Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

8 de maio de 2009

Apresentaço de À Espera de Godinho

de
Amadeu Lopes Sabino, Jorge de Oliveira e Sousa,
José Morais e Manuel Paiva


Senhor Embaixador de Portugal, Vasco Bramão Ramos;
Caros autores,
Minha Senhoras e meus Senhores,

1
Tarefa ciclópica esta, a de apresentar um livro de 4 portugueses globais. Ciclópica para, desde já, situar o tempo, ciclópica para, desde já também, com o desafio, avançar a escusa por incapacidades próprias.

Dá-me jeito o conceito, mas acreditem que o partilho a sério - nesta casa onde já passaram das centenas actos destes -, de que apresentar um livro é acima de tudo dotar o leitor com a vontade de o ler, oferecendo-lhe, de caminho, pistas, elementos capazes de o colocar em melhor posição para uma compreensão quiçá mais funda, e, sobretudo, para uma barthiana fruição do texto, afinal objectivo supremo de todo o acto cultural.

Não esperem então a exaustão das possibilidades legíveis, e não desejo também a exaustão da vossa paciência.

2
Um diálogo embrulha esta obra de uma maneira engenhosa. Aquilo que seriam relatos de adolescências atormentadas e rebeldes, sequiossas de justiça e de participação cívica, com a superação e triunfo pelo trabalho e empenho profissional, mas também social, dos 4 homens maduros, é-nos dado numa forma de diálogos quase sempre vivos e oportunos, num cenário rico de gastronomias e copos bem conhecidos de todos nós (tão portugueses que eles são!).

Da política, da literatura, da física, da psicologia, do ensino e de tantas outras matérias, tratam estas conversas. Doravante, perceber o movimento celular browniano ficará senão mais fácil pelo menos mais atraente, assim como as reticências reaccionárias à evolução das ciências, nomeadamente da astronomia. Mais elementos são fornecidos para compreender melhor a história do país e da ditadura nas suas últimas décadas, nomeadamente a vida do Partido Comunista e das outras oposições, de Mário Soares e os seus périplos em busca da organização democrática necessária. O maoísmo de Mao e o dos maostas europeus. O papel da língua e da sua aprendizagem, os hemisférios cerebrais e as sua funcionalidades. A semiologia da política ou a política semiótica, ou como os golpes de rins daqueles se racionalizam, se tornam objecto de reflexão.

Mais do que ciclópica a tarefa de enumerar temas, factos e interpretações é impossível. São centenas os nomes referidos, as citações eruditas, os episódios mais sérios e os caricatos. Uma curta, curtíssima, selecção de referências e comunhões impõe-se, ainda na mira de vos atrair, sabendo já que todos os 4 têm obrigatoriamente de nos dizer algo sobre o livro e alguns dos seus episódios de fabricação, tentanto sempre fugir ao biografismo, que não é para aqui chamado.

A clandestinade do José Morais, 5 anos da sua militância de 8 anos no Partido Comunista. Fernando Rosas, Francisco Martins Rodrigues, Rogério Carvalho, Jaime Serra, Cândida Ventura, Isabel do Carmos, que ainda o tentou de novo a readerir, já em Bruxelas. A ida à URSS. Expulso em 1968.
António Gervásio, o loirinho, que escrevera: “no decurso do último plano quinquenal a felicidade do povo soviético tinha duplicado” (O Camponês).
Nuno Álvares Pereira o traidor que se passou para o outro lado, denunciando tudo e todos.
O crescendo de um radicalismo, embora o “trotil não expluda com vibrações”.

Também para o Manuel Paiva, a campanha de Humberto Delgado, em 1958 lhe "abriu os olhos". Definitavemente anti-fascista e anti-clerical.Curioso é sabermos que o seu Pai pensava que tinha aulas todo o dia no liceu, mas que afinal, junto ao Carlos Alberto, no Porto, ele passava tardes a jogar bilhar,. Talvez viesse daí a atracção pelas carambolas moleculares do movimento browniano, tão interessantemente descritas aqui. O fracasso do assalto ao Quartel de Beja, em finais de 1961, decidiu-o definitivamente a partir. Umas explicações para amealhar trocos e a conjugação de várias instiutições involuntariamente facilitaram-lhe a instalação na Bélgica.
Soubemos também que preferiu os bailaricos na Galiza à presença do Adriano Moreira nos Açores, em 1998, quando convidado pelo Ministro da Ciência para um colóquio, creio que na primeiraa visita oficial ao Portugal democrático.

Com outros dos autores , Jorge Olvieira e Sousa, colaborou no famoso Suplemento Juvenil do Diário de Lisboa. E com outros ainda frequentou o Liceu Camões, onde o director proibiu a leitura da encíclica Pacem in Terris.
Escreveu uns poemas, que viria a editar mais tarde (aliás apresentados aqui) e onde figuram algupmasacrats de Virgílio Ferreira, seu professor naquele liceu com quem manteve amizade admirativa. Durante a Europália de 1991, recebeu-o em sua casa.

