Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

2 de outubro de 2008

Um percurso universal, Irene Vilar

(Intervenção na Biblioteca Florbela Espanca, Câmara Municipal de Matosinhos, em 21 de Abril de 2007, na sessão do lançamento do livro: Do Som do Bronze ao Rumor da Água - Irene Vilar, de A. Cunha e Silva e Joaquim Pinto da Silva, com tradução para francês de Marie Claire Vromans, edição Orfeu, Bruxelas)
Palavras precisas a abrir: À Câmara de Matosinhos, ao seu Vereador, Fernando Rocha, a gratidão pela colaboração na edição e na organização desta sessão. Ao António Cunha e Silva, pedra basilar nesta "construção", ora "inaugurada", um abraço cúmplice. Uma saudação sentida à Maria Irene Vilar, amiga firme e artista de eleição, para quem este livro é homenagem mínima e insuficiente.
A verdadeira criação é para o hoje e deixa aos profetas a adivinhação do porvir. O que urge – no sábio recado de Agustina Bessa-Luís – é o que prevalece e não pode ser adiado. O futuro é congeminação de interesses que não importam ao artista em acção.
Quando Maria Irene Vilar amassa as argilas dando-lhes forma, numa fusão de ética e estética, nunca estas foram trocadas pelo conceito, por uma programática de sucesso ou de ostentação, enfim, por preconceitos. Aos outros a tarefa de encontrar as explicações, os fundamentos, a decifração elaborada da sua poética.
O artista – e está claro para ela! – não é também o salvador do mundo, a solução milagrosa dos problemas do homem, aqueles que o homem criou e que o homem terá de resolver.
Assumindo firmemente o seu lugar, fora das contingências e da doutrinas, Maria Irene, sabe, é manifesto, que a sua arte é um reflexo de si e das sua relação com o mundo, é um modo de vida que pratica de corpo e alma, dando-se, exigindo-se. Quando muito, a sua obra é a sua revolta, sincera, porque independente e bastando-se, e o seu refúgio, porque nessa resistência encontra a sua satisfação, a aproximação à plenitude.
Na Arte não há propriamente uma evolução, no sentido de uma melhoria. O que agora se produz não é superior ao que se produziu há 100 ou 1.000 anos. Variam as formas, os meios, as percepções e os interesses, mas ninguém se atreverá a dizer que o Papa Inocêncio X, de Francis Bacon, tem mais qualidade artística que os Apóstolos do Pórtico da Glória, em Santiago. Irene Vilar – disto sabedora – agarrou o seu tempo perfeitamente, sem ceder um pouco que seja à exibição fácil e facilmente mediatizável dos espúrios vanguardismos.
Frágil, como o comum dos homens – porventura mais ainda –, rasa a terra com a naturalidade própria da andorinha, afastando-se dos escolhos – dos leixões –, com o génio e a mestria dos eleitos. Do alto, espontânea e denodada – qual águia –, observa as debilidades do mundo e a sua vanglória, ciente delas sem vergar, opondo-se-lhes pela postura, pela renúncia.
Dessa longa viagem, de Matosinhos à Foz do Douro (com apeadeiros em Macau, Durban, S. Paulo, Bruxelas e tantos outros) sobra um repto coerente que é uma herança de todos nós e demonstração de um percurso universal.

Joaquim Pinto da Silva
Matosinhos, 21 de Abril de 2007

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