Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

3 de outubro de 2008

NOTÁVEIS, AUTARCAS AMBICIOSOS E ADVOGADOS DO DIABO

No jornal Público, de 2 de Fevereiro passado, António Barreto veio a terreiro combater as megalómanas ideias para a barra do Douro. A 4 do mesmo mês, é o Diário de Notícias que, pela pena de Vasco Graça Moura, ataca este monstruoso projecto. No mesmo dia, Público publica um artigo sob o título «Notáveis contra os Molhes do Douro».
É verdade que por detrás daquele planeado molhe de 600 metros de comprimento e 27 de largura, talvez se encubra, como aconteceu no Parque da Cidade, alguns projectos imobiliários que dariam a ganhar muito dinheiro a certos empreiteiros e... à Câmara e/ou APDL. Ou talvez sejam só alguns tecnocratas a querer deixar obra vistosa!
De qualquer forma, é bom que se tenha presente, como sempre o defendemos, que a qualidade de vida das pessoas passa também, e muito, pelo meio, a paisagem, em que vive e se encontram todos os dias. Pretender substituir uma vista de mar e de rio das mais bonitas que o país tem, por um muro de altura igual a um prédio de três andares, só é possível num país desequilibrado como o nosso.
Para que conste, publicamos neste número os artigos de António Barreto, de Vasco Graça Moura e dos «notáveis» que quebram o usual mas criminoso silêncio dos maiores diários nacionais acerca de certos «autarcas ambiciosos» e outros.
Desde sempre que, através de edições e do nosso jornal, o nosso grupo cultural tem denunciado o ataque feroz e destruidor de certos empreiteiros, protegidos pelos poderes locais, ao património único da Foz e Nevogilde.
É tempo de os grandes diários não apenas ouvirem os notáveis como também os «simples» dos quais fazemos parte. Não podemos também deixar de chamar à responsabilidade o anterior Executivo da Junta da Foz do Douro pelo silêncio que manteve sobre o assunto e pela incapacidade (ou será só incompetência) de reacção manifestada.
Quanto à opinião, que também juntamos, do advogado Coelho dos Santos, pretensamente anti-elitista, ela esquece que não apenas estes molhes, como quaisquer outros, nunca resolverão o problema da perigosidade do rio (a solução seria acabar com o rio o que, felizmente, não é possível) como também que não são os «notáveis» os únicos a perder com aquelas avantesmas, mas sim os milhares e milhares de fozeiros, tripeiros e outros visitantes que ano após ano visitam esta nossa terra e que afinal lhe deram a merecida fama de que goza.
Coelho dos Santos, que, ao que sabemos, nunca se preocupou até hoje com a sorte dos pescadores da Afurada, usa demagogicamente essa figura (que de isso se trata, e não de argumento sério) para, ao serviço de sabe Deus quem?, proteger mais um crime irreversível de lesa-património. Será que Coelho dos Santos defende a destruição da Ribeira em nome da saúde física e moral das gentes que lá habitam?
Com os «notáveis» ou sem eles, os molhes em questão não têm sentido. Ao pretender defender a sua construção em nome da navegabilidade do rio, que fomentaria o turismo, destrói-se exactamente uma das principais atracções para o turista: a beleza de um lugar.
Depois dos atentados que o Passeio Alegre sofreu, da construção da Rua Coronel Raul Peres (Estrada Nova), da edificação dos prédios junto ao Largo da Feira e na Rua do Paraíso, da demolição da casa «Sousa Guedes», da destruição das quintas ao cimo da Rua Padre Luís Cabral, e tantos outros atentados que quotidianamente se passam nesta Foz, é tempo de barrarmos caminho aos interesses económicos mesquinhos que esmagam o passado, as pessoas e o futuro.
A Foz do Douro e Nevogilde, a sua orla marítima e a barra do Douro e o que resta da sua ruralidade são seguramente o património construído e paisagístico mais importante da cidade do Porto, a seguir ao Centro Histórico. A Câmara, a APDL e todos nós temos que ter disso consciência... e agir em conformidade.

FEVEREIRO’98 — Nº36

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