Terminou há pouco, como todos os outros, uma carreira de director do departamento jurídico do Conselho da União Europeia (Conselho Europeu para o impreciso Godinho). Ainda Delgado foi uma espécie de estocada moral que lhe deu, pois aos 15 anos criou uma célula clandestina em seu apoio.
Também passou pelo PC e radicalizou depois a militância, tendo passado pelo MRPP e a UDP (esta depois de Abril). Dirigiu a importante revista o Tempo e o Modo. Muito interessante o ponto de vista sobre o maoísmo na sua componente europeia.

No work in progress (que todos nós somos), apercebemo-nos duma caminhada a 4 para um europeísmo convicto, matizado aqui e ali por pareceres diversos, no social, na imigração, no seu papel no mundo, na relação das entidades nacionais com um veio comum civilizacional, mas, indesmentivelmente, uma fidelidade a um Portugal que se manterá europeu, ou não sobreviverá.

A política neste livro está no patamar que lhe compete: importante, argumentativa fundada, bem separadas, as convicções e os sentimentos, réplicas fortes, harmonia de métodos. Muito interessante a dsicussão sobre a Europa, os blocos e o seu futuro, a Humanidade.

Ressalta, no entanto, talvez não como fio condutor, mas antes como papel de cenário omnipresente, a questão da identidade – a recusada e a procurada. A personagem do Godinho (um alter ego a negativo), afinal aparecida em rápidos encontros com José Morais, é uma espécie de pano de fundo, melhor, é quase sempre o Portugal que se abandonou e que por persistir tal e qual, se recusa: o do arrivismo, do amiguismo e das influências, do espertismo como método e do poder como objectivo.
Uma sociedade, como diz Pessoa, citado no texto, que segue mecanicamente a civilização sem nela interferir, provinciana portanto (quão longe vão as Descobertas!), que confunde maledicência com crítica sustentada e responsável: tal é um ponto comum sublinhado pelos autores e que está na génese da sua expatriação, e não apenas, como se poderia de forma ligeira deduzir, a guerra colonial e a ditadura de per si.
Do António da Cunha Godinho (e nada no nome é inocente), o pobre Godinho, que é preso na Bélgica, por rolar a mais de 200 km à hora, e ter carro matriculado em Angola, não se espera “uma súplica vaga”, como Estramegon. Sem direito a defesa, por estes 4 oficiais do iluminado ofício da intelectualidade crítica, Godinho, displicente e irresponsável activista anti-ditadura, empresário de sucesso no import-export, consultor do governo checo em alta tecnologia, receptor de livros que não devolve, faltoso a encontros comprometidos, candidato a assistente, com cunha, na ULB, etc. etc., em suma, um saltimbanco moderno, culmina os seus “exploits” pela revolucionária proposta de medronhar por completo o Algarve: de Castro Marim a contracosta uma floresta de medronhos, capaz de dar o fruto milagroso cuja transformação em alcoól iria o transformar o país, revolucionar o mundo e encher os seus bolsos de “medronheuros”.
Símile, não tão caricato como isso, como sabemos, Godinho é um título sem conteúdo. Foi preciso 8 mãos para o desenhar e o corporizar.

3
Este livro é em grande parte um livro catarse.
Nestas autobiografias partilhadas, densas de episódios e saberes, onde perpassa a história da segunda metade do século XX português, como salientou o prof. Nuno Crato, dizíamos nós, neste livro há uma evidente procura de, pela recordação, esse terrivelmente impreciso, algumas vezes até, falso, exercício da memória, se chegar a uma libertação da consciência de ónus antigos, de dúvidas próprias acerca do acontecido, de um auto-assegurar – necessário sempre a todos nós – de que foi assim e não de outra maneira que as coisas se passaram.

Outra asserção que se retira, muito jorgeseniana (passe o neologismo), é a de que estes portugueses de origem, cedo recusaram geograficamente o país onde nasceram e a quem nestas páginas dizem, numa altiva afirmação de triunfo individual – e mal vão as élites que a par de outras não têm esta qualidade : passamos para além de ti, emancipamo-nos da tua mesquinhez quotidiana, da invejazinha serôdia, da mediocridade estabelecida, triunfamos!
Mas, paradoxo insanável, fruto de uma língua de berço, que traz em si, por certo, um código de comunicação, mas muito mais que isso, um ser e um estar indeléveis – porque se recusa um passaporte, mas nunca um linguajar – paradoxo esse então, é que por apelo inominado, seguramente visceral, exigem a esse portugalzinho paroquiano, triste e enfadonho - o que deixaram e, infelizmente o que perdura - , que os ouçam, que lhes reconheça o direito de opinar e os tenham em conta.
Se, em Lisboa (na apresentação do presente) , o Prof. Vilaverde Cabral chamou aos autores militants du desengagement, ou algo parecido, a mim, compreendendo-lhe as razões, falta-lhe a razão.
Estes 4 intelectuais, extrangeirados, porventura de nascença, são 4 lídimos portugueses sedentos de participação, de contribuir, ainda que pela via dum certo distanciamento moral e de um desenraizamento físico, a uma regeneração concreta de um espaço de origem que é o de todos nós.
Este livro prova-o, Portugal necessita-o.

Muito obrigado.

Orfeu, Bruxelas, 8 de Maio de 2009
Joaquim Pinto da Silva

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