Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

10 de junho de 1989

Discurso pronunciado na sessão de encerramento da Homenagem a Fernando Pessoa

realizada em Bruxelas, em Junho de 1989, no International Press Center

S. Exa. Sr. Embaixador de Portugal na Bélgica, Dr. António Patrício,
S. Exa. Sr. Embaixador de Portugal junto da Unesco, Prof. Dr. José Augusto Seabra,
Minhas Senhoras e meus Senhores,

A unanimidade em cultura não existe. A pluralidade dos caminhos, tão compreendida e praticada por Pessoa, tem sido um Norte perseguido – e julgo que alcançado - pela nossa Associação. São mais de dois anos e meio de actividade diversa, pluridisciplinar, em que me permito lembrar: os concertos de Sequeira Costa, de Carlos Paredes, de Manuela Gouveia, da "Musique Ibérique de la Rennaissance" ; a Conferência de Pascal Fleury sobre a poesia de António Ramos Rosa, o curso de "Introdução à Literatura Brasileira" pelo prof. Arnaldo Saraiva, as conferências/Encontro sobre "0 Noroeste Peninsular e a Questão Linguística Galega, com os nossos amigos galegos Dr. José Luís Ponteia e a Professora Adela Figueroa e o Prof. Salvato Trigo, - esta iniciativa foi conjunta com o Centro Galego de Bruxelas, local onde aliás a nossa Associação nasceu e foi apoiada; ainda com o Prof. Salvato Trigo, - donde proveio a sugestão do monumento a Pessoa em Bruxelas - o curso de "Introdução às Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa"; "A Presença de Portugal no Oriente" foi abordada, também em curso, pelo Dr. Marinho Bastos; as exposições de Catarina Castelo-Branco e de José António, as actuações e a permanência do nosso Grupo coral; as visitas turístico-culturais às Ardenas e ao departamento francês do Somme, as várias comemorações e festividades ligadas a datas e factos nacionais; o "Curso de Música Portuguesa" pelo Prof. Cândido Lima; os cursos de língua portuguesa para estrangeiros; a Semana de Cinema Português e variadas outras acções cuja memória lhes evito.
Como vos é dado ver - para quem não acompanha a nossa acção, e temos consciência que são muitos - todas estas actividades representam, por assim dizer, uma sólida base, uma infra-estrutura para um patamar em que assenta o Monumento a Fernando Pessoa. E chamámos-1he patamar e não cume, ou tecto, porque daqui, julgo eu, partiremos para um novo lanço de escadas, para novos empreendimentos e, talvez, para novas metodologias e sistemas organizativos.
A Homenagem a Pessoa, e mais concretamente a sua estátua, não é portanto um acto exibicionista ou arrivista de quem se pretende vistoso e vencedor à primeira. É muito mais do que um Padrão que diz passámos; trata-se dum entreposto que diz: estamos. E neste estamos, não queremos apenas auto-salientarmo-nos. Pelo contrário, sabemos e reconhecemos que outras entidades e pessoas lusófonas e lusófilas estão vivas e têm contribuído decididamente para a divulgação da cultura portuguesa em Bruxelas e na Bélgica: é o caso da Associação dos Portugueses Emigrados na Bélgica (APEB), com a sua recente e interessante revista "Perspectivas" dirigida por Luís Soares, é o caso da Livraria Orfeu da Maria Manuel e do Fernando Gandra; é ainda o caso do Instituto de Tradução e Interpretação, com a nossa sócia André Edwige à cabeça; é o caso do Fernando Cabrita Moreira com os programas de televisão e rádio em língua portuguesa na RTBF e, também de Presença - Clube Português de Radiodifusão, em Bruxelas e os grupos folclóricos e desportivos que de Ixelles, a Anderlecht e a Koekelberg proliferam; e são ainda as inúmeras associações tanto na Flandres (Vilvoorde e Antuérpia) como na Valónia (Liège, com o Clube dos Trabalhadores e a sua revista, e em Charleroi) e muitos outros que impossível se torna citar.
Poderiam, ainda, outras pessoas contrapor um certo non sense a esta Homenagem a Pessoa e, sobretudo, à implantação da sua efígie em Ixelles.
Notaríamos em primeiro lugar, tratar-se da exposição pública e permanente duma obra representativa da arte contemporânea portuguesa e de alguém - Irene Vilar - que o país já consagrou com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, com o Prémio Nacional e Escultura e muitos outros, e mesmo o estrangeiro, com o Grande Prémio da Bienal de Escultura, de Paris.
Seguidamente queremos salientar que nas Artes e Letras, as Homenagens e os reconhecimentos, oficiais e públicos, pecam e pecarão sempre por defeito: nunca é demais realçar o contributo dum escritor à estética e à divulgação da sua língua-cultura seja ela qual for, e muito menos quando se trata dum poeta cujas palavras se poderiam inscrever no frontão da sede da Unesco, segundo comentou Federico Mayor, director-geral dessa mesma Unesco, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Acrescento ainda que a máscara pessoana da Place Flagey é, na sua génese como no acto da sua implantação, um acto universalista, respeitador e defensor simultaneamente do inter-reconhecimento e das diferenças culturais dos povos abrangidos. Para o poeta, todas as nações são mistérios e cada uma, de per si, comporta nela o mundo na sua totalidade.
Assim o entendeu a Comuna de Ixelles, o seu burgomestre em exercício, Sr. Jacques De Grave, e o seu Conselho Comunal, ao aceitarem, mais, ao colaborarem empenhadamente na implantação do monumento e nas cerimónias acessórias. Reparem também no trilinguismo da estátua; Meditem na frase escolhida, ("a minha pátria é a língua portuguesa") que longe de ser de exaltação político-nacionalista estreita, nos remete antes para a fundamentação mesma de qualquer Ser nacional. É a 1íngua - logo uma cultura, e não um território, uma fronteira, uma economia, um governo ou um Estado – que nos diferencia e sustém como comunidade. Ë a valorização da Palavra.
Não podemos terminar sem acentuar, mais uma vez, o papel preponderante e motivador da Fundação António de Almeida e da pessoa do seu Presidente, Dr. Fernando Aguiar Branco. Com a oferta do bronze pela Fundação, da base da estátua, pela sociedade belga Sprimo, com a ajuda e empenhamento dos serviços da Embaixada e do Sr. Embaixador António Patrício, e com tantas e variadas acções e testemunhos de apoio, nós, Atlântida, honramo-nos de ter sugerido, co-organizado e co-realizado esta Homenagem a Fernando Pessoa.
Tal como ele, dizemos: "Agir é a inteligência verdadeira".

Joaquim Pinto da Silva
(Director da Atlântida)

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