Ser penedo é ser por fora o que se é por dentro (Teixeira de Pascoaes)
... é como ser transparente.

28 de junho de 2019

O Prédio Coutinho, em Viana do Castelo


O Prédio Coutinho
Viana do Castelo, outra tragédia.
Prédio Coutinho: qual foi o crime dos moradores? Não querer abandonar um andar próprio construído e autorizado legalmente pela Câmara Municipal? Acharem que que os motivos declarados para a demolição não são de "urgente interesse público"?
Pois é isto que se nos depara, um Estado (via Câmara) que ora autoriza "mamarrachos" ora os quer deitar abaixo, segundo interesses e agendas que não são as do interesse público.
Os moradores têm todo o direito a resistir e a denunciar a tirania de uma Câmara. Não se trata de uma ferrovia, de uma estrada, de um aeroporto ou de construções semelhantes destinadas a servir uma comunidade e que tecnicamente por ali teriam de passar, e ao qual, portanto, qualquer interesse individual teria de se vergar.
Não, trata-se da construção de um mercado e do "deita abaixo" de um prédio que atenta contra a paisagem.
A nossa opinião estética interessa pouco (pois claro que é um "mamarracho"). O que importa aqui é saber quando é que o Estado se pode desdizer, ora autorizando, ora mudando de opinião, sem ter em conta o interesse do cidadão que foi no engodo da compra de um andar com soberba vista para o rio, virado a Sul?
Como podemos nós ficar descansados, sabendo que, pela mesma via, se proíbem automóveis antigos de entrar em centros de cidade e se prevê o mesmo para os de gasóleo?
Com que direito (e interesse) o Estado nos obriga a comprar carros novos, quando os proprietários zelosa e ecologicamente trataram bem os antigos em sua posse? O que será mais ecológico, a fabricação de novos, com todo o gasto de materiais a isso ligados, ou a manutenção dos velhos?
E porque se vai proibir os actuais carros a “diesel” de também entrar nas cidades, quando não se interdita a sua venda e mesmo o seu fabrico?
Que Estado é este que legaliza hoje o que proíbe amanhã?
Falando agora de política (como se estivéssemos a falar de outra coisa!), repito-me dizendo que saber o papel do Estado na sociedade é de facto uma da grandes cisões societárias, entre aqueles partidários do progresso social, de um lado, e, do outro, os “sistémicos” e “situacionistas”, os dogmáticos (por exemplo, todos os “sempristas”: os que votam sempre no mesmo partido, ou aqueles sempre “à direita” ou sempre “à esquerda”, ou outros repetidores de mecanismos políticos autossuficientes incapazes de pôr e de se pôr em causa).

7 de dezembro de 2018

José Manuel Ramos Penafort Campos (1949 / 1987)




Álbum de Gratidão
Entre os que foram e os que estão, invocando as suas acções positivas a favor da comunidade, aquela a que pertencemos e para a qual os aqui chamados são ou foram exemplo.                           6.12.2018

