Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

9 de dezembro de 2014

O espantoso mundo das línguas... e dos homens

A propósito de: http://linguas.pt/2014/05/15/o-espantoso-mundo-das-linguas/
Publicado por Isabel Rei Samartin no Facebook e dos comentários:

Xose Lois D. Lucio Non será o revés, Isabel ?
Isabel Rei Samartim É o que diz o artigo, eu não digo nada...

E aqui o meu:
Claro que historicamente é o inverso. O português provém do galego e é o nome internacionalizado dessa língua nascida entre o Mondego e a costa noroeste da Península Ibérica. Mas o texto tem mais detalhes "perigosos". Por exemplo: " Há países que têm como língua nacional a língua duma região doutro país (Andorra)." Não é correcto dizer isto, porque Andorra é "dona" também da sua língua, pois aquele território fala catalão de há séculos, provavelmente antes até de algumas regiões da actual Catalunha. Outros erros: “Há países que criaram a sua língua em 1984 (Luxemburgo).” e “Há países que pegam numa língua morta e a ressuscitam (Israel)”. Ora uma língua não se cria por decreto, e o luxemburguês é uma língua muito mais antiga que a data da sua oficialização, assim como não se pode chamar, linguisticamente falando, de língua morta a uma língua que sempre foi usada, escrita e estudada como o hebreu (e o latim). Como se é “morto” se sempre se viveu, pelo menos para alguns?
Importa é relembrar mais alguns conceitos importantes da linguística, ignorados por muitos mas fundamentais, e que nos trazem dissabores nas batalhas de defesa das línguas em que nós entramos, por exemplo: a diferença entre língua e dialecto
não existe cientificamente, ela é produto da História e da política (houve quem dissesse, e bem, que a língua o é porque tem um exército por detrás); outro conceito importante é o da natureza “artificial” de todas as línguas, tal como o esperanto. As línguas são produto humano (repito, como o esperanto), construídas ao longo de séculos pelo homem em comunidade (aqui sim, o esperanto distingue-se, porque foi laboratorial, fruto de estudo individual e proposto como um sistema, totalizante); por último, por agora, uma língua cresce ao longo de séculos, afinando-se pela fala praticada em grupo e apenas mais tarde se reverte em escrita. Entre a sua criação, como fala, insisto, e a sua “transposição” (artificial também) em texto, decorrem por vezes muitos séculos. Daí que os “800 anos da língua portuguesa”, “comemorados” este ano com o aval da classe política, seja criação absurda, tendo mesmo no seu manifesto inicial, que guardo preciosamente, nem sequer citado uma vez as palavras galego ou Galiza*. Como pudéssemos falar de língua portuguesa sem falar do galego, como se a espada de Afonso Henriques (ou do escriba do testamento de Afonso II) tivesse ela também feito desabrochar “das entranhas da Mãe” uma língua nova, imaculada, nascida de um latim que durante mil anos tivesse estagnado à espera desse golpe de génio.
Custa a muitos portugueses, eu sei-o, dizer que a nossa língua nasceu do galego, ao qual se assemelha ainda e muito, essa língua praticada no noroeste peninsular (atenção: não apenas na actual Galiza), como custa dizer que afinal Teresa e seu filho só poderiam ter falado galego, porque galegos eram. Custa, porque o “nacionalismo” que praticam é o do Estado-nação, uniformizador e totalitário, avesso às origens verdadeiras e confusionista, identificando fronteiras com nações e línguas com Estados.
Sei-o porque muitos dos meus compatriotas ainda hoje, na Bélgica, onde ainda vivo, não conseguem entender a férrea disputa dos flamengos pela sua língua. Não entendem como num país bilingue (ou tri) não hão-de os flamengos vergar-se, é o termo, e falar francês (nunca exigem o contrário, note-se). Não compreendem que se a política linguística flamenga não fosse o que é independentemente de excessos claros e criticáveis) toda a periferia de Bruxelas seria hoje maioritariamente francófona. E não o é, por força daquela firmeza. Coloquem-lhes a questão (tema vivido em tempos no Algarve, onde existe uma população residente britânica e anglófona enorme) se aceitariam que a publicidade, em Portugal, fosse apenas redigida em inglês, e veriam os tais nacionalistas remoerem e protestarem.
*Rectificado mais tarde para 800 anos da escrita, mas foi tarde, muito tarde, os "princípios" estavam declarados e marginalizavam totalmente o galego.



Um comentário:

Marco Neves disse...

Caro Joaquim,
Agradeço os comentários ao texto publicado no meu blog. Não considero, no entanto, que os detalhes que descreve sejam "perigosos". São apenas uma forma de chamar a atenção para dados pouco conhecidos e conseguir assim mais atenção para o mundo das línguas. Assim, o luxemburguês já é falado há muito, mas foi considerado oficialmente como língua apenas em 1984 (como bem diz, a diferença entre língua e dialecto é apenas política e a política definiu o luxemburguês como língua em 1984). Nada há de incorrecto nisso. Quanto a Andorra, concordo consigo, o catalão também é de Andorra, tal como também é de Valência, apesar de todos os separatismos linguísticos por essas bandas. Chamar à língua de Andorra uma língua duma região vizinha era apenas uma forma de lembrar aos "esquecidos" portugueses que por lá a língua oficial não é o espanhol nem o francês. Quanto ao português e ao galego, são ambos duas faces duma mesma realidade, ambos nascidos do galaico-português, nenhum mais antigo do que o outro, pois todos fomos falando estas línguas ao longo dos séculos -- e mais não fiz do que tentar fazer ver aos portugueses que partilhamos muito mais com os nossos vizinhos galegos do que pensamos. Da mesma forma diria que o português é galego com outro nome. Lamento se a forma como expressei estas curiosidades linguísticas possa parecer perigosa, mas foi a forma de chamar atenção a este mundo magnífico das línguas, que é visto de forma muito simplificada por muitas pessoas. Espero que possa visitar o blog mais algumas vezes e apresento os meus cumprimentos.