Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

1 de outubro de 2008

Peregrinaçam, Fernão Mendes Pinto

Exposição de esculturas de Maria Leal da Costa
Abriu a 19 de Abril de 2008, em Matosinhos

Porque temo que os que quiserem medir o muito que há pelas terras
que eles não viram, com o pouco que vêem nas terras
em que se criaram, queiram pôr em dúvida, ou porventura
negar de todo o crédito àquelas coisas que se não conformam
com o seu entendimento e com a sua pouca experiência.
Fernão Mendes Pinto

Depois de abordar, a convite da Fundação Luso Espanhola, o tema das relações ibéricas, em exposição inaugurada em Sevilha, na primeira quinzena da Novembro de 2007, no Consulado de Portugal, e que seguiu para Bruxelas, no Edifício Madou da Comissão Europeia (segunda quinzena), Maria Leal da Costa dá corpo a um tema que a ocupa há mais de 2 anos, a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. Tal será em Matosinhos, a convite da Câmara, em programa paralelo ao Encontro de Literatura de Viagem, sob o título: Peregrinaçam, em que se dá conta de muitas e muito estranhas esculturas que criei ou recriei.
A nível formal, esta mostra acentua a viragem na produção da escultora, iniciada com aquelas duas citadas exposições, em direcção a uma ousadia expressiva que a coloca, sem dúvida, no que de melhor se produz a nível nacional.
Certo é que Maria resiste às tendências, obsessivas em muitos, das "confluências de linguagens", sobretudo à fácil utilização da imagem móvel. Tem recusado, não como princípio mas como método seu na actualidade, a inclusão de novas tecnologias da imagem, de modo a não sobrecarregar o amador, amarrando-o apaticamente em salas, frente a televisores, e adoptando materiais básicos próprios à sua formação, região e objectivos a que nesta fase se propõe: mármores, ferros e pouco mais.

"Na sua Serra de S. Mamede, em Marvão, fora do bulício urbano, a escultora elaborou uma série de trabalhos, alguns espectaculares pela dimensão e aparência, onde faz uma "tradução da Peregrinaçam. E dizemos tradução porque os seus trabalhos não só implicam uma interpretação, como também uma reformulação em linguagem outra da saga-sátira do homem nascido em Montemor-o-Velho".
A assombrosa retentiva, noção atribuída precedentemente por Teófilo Braga a Mendes Pinto referente à sua fabulosa memória, também a teve Leal da Costa, conseguindo nos seus trabalhos uma apreciação lata, viva e insinuante da obra-tema.
"Leal da Costa não procurou propriamente “explicar” a Peregrinaçam em esculturas, mas antes comentar, reescrever, uma obra inesgotável de perspectivas e de impressões, numa evocação de passos, de momentos. Construiu, assim, uma coerência narrativa de pedra e ferro capaz de, em espaço e volumes, nos atrair de imediato, abstraindo o referente – afinal o importante, aqui e agora, é o exibido -, mas também, concomitantemente, de nos impelir à leitura e releitura da obra-mestra de há 400 anos.
Maria executou estas esculturas apoiada numa firme recusa do banal", fugindo ao simplismo "em respeito criterioso de dois valores patentes: a diferença, que não a originalidade a todo o preço, e a responsabilidade (em si mesma) pela obra feita. Tudo blindado à exibição mundana e ao complexo vanguardista".
A obra Maria, mentes? Minto, que consiste num velho e morto castanheiro, oco e grandioso, deitado em cima de uma armação de ferro, ao qual está acorrentado, é genial de evocação da temática da obra nas suas diversas lições. Esse madeiro que serviu ao fabrico de caravelas e naus, que é aparatoso e grandeza por fora, mas podre e oco por dentro, que navega por cima dos andaimes do Império, a seco, que é natureza e liberdade, mas agrilhoado às teias da mesquinhez da nação é uma obra espectacular e diremos mesmo de fundo místico, pela consciência natural que porta, pela humanidade que se ressente, pelas mensagens quase ocultas que transporta.
"É um gesto pensado e maduro, um monumento à contenção exterior do sempre limitado saber face ao sempre inconfinado ignoto, mas paralelamente um produto de imaginação fecunda, aquela que prevale e precede a ciência.
Esta peça, a merecer espaço público ajustado, sagra em natureza e humanidade uma ímpar obra da cultura portuguesa para a qual remete, sem por isso prescindir da sua autónoma afirmação contemporânea. Côncava Funda da Casa do Fumo, enigma useiro em Mendes Pinto (Lúcifer, por vezes explicitado), poderia também chamar-se. Afinal ignorância e intolerância, a par com a ousadia e a intrepidez são a nossa podridão frondosa, a nossa grandeza oca."
"A facilidade de viagem, a sua democratização, e o império universal da comunicação, nas suas versões mais privadas ou mais públicas, colocaram o “mundo na aldeia” e não o inverso, como muitas vezes se pensa. Nas artes plásticas a mudança é então profunda: ninguém espera, ansioso, que um artista chegado de Nova Iorque, Berlim e muito menos de Paris lhes traga a novidade, o espavento último, que surpreendeu, que viu, que presenciou. Maria, atenta e viajada, sabia antes e agora mais ainda, que o cosmopolitismo, como valor acrescentado a uma cultura, como adjunção de perspectivas e novas maneiras, era importante mas não essencial. Fincou-pé na terra, de onde lhe arrancou os materiais, e produziu estas peças que, sendo dele, transpõem o seu tempo. Está ciente que a novidade pode ou deve procurar ultrapassar a sua época, colocar-se além, mas humilde e implicitamente reconhece a sua pertença de raiz ao que corre, ao que partilha com o mundo, e que só assim a sua obra não morrerá à nascença.
Este texto, apoiado em partes retiradas do catálogo a sair, pretende chamar a atenção para esta exposição e para a carreira desta escultora, longe ainda do reconhecimento que merece, talvez pela independência que revela e pela carreira paulatina, segura e sólida que patenteia, tão fora das explosões efémeras e das pompas das cortes artísticas dominantes.

Joaquim Pinto da Silva

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