Tertúia com jantar
José Manuel Ramos Penafort Campos
(1949 / 1987)
Após uns anos de afastamento, pós acontecimentos de 74 até 76, reencontramo-nos num acaso; daqueles que a vida nos oferece, envolto no mistério que essa palavra “acaso” traz consigo (o poeta disse que não os há, mas antes encontros).
Dizia eu que, esse fulminante reencontro, no ano de 1986, nos trouxe, à Fernanda e a mim, a alegria renovada pela retoma de relações por quem nos sentíamos próximos: a Joana e o Zé Manel Penafort.
Recordo-me bem da última refeição que tomamos juntos na vossa casa: bacalhau assado, por ele, na lareira da casa.
Falamos de muita coisa, mas não no passado, que queríamos ambos não esquecer, mas deixar para mais tarde, quando o saber que o tempo traz, nos alumiasse melhor a memória.
O tempo não apaga. O tempo tapa, até que vem uma brisa e destapa.
E acertamos um reencontro em lugar afastado. Onde?
Em Viena de Áustria, caso o nosso F.C.Porto chegasse à final europeia, conforme esperávamos.
Aproximava-se a data e o Porto somou as vitórias necessárias para chegar ao Pratter , em Maio de 1987.
Pelo telefone, eu de Bruxelas, ele no Porto,  acertamos a coisa: encontramo-nos lá e tu arranjas os bilhetes para 9, que eram os que iriam de Bruxelas para Viena em carros próprios, ficando uns dias mais para visitar a cidade.
A data mais perto, 27 de Maio, tudo acertado, iria receber pelo correio os prometidos bilhetes.
E surge o fatídico dia 19 de Maio. Um pesaroso telefonema da nossa Joana e uma bomba rebenta nos nossos ouvidos e transmite-se ao corpo, aos meus, à casa.
Passaram-se uns dias, poucos, a vida impassível no seu curso, e a realidade era lembrada pelos amigos que se juntariam a nós em Viena: 7, distantes do acontecido, mas respeitosamente silenciosos face ao ambiente pressentido, sabendo nós que a viagem estava programada, hotéis reservados.
Teria sido entre 21 e 23, uma carta, bem volumosa, chega-me às mãos no serviço. Reconheci a letra, 9 bilhetes ali estavam capeados por um papel manuscrito onde se podia ler:
“Até os comemos!
Vemo-nos em Viena!”
Em Viena nada foi velório, tudo foi, quase, contagiosamente festivo.
Ele queria-o, e acho mesmo que o vi, do outro lado do estádio, a esbracejar e a gritar:
“Comemo-los!”

