Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

10 de novembro de 2004

Os Espaços do Desejo de Luisa Coelho

Apresentação do livro Espaços do Desejo, de Luísa Coelho, na Confeitaria Távi , na Foz, em Novembro de 2004.



Artigo publicado no Matosinhos Hoje de 21.11.2004



Serão poucas as palavras que terei par vos dizer sobre este livro de Luísa Coelho. Não o vou "explicar" - porque qualquer obra é essencialmente inexplicável, nem "interpretar ao pormenor", porque na sua versatilidade, na sua extravagância, roçando mesmo um magicismo (fértil nas terras por onde agora se expande), as possibilidades de apreensão são tais que ridículo me pareceria sugerir caminhos onde há vales e planícies capazes de acolher todos os traçados.
Trata-se apenas de uma tentativa de encontrar uma organização, uma correlação dos elementos que se nos deparam, sobretudo sem atender a uma intenção da autora.
Luísa vê-se forçada a redefinir o óbvio, o de natureza, "estórias fictícias de atracção e repulsa". Ora, sabemos nós que se trata de contos, trata-se de literatura, isto é, a invenção acima de tudo, a imaginação posta em letra, evidentemente com referenciais à realidade, com credibilidade para o leitor, pelo menos alguma, aquilo que em análise literária se chama a verosimilhança.
E mesmo que pretendesse referir-me ao real, àquilo que eventualmente, em palavras vulgares, "se teria passado" - o que nalgumas situações sinceramente lhe desejo - a arte de contar não passa disso mesmo, uma efabulação do real, uma evocação do passado, um tempo que, parafraseando Mário de Sá Carneiro, cai sobre nós feito ontem, a total subjectividade, longe portanto desse passado, intangível e irrepetível.
Três características me ressaltam da leitura desta obra. No imediato contraditórias, por certo, mas entremeadas, cruzadas, indissociáveis em última análise, mas distinguíveis: a contenção, a libertinagem (obviamente sem nenhum sentido moralista) e o cenário (os tais espaços), participante e instrumental.

Da contenção


Em estilo sincopado, de frases curtas, por vezes uma palavra só, inicia a sua recolha de 6 contos com "O Buraco da Fechadura", o que é indiciador.
Ora, o buraco da fechadura é, para além da sua função prática, símbolo simultâneo da observação interdita do outro ou dos outros, e a incapacidade de abrir a porta e participar. É, e aqui é-o fortemente, o platonismo perscrutador da infância, e pode ser imagem do amor solitário do jovem e do adulto.
"Aprendi a procurar evitar concretizar todas as paixões, para as não perder nunca. Serão os desejos "mirabilis". Haverá bastantes na minha vida mais tarde" - a parcimónia forçada ou voluntária da concretização está patente em todos os contos, alternando sintomaticamente com a entrega, diríamos, fácil, da narradora, cumulativamente personagem principal, traço aliás marcante de actuais correntes literárias.
Mas essa contenção dos quereres, dessas paixões que não se quer esgotar, mas saborear parcial e paulatinamente, gozando-as nesse equilíbrio entre efectivo prazer e o remetido ao amanhã, por vezes ao mais tarde, e ainda algumas ao nunca, pois essa contenção, empurra-nos para a velha e clássica mutação do objecto em sujeito, ... do amador na coisa amada.
Sinais dos tempos seguramente, em que decadência e um certo renascer caminham a par, desta feita todos nós mais inseguros dos caminhos estéticos que nos esperam, tal a multitude de sinais, de aventuras, de fogos-fátuos, que nos envolvem e nos retiram o norte.

Da libertinagem


Que sem erotismo, evidentemente no seu sentido lato de exaltação do desejo, não há boa literatura, Vargas Llosa anunciava a falência das literaturas fáceis e dava-nos mais um instrumento que nos permitia catalogar de pornografia não apenas as unívocas e evidentes obras "exclusivamente" de sexo, mas também tudo aquilo que para aí há aos montes de literatura do "eu", de sensaboronas aventuras duma classe média extasiada perante e idólatra do bezerro d'ouro, que escreve como quem joga golfe.
À letra o preceito llosiano empurra para a pornografia, para a obscenidade (intelectual e moral), toda a literatura, por mais pudica que ela seja, que não faça acompanhar o discurso duma sensualidade vital e anímica.
Os Espaços do Desejo são, declarada e provadamente literatura erótica.
Comparando a isotropia da madeira, isto é a desigualdade da madeira nas suas diferentes partes, com o erotismo na literatura, Roland Barthes, notava que em ambas, as margens, as fendas, são imprevisíveis.
Que nem uma luva cai este paralelo nesta obra de Luísa Coelho. Nem sempre esse erotismo é maior quando a cena atinge os planos íntimos. A mor das vezes, pelo contrário. O afagar de um animal, o limpar as gotas da chuva do pescoço, a sombrinha inútil que se acaricia, a fotografia que se tira no tal momento, a laranja que esmagada escorre pelo peito, e tantas outras situações, indiciam, anunciam e provocam um trabalho aturado de fantasia e de agitação no leitor, mesmo o mais avisado.
Não nos espantam, antes nos reflecte pelo sim e pelo não, as ousadias e os atrevimentos de uma personagem-narradora capaz de amar nos acasos e de ao dobrar da linha saciar impetuosamente paixões até ali silenciosas, de confrontar o marido com os seus desejos paralelos.
Neste discorrer está o carácter mais provocatório do texto.

Dos espaços


Empurrando, aconchegando, mas também limitando o desejo estão os seus anunciados espaços físicos. Sempre bem marcados, sabemos nós que mais ou tão reais quanto partes das histórias, esses espaços participam activamente nas narrativas. De Insbruck, a Brasília , de Vila Nova de Mil Fontes a Bruxelas, de Amesterdão a África, a narradora nunca construiria uma narrativa semelhante sem esses cenários que lhe permitem conjugar e explicar à luz improvável (sentido literal) do leitor menos viajado, o magicismo e a invulgaridade dos acontecimentos.
Os espaços são suporte inseparável da míriade de desejos que atravessam o texto, evidentemente muito mais colaborantes com a génese, evolução e variações desses mesmos desejos do que com as necessidades diegéticas, isto é, interiores ao texto, da própria narrativa e muito menos ainda com a concretização daqueles.

Assim, lido Os Espaços do Desejo, advertimos o leitor comum que está perante uma obra que não é de leitura tão escorreita quanto se apresenta. Que as leitura possíveis de certas narrações são inúmeras, não paralelas, nem secantes nem cruzadas, mas em leque. Cada opção interpretativa levar-nos-á por um caminho diferenciado e gradualmente mais afastado do outro, tal a capacidade insinuante da escrita.
E, se consideramos que função do escritor não é ser legível, mas sim ser autêntico (Mário Cláudio), a autenticidade literária de Luísa Coelho não pode ser posta em causa. Não há na sua escrita a cedência “bestsellérica” (ou será besta-sellérica?) ao amor-fado, menos ainda às fantochadas pseudo-impressionistas de certas “tias” da nossa literatura.
E, como epílogo, e já que de desejo e prazer, afirmados e e afirmativos, temos falado, estimados amigos: não renunciem, como mais de metade da humanidade infelizmente faz, ao apelo e à concretização desse desejo e desse inenarrável e insubstituível prazer que é o de ler um bom livro.

Joaquim Pinto da Silva

Tervuren, 10 de Novembro de 2004

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