Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

5 de dezembro de 2008

Fernando Pessoa, num Ápice

(texto não lido nem publicado, 29.9.2008)


Eu fui o sou, sou o outrora agora
Começo neste momento a tê-lo sido antes
No futuro continuarei a ser outrora


Aqui e assim se poderia colocar toda a problemática da obra pessoana. Nestes dois eixos, o do tempo e do ser, nesta indefinição ou talvez absorção, entre a passagem dos minutos e dos anos e as diversas máscaras que vai usando, se centra o essencial do pensar poético do poeta da Mensagem.

Não sei quem sou, nem que alma tenho
Sinto crenças que não tenho
Sinto-me viver vidas alheias. Não eus sintetizados no meu eu
Sou plural como o universo

Esses diversos sentires leva-o a criar diversas personalidades autónomas de si mesmo, com vida própria, data de nascimento, profissão e outros detalhes, daí serem os heterónimos e não simples pseudónimos, pelos quais vai repartir uma obra que é hoje considerada das maiores da literatura portuguesa e universal.

Pessoa participou nos principais movimentos culturais e literários da primeira metade do século XX português: a revista Águia e o movimento Renascença Portuguesa, a revista Orfeu e uma outra revista a Presença.

Segundo José Augusto Seabra, as suas influências literárias principais foram a do simbolismo francês, a do panteísmo saudosista inglês e de uma mistura de futurismo e cubismo, de Itália e de França. Junte-se a isto a formação escolar inglesa, pois passou parte da sua juventude em Durban na África do Sul. Essa formação e ascendência cultural moderna permitiu-lhe dentro da sua pátria, que era a língua portuguesa (como declarou), criar toda uma literatura que continua a nos provocar admiração.

O provincianismo vive da inconsciência.
O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela, em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.


Absolutamente actual, esta poética de intervenção faz-nos dizer que ler Pessoa é importante e pensar Pessoa o é mais ainda. A utilidade estética e programática de Pessoa, o seu drama poético e doutrinário, permanecem actuais e absolutamente intervenientes na sociedade portuguesa e europeia de hoje.
Pela sua qualidade intrínseca e por esse seu portuguesismo europeísta, Fernando Pessoa é traduzido em dezenas de línguas e acolhido como símbolo em muito lado. É o caso de Bruxelas, onde um monumento inaugurado se encontra, desde 1989, a praça que recebeu o seu nome ainda este ano.

Fernando António Nogueira Pessoa, nasce, a 13 de Junho de 1888, no Largo de S. Carlos, em Lisboa, e morre em, 1935, em Lisboa também.
É também em homenagem a essa Lisboa pessoana e de todos nós, que nos encontramos hoje aqui, na Orfeu, em Bruxelas, lendo e ouvindo esse poeta de que todos nos orgulhamos.

Bruxelas, 29 de Setembro de 2008
Joaquim Pinto da Silva
Director da Orfeu

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