29 de outubro de 2018

Do Pasteleiro à Pasteleira Notas de História, 2016

Do Pasteleiro à Pasteleira
Notas de História

Os 26 casais (casa de campo) referenciados em Lordelo pelas Inquirições
afonsinas, de 1258, deram lugar no século XXI a um largo aglomerado
habitacional de à volta de 23 mil pessoas.
Podemos fazer ideia de uma povoação vivendo da agricultura, da pesca e
da construção naval, afastada e muito da cidade do Porto, em que, durante
séculos, uma ida (e volta) deveria representar jornada penosa e arriscada.
Com certeza que pelo rio – se este estivesse pelos ajustes, seria mais
sossegada e rápida.
Com dois núcleos claros, um rural disperso em quintas e outro junto ao rio,
unidos no foco centrado na Igreja, viam os seus habitantes passar o tempo
de forma invariável e bucólica. Os fenómenos da natureza, como
tempestades e cheias, e os “cobradores” reais ou locais eram únicos a
perturbar aquela paz rústica e uma vida modesta, mas cremos suficiente
para as necessidades parcas de uma população curta e estável. Talvez ainda
a entrada rio acima de um galeão ou barca, às vezes corsários ou inimigo,
perturbasse esse sossego ancestral.
Dos monges cistercienses de Tarouca, proprietários da “Granja de
Portucale”, no século XII falam-nos os especialistas, dividindo-se na
localização daquela (entre a capela da Senhora da Ajuda ou próximo da
Ribeira da Granja, no vale da mesma… afinal tudo tão cerca).
Há que realçar na vida ribeirinha a enorme importância dos estaleiros onde
se produziram muitas das naus que, em 1384, ajudaram a Lisboa a
defender-se do exército de Castela que a cercava.
A talho de foice e rapidamente, é importante lembrar essa outra intervenção
fundamental da nossa cidade na conquista de Lisboa, cujos 870 anos se
comemoram para o ano.
Voltando ao tema, recordamos ainda que, dos estaleiros de Lordelo, saíram
também muitas das embarcações que, em 1415, foram conquistar Ceuta,
marcando o início da Expansão. E o mesmo se repetiu aquando de outras
conquistas, por exemplo, Alcácer Ceguer, Arzila.
1758
Saltando épocas, importantes para outro tipo de trabalhos que não este,
entramos no século XIX que, em termos sociais e urbanos, para Lordelo e
para o país, valeram uma profunda transformação, bem visível ainda hoje.
Começou mal o século. A política expansionista de Bonaparte trouxe-nos
os seus exércitos da “liberdade” e da “igualdade”, como se a primeira fosse
compatível com invasões e a igualdade fosse uma noção abstracta,
aplicável a esmo.
Na segunda invasão, em 1809, Lordelo sofreu na pele a fúria do exército de
Soult. A 29 de Março, no mesmo dia em que a Ponte das Barcas levaria
consigo para o fundo do rio, milhares de portuenses, os franceses
assaltavam casas, igrejas e outras propriedades e, não satisfeitos, matavam
todos os que lhe apareciam pela frente (descrito pelo pároco da altura,
Boaventura de Brito).
Ainda não se apagara essa viva memória e já Lordelo é cenário principal de
mais peleja.
Durante o Cerco do Porto, como sabem, os liberais, desembarcados em
Julho de 1832 e ocupando a Invicta, aqui ficaram cercados durante um ano
pelo exército do usurpador, antes de alcançarem a vitória.
