Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

3 de outubro de 2008

IRENE VILAR, UM ABRAÇO A MACAU

No passado dia 10 de Junho, Dia de Portugal, inaugurou-se em Macau uma escultura pública da autoria de Irene Vilar.
A obra «Abraço» ficou no Jardim Luís de Camões, onde se encontra a gruta cuja lenda diz ter o Poeta por ali passado. Frente à entrada do jardim, centrado com a álea que o liga às escadarias, o monumento assenta num espelho de água e pretende simbolizar a tolerância convivial que marcou o essencial da nossa presença nos mares da China. A escolha de Irene Vilar não surpreendeu. Já nos habituámos a ver as suas obras reconhecidas e implantadas em locais públicos, sobretudo da Holanda ao Brasil, da África do Sul à Bélgica.
O privilégio de sermos, desde há muitos anos, conterrâneos dessa Artista e, logo, duplamente orgulhosos dos seus êxitos, impele-nos a propor, desde já, a organização de uma homenagem da Foz à sua artista e cidadã.
O legar de obras de arte públicas àquele Território faz parte de um conjunto de realizações do Governo de Macau, que pretende assegurar com visibilidade a nossa presença de cinco séculos. Nos últimos anos, alguns dos principais nomes das artes nacionais têm sido convidados para testemunharem em bronze, em cimento, em pedra, em pintura ou por outros meios, esta passagem histórica e plena de grandeza da soberania para a República Popular da China.
Em 1999, nesse momento, Portugal — com pena, mas com orgulho! — retirará a sua bandeira, é certo, mas poderá olhar, sem vergonha, a página da História que acaba de virar.

Julho/1996 — N.º17

A inauguração de uma escultura de Irene Vilar no Jardim Luís de Camões marcou a tradicional romagem à gruta do Poeta em Macau, a cerimónia mais simbólica das comemorações locais do Dia de Portugal.
Intitulada «Abraço», a escultura foi descerrada pelo Governador Rocha Vieira e pelo ministro-adjunto.
Colocada no centro do jardim, sobre um «calmo espaço de água», a peça escultórica de Irene Vilar procura, segundo a autora, constituir um «marco simbólico da longa fraternidade de tolerância étnica e religiosa e de um natural entendimento entre portugueses e chineses».
A escultura foi encomendada pelo Governo local no âmbito de um despacho de Rocha Vieira de Setembro de 1992, que prevê que o Território fique dotado anualmente de uma obra de arte do autor português concebida expressamente para simbolizar «a vivência singular e a identidade própria de Macau enquanto encontro de culturas».
Ao abrigo do mesmo despacho, o artista portuense Zulmiro de Carvalho concebeu uma escultura em aço, a que chamou «O Arco do Oriente».
Antes da inauguração do monumento, Rocha Vieira e Jorge Coelho presidiram à tradicional romagem à gruta de Camões, que contou com a participação de cerca de dois mil alunos de mais de 80 escolas de Macau.

In Tribuna de Macau, 14 de Junho de 1996

«Delegas na comunidade dos poetas o eu distributivo. A tua escultura nunca deixas de rimá-la com poemas adequados. Pelos volumes gravas a necessária e reflexa companhia. Traziam a promessa de voltar/ a ver se a cor do sonho se mantinha... tenho tempo, não tenho idade e et coetara nas conivências de toda a paz e todo o dano. Que continuas na superfície dos desenhos (durante anos fechaste-os nas gavetas). Por trás daquela janela, Eu não sou de ninguém. Minhas sensações são um barco de quilha prò ar e et coetara por essas planícies mensuráveis de esquadria onde rompes grades e passeias, coloco-me dentro do quadrado de papel, dentro de perspectivas cm diferentes eixos. Depois desenho pormenores secretamente...
Pelos volumes, pelas superfícies, mas também pelas paredes do teu lugar de trabalho onde penduras os espelhos, o coral selecto das vibrações quando és tu-só-somada-tantos. Os filtros hipnóticos da intimidade da maldição do sonho e da vontade são uma ária de fluidez, vertical, sede que não matas e te mata, os cúmplices do excessivo mundo que em dourando o sol ao largo da tua aldeia trazem a sedução diluída de comovida segurança, e, em amanhecendo, a luz precisa para as decisões graves dos retratos.»

Maria da Glória Padrão, in «Irene Vilar — quem me dirá quem sou?», Edições Asa, Porto, 1991

UM «ABRAÇO» A MACAU
Ainda a propósito da escultura de Irene Vilar inaugurada em Macau, corrigimos dois lapsos cometidos na nossa edição anterior: o governador daquele Território é o general Rocha Vieira e Sales Marques é o presidente do Leal Senado. O seu a seu dono...

Nenhum comentário: