bruxelas, 17 de Dezembro de 2009

Joaquim Pinto da Silva (galego do sul, português do norte)

10 comentários:

Anônimo disse...

Apanhado de surpresa por este texto, publicado na "Cidade Surpreendente" de Carlos Romão, confronto-me com alguma dificuldade em entendê-lo. Eventualmente, terá o mesmo sido escrito para especialistas do tema e daí, apesar de o ter lido e relido, com todo o respeito confesso, o considerei "pesado/hermético", pouco claro no(s) seu(s) objectivo(s).
Por isso, e porque fiquei curioso, atrevo-me a solicitar que, se lhe fôr possível, "desmonte/descodifique" este texto, de modo a que, um mais ou menos ignorante como eu na matéria, consiga entender melhor o conteúdo.
Esperando desculpe a minha insuficiência, apresento os meus cumprimentos.

JPdS disse...

Suspeito de si "anónimo. Tenho um lado intuitivo, que acerta muitas vezes, que me diz que o conheço bem, mas isso não importa, estarei disposto a esclarecê-lo se me puser questões concretas.

Anônimo disse...

Exmo. Senhor,

Perante a S/ resposta, que agradeço, já me arrependi de lhe ter endereçado o meu sincero comentário. Lamento a S/ desconfiança, que lá terá a sua origem, para mim completamente desconhecida.
Simpatizo com a Galiza e vou lá sempre que posso.
Nenhum obscura ideia me moveu ao comentar o S/ escrito. Mais
informo V.Exa. que desconhecia completamente a S/ existência e do S/ blogue, onde fui ter pela "Cidade Surpreendente" que visito diariamente.
Pelo exposto, peço desculpa pelo incómodo e agradeço que não perca mais tempo com o assunto.
Respeitosamente

Carlos H. F. Teixeira

JPdS disse...

Caro Senhor Carlos Teixeira,
Tem razão no que diz e peço-lhe desculpa por não ter sido mais claro na minha resposta anterior. É que, como tenho um amigo que, minutos antes, pelo telefone me colocou as mesmas dúvidas mais ou menos, julguei que fosse ele o autor da questão "para me encravar".
Tinha-lhe exactamente dito "diz-me o que não percebes para que eu aborde de outra forma".
Espero que aceite esta explicação, mas é a verdade.
E como na escrita em correio electrónico e em posts somos sempre muito rápidos e não se consegue "enviar" os sorrisos e os gestos que "acompanham" os textos... dão-se coisas assim.
Perdoe-me, até porque tinha, mesmo assim, iniciado uma explicitação da minha intevenção noutros termos, o que penso terminar hoje.
Creia-me sincero e aceite rapidamente as minhas desculpas porque estou um pouco desolado com isto.
Cumprimentos.
Joaquim Pinto da Silva

Anônimo disse...

Caro Senhor,

Mais não me resta que, perante a explicação e as desculpas apresentadas, aceitar as mesmas, compreendendo que todos nós, humanos que somos, estamos sujeitoa a cometer um deslize. Por isso, por favor, esqueça o sucedido, que eu já esqueci.

Fico aguardar a clarificação que referiu,, que antecipadamente agradeço e, entretanto, aceite os meus respeitosos cumprimentos.

Carlos Teixeira

JPdS disse...

O texto prometido vai afinal demorar mais algum tempo, por razões profissionais e dos meus compromissos culturais desde ontem até amanhã. Espero pder terminá-lo neste fim de semana.
Abraço

douro disse...

Ora ainda bem que o GILREU volta a mexer e, ao que parece, volta com força e garra. Queremos mais!

barcoantigo disse...

Carissimo, vindo da cidade surpreendente gostava da sua permissão e poder publicar este texto no meu blog, pois e tb defendo a lingua galega como lusa/galaica, e o texto é muitissimo interesante.
abraço.

fangueiro.antonio disse...

Boa noite.

Pois através do blog Barcos do Norte, que costumo visitar, deparei com o seu texto transcrito, o qual me agradou muito e venho agora à descoberta do seu blog.
A maneira como completa a assinatura, com "galego do sul, português do norte" é exactamente o meu (e certamente o de muitos) sentimento. Sendo natural de famílias dedicadas à pesca desde sempre, da Póvoa de Varzim / Caxinas, desde cedo me apercebi da particularidade da nossa maneira de falar, mal entrei na escola, em contacto com alunos de "fora" da pesca. E em todos os anos de escola o facto de ser "caxineiro" era bem evidenciado de modo depreciativo por colegas de escola.
Tendo quase 35 anos, sou a 1.ª geração não ligada à pesca profissionalmente, mas considero que falo "dois portugueses", um quando me encontro em família ou gente ligada à pesca e o outro na vida restante. O meu maior gosto é falar o da minha comunidade, e o pensamento de que a Norte do Minho, toda aquela gente fala tão semelhante, sempre me fez sentir que afinal a fronteira está apenas nos mapas e o nosso passado é comum.
Não me querendo alongar muito, concordo plenamente que padecemos do centralismo, que cada vez mais se fortalece, caso continuemos passivos nos muitos aspectos que refere nos seus artigos.

Continuarei por certo a visitar este blog.

Atentamente,
www.caxinas-a-freguesia.blogs.sapo.pt

Professor Feijó disse...

Está perfeita a colocação de Joaquim Pinto da Silva, em sua longa e bem fundamentada introdução lingüístico-histórico-política, pois também, a nosso ver, as particularidades linguísticas diferenciadoras, porventura existentes no galego-português, não afetariam a sua unidade essencial, tanto é que isso já fora reconhecido pelos gramáticos do século XVI, como Duarte Nunes de Leão, em Origem da língua portuguesa, no capítulo Origem e ortografia da língua portuguesa, Lisboa, 1864. Por outro lado, Clarinda de Azevedo Maia, em sua História do Galego-Português (Coimbra, INIC, 1986), estudando o antigo galego-português, na região portuguesa de Entre-Douro-e-Minho, baseada nos estudos da linguagem das poesias dos cancioneiros trovadorescos, já nos apontava que o conhecimento que se tem sobre a língua falada, durante aquele período é insuficiente e talvez pouco real para se estabelecer as variações regionais, como por exemplo, nas duas margens do Minho até o Cantábrico e desse ao Douro. Está corretíssima, também, a citação de Rodrigues Lapa, ao término desse artigo de Joaquim Pinto da Silva, mostrando que “a recuperação literária do galego padece de um erro fundamental: a transplantação pura e simples da fala corrente para o texto dos livros. Não é assim que se forja uma literatura”. Recuperar, portanto, a literariedade galega das escrituras, de qualquer época, requer amplo e total conhecimento das mais intrincadas formas de cultura do povo de todas regiões envolvidas, somando-se a tudo isso as sincronias inovadoras das normas em vigor dos três sistemas lingüísticos que se encontraram: o galego, o português e o brasileiro.
(Luiz Cesar Saraiva Feijó, brasileiro do sul; galego-português dos feijoos da fronteira)