Essa resistência foi possível pela bravura das gentes da cidade e do exército
de D. Pedro, e ainda pela inteligente estratégia que permitiu aos sitiados
manter não apenas a Serra do Pilar nas suas mãos (único lugar liberal na
margem esquerda) como também a estrada entre o Porto e a Foz, em cujas
praias desembarcavam mantimentos e, possivelmente, homens e armas.
Lordelo era esse lio fundamental entre as praias e o coração da cidade.
Entre outros, os redutos da Flecha dos Mortos e do Pasteleiro ficaram na
História. No primeiro – que urge memorizar no local – foi valente o José
Estevão (que sem armas e homens, diz-se, queimou as barbas do
comandante inimigo antes de fugir debaixo uma de chuva de balas), e no
segundo fica-nos o curioso registo do nome.
A página 141 de “O Cerco do Porto, de 1832 para 1833” (publicado
em1840), escrito por um anónimo que assinava, “Um portuense”, cita-se
várias vezes a Casa do Pasteleiro, local também de renhidos e mortais
combates de artilharia e à baioneta.
No seu romântico flanar, pouco depois (1835), Camilo Castelo Branco,
refere-se ao lugar e à casa do Pasteleiro, em “Cenas da Foz”.
(in “Dois Escritores Coevos”, de Augusto Gama)
Este é um dos enigmas que sobrou para nós.
Como se efeminiza um topónimo? Como se passa do Pasteleiro à
Pasteleira?
Num mapa do primeiro terço do século XIX é claramente afixado o nome
masculino.

(colocar talvez lado a lado para se ler bem Pasteleiro)
E, nestoutro, de alguns anos antes, figura igualmente Pasteleiro
Mais tarde, após os anos sangrentos do Cerco, surge então estampado a
actual feminina Pasteleira (e, talvez por isso, afirmativa e ampliada),
representando agora mais do que um local esconso habitado por um
casarão, um topónimo conhecido de um bairro em sentido estrito e também
da sua envolvente.

Em conversa com Raul Simões Pinto – o maior “retratador” da zona, ele
expande a sua original tentativa de explicação do fenómeno de mudança de
género: como é a partir de meados do século, que se dá a forte
industrialização daquela área (algumas fábricas existiam desde o início do
mesmo), por ela e a ela ocorrem centenas de operários que, atendendo à
parca rede de transportes públicos, se deslocam, alguns de muito longe, na
famosas pasteleiras, as bicicletas pesadonas fabricadas em série na altura.
Seria então por extensão do nome que o “rebaptismo” se dera.
O que é certo é que de nome de uma casa, provavelmente de um pasteleiro,
vivendo no meio de um pinhal cerrado, a Pasteleira regista-se, ufana, e dá
nome a arruamento relevante.
E é precisamente essa estrada/rua que enganchando a Oeste na Rua
Central/do Padre Luís Cabral, e a Este na de Serralves e, na seguinte, a do
Campo Alegre (“onde existia a casa do Manuel Quintino, mais tarde a
Faculdade de Letras, da Universidade do Porto, entretanto já transferida
para um local entre o Gólgota e a Rotunda da Boavista), dizíamos nós, que
é esse “continuum” que constituiu durante séculos o acesso da cidade do
Porto ao mar, a S. João da Foz (ver mapa reproduzido). Foi por aqui que
transitaram ainda os primeiros carroções, pejados de banhistas, que
arribaram ao Passeio Alegre para frequentar as praias do Ourigo/Caneiro e
do Castelo, à Foz.

A estrada marginal, da Ribeira/Miragaia à Cantareira, debruando o rio, é
bastante mais recente. Só existe quando se leva de vencida, à dinamite, o
promontório da Arrábida, esse soberbo bloco de pedra entrante no rio e que
impedia a conclusão de qualquer passagem.
A Pasteleira chega então ao século XX, fazendo parte da freguesia de S.
Martinho de Lordelo do Ouro, integrada que estava, desde 1836, tal como a
Foz e Aldoar, na cidade do Porto.
Mantém-se ainda rural, piscatória e construtora de barcos, mas agora
fortemente industrial: dos têxteis, aos químicos, passando pela metalurgia e
outros.
Estas unidades industriais laborando em pleno décadas a fio, empregando
centenas de operários e produzindo claramente riqueza, trouxeram consigo
também desvantagens visíveis.
Uma delas foi a poluição da belíssima Ribeira da Granja (a falta de rede de
saneamento público também ajudou). Nos seus curtos quilómetros,
provindos em parte, do Padrão da Légua, e de outra, de Arca d’Água, com
junção em Ramalde do Meio, viveu grande porção do século XX
“internamente” morta e, externamente, inútil, malgrado o bucolismo das
sua margens e a graciosidade das suas quedas de água.
Ainda se conseguiu ver, não no nosso tempo, ranchos de lavadeiras com a
sua roupa doméstica nas suas margens, mas terminou sendo um vazadouro
de objectos e subprodutos industriais, sobretudo químicos, que lhe coloriam
as águas, que putrificavam o ar, chegando os seus gases acumulados a fazer
levantar as tampas do saneamento.
Mas voltaremos à Ribeira mais adiante.
A industrialização de que falamos, e que todo o Porto viveu, ou não fosse
sempre uma cidade de vanguarda em todos os aspectos, levou a uma
migração massiva para a urbe, de pessoas dos subúrbios campestres.
Nasceram então as “ilhas”: aglomeração de pequenas casas, em geral
alinhadas de cada lado de um caminho central, comumente de terra batida.
Casas diminutas, insalubres, onde viviam promiscuamente famílias
numerosas.
É, portanto, tendo em mira a resolução desse problema social, agravado
pela degradação do casario do Porto histórico medieval, que nasceram os
planos camarários para a construção de bairros sociais.
Nasce o de Ramalde, em 1952, com traço de Fernando Távora, o da Rainha
D. Leonor, em 1954, e o de S. João de Deus, em 1956.
Até 1966, treze bairros são construídos, tornando a Câmara Municipal do
Porto no maior senhorio do país.
(as imagens seguintes são para dividir segundo a sua qualidade pelo curto
texto que se segue sobre o Bairro ou concentradas)
É, neste enquadramento que nasce o Bairro da Pasteleira.
Previsto no Plano de Melhoramentos da cidade, 1956/166, é construído
entre 1957 e 1960, a sul do bairro existente já de Gomes da Costa, e a
poente da Casa de Serralves. Cercam-no as ruas João Rodrigues Cabrilho, a
Norte, Bartolomeu Velho, a Sul e a nascente, e João de Barros, a poente. É
formado por 27 blocos (4 pisos na maioria) com 608 fogos: 36, T1, 130,
T2, 410, T3 e 32, T4, com uma clássica distribuição “esquerdo-direito” a
partir de uma escada central. As vias interiores ao bairro são sem-saída. Foi
construída uma escola, na rua João Rodrigues Cabrilho, para albergar 400
alunos.
Em simultâneo, nasce por decreto do então Administrador Apostólico da
Diocese do Porto, D. Florentino de Andrade e Silva, a paróquia
experimental de N. S. da Ajuda, que,
em 28 Janeiro de 1973, Paróquia com estatuto próprio.
É nesta Paróquia, e na sua Igreja construída paredes-meias com o Bairro,
que surge o então Padre António Teixeira Coelho, tão citado nesta obra e
seu prefaciador.
Apesar da amálgama de origens geográficas, embora sempre de condição
humilde e neste contexto social e urbano, os novos habitantes do Bairro não
tardam a manifestar, nessa década de todas as ousadias (a de 60), um forte
espírito gregário, associativo.
O Solar Clube surge na dianteira do espírito irrequieto próprio à juventude,
mas mais vincado naquela época. Não tratam apenas da diversão pura, do
hedonismo que hoje campeia. Não! Atrevem-se a ler, a conversar sobre os
temas mais diversos, alguns vetados, a discorrer sobre as vanguardas
artísticas e musicais, e, … a escrever, coisa rara naquele meio.
Mais raro ainda, foi terem tido quem, com inteligência e devoção sociais, a
que não foi estranho o Concílio vaticano II, os tivesse acompanhado e
orientado. A Igreja cumpriu um dos papéis a que se propôs, pela mão do
Padre Coelho.
Visitante ocasional do Solar, amigo de muitos dos “solarengos”, pude
constatar a vitalidade daqueles que fugiam ao destino da sua condição,
recriando-o pela cultura, pela solidariedade e pelo inconformismo face às
injustiças. Mas atrás está quase tudo dito sobre os anos do Solar.
Nesse espírito criativo e de resistência, citemos, de novo, o CACO, jovens
estudantes e operários, o Grupo Coral da Igreja, onde muitas jovens
encontraram também forma de se formarem (e algumas de casarem com os
do Solar), o grupo de futebol amador, Durium 70, o grupo excursionista,
Pés Descalços, animado pelo José Dara, a revista literária “underground”,
Pé de Cabra, e outros mais que, repito, fugiam à contingência do meio e da
condição e sobreviveram e viveram.
Para terminar, uma constatação e uma esperança.
Vi a Mata da Pasteleira degradada, a abarrotar de lixo e de barracas, em
concorrência com as “bidonvilles” parisienses da mesma época.
Pude assistir, em 2003, à sua transformação em Parque-pulmão, com a
vegetação cuidada e equipamentos de lazer (7 hectares), nomeadamente a
ciclovia a ligá-lo ao Parque da Cidade.
Vejo ainda hoje, a Ribeira da Granja contaminada, mas nada que se pareça
com o esgoto que foi há bem pouco tempo.
Confirmo a beleza simples de partes do seu percurso (muito dele está
entubado), particularmente as quedas de água junto ao Bairro Pinheiro
Torres e da Pasteleira.
Acredito que a recuperação dessa Ribeira, para usufruto da população local
e visitantes, é tarefa importante para a intervenção cívica, como o fez e faz
o NDMALO, Núcleo de Defesa do Meio Ambiente de Lordelo do Ouro,
desde 1978, e como o podem e devem fazer os nobres herdeiros do
associativismo da Pasteleira, em particular os do Solar Clube.
A Pasteleira está viva!
Joaquim Pinto da Silva

19 de setembro de 2018

Né Themudo, Poeta do Ver




Né Themudo, Poeta do Ver

Do instante à racionalização, em pausa ou em fuga, Né Themudo abre-nos mundos que olhamos, mas que não conseguimos Ver. Activo desde os anos 60, tem-nos ofertado momentos de beleza, mas também de interrogação, nas suas imagens do momento e de património perdidos, nos seus retratos de introspecção a anónimos e a amigos, nas divagações poéticas entre brumas açorianas, sanjoaneiras e nas incursões europeias. Né Themudo merece um álbum de rigor e de fantasia. Pela minha parte, estou pronto! Quem alinha?
QZ (com amizade, claro, mas sobretudo, com sinceridade)
19.9.2018

29 de julho de 2018

"Cantareira, 61", no Artes Entre as Letras, artigo de Vasco Rosa


"Cantareira, 61", no Artes Entre as Letras, artigo de Francisco Valada




"Cantareira, 61" no JN, artigo de Hélder Pacheco


"Cantareira, 61" no Público, artigo de Luís Miguel Queirós



Cantareira, 61, no Porto Canal , Maio 2018

A Casa de Raul Brandão na Foz do Douro, Cantareira
https://www.youtube.com/watch?v=oKMWnDl9i9s&t=131s

Apresentação de “Estórias Recontadas”



Apresentação de “Estórias Recontadas”
Matosinhos, 13 de Julho de 2018
Biblioteca Florbela Espanca

Boa tarde caros amigos,
Agradecimento:
À Câmara de Matosinhos
À Bárbara Araújo autora da obra “Irene Vilar, Monumentalidade e Intimismo”, de 2015,
Ao Mestre António Cunha e Silva por associar a esta visita O Progresso da Foz e eu próprio.
Assinalo que faço esta intervenção a título pessoal, vestindo entre outras duas fardas a que honrosamente pertenço: a d’O Progresso da Foz, que organiza esta visita, e a da Orfeu, centro cultural, editora e livraria em Bruxelas.

Sobre a exposição – de que nos falará António Cunha e Silva – quero realçar o seguinte:
A contribuição da olaria barcelense para o património nacional é impressionante. Não apenas pela própria produção dos artesãos de Galegos de Santa Maria, Areias de São Vicente, S. Romão, de Galegos São Martinho, Manhente, e de tantos outros locais, como pela influência que tiveram difundindo os seus modelos e marcando profundamente a Arte e a Literatura contemporâneas. Basta ver e ler, por exemplo, Mário Cláudio e Amadeu de Sousa-Cardoso.
Paralelemente, as feiras populares na sua divulgação massiva da olaria, de uso doméstico e decorativa continuam a ser formas de afirmação de identidades que é importante manter. Falemos das feiras semanais se Barcelos e das anuais, como a do Senhor de Matosinhos.

E em afirmação de identidade, de busca e de síntese, temos aqui um monumento vivo e activo o Professor A. Cunha e Silva.

Com A. Cunha e Silva temos um historial abundante de colaborações. Citamos as conferências e a apresentação do livro sobre a Sonata Saudade e de Óscar da Silva, do naufrágio do Veronese, do Padre Grilo e do seu Mártir Pequenino, as Marés d’Escrita (um repositório de crónicas, publicado aquando do seu 75° aniversário, a que voltaremos antes de terminar).
Tivemos o prazer de publicar com ele a obra “Do Rumor da Água ao Som do Bronze” (sobre Irene Vilar) apresentado ainda com a nossa amiga em vida.



Em 14 de Setembro de 2016, nos seus 75 anos, tive o prazer de anunciar a outorga do primeiro e até agora único, Prémio Orfeu Cultura, ao Professor António Cunha e Silva.
Na altura, fruto de diversas circunstâncias, não tínhamos em nosso poder o pequeno símbolo que deveria acompanhar a entrega deste modesto prémio.
Hoje, temo-lo aqui.
Assinalo de novo a sua modéstia, mas a grandeza que nós lhe damos. Para além da sua sinceridade, contém em si um mundo de língua portuguesa, pois foi fabricado em Goa, por um artesão goês de fala portuguesa.

(entrega do emblema)

O reconhecimento público é um elemento civilizacional muito importante. É no “exemplum” que a sociedade encontra alimento para a reprodução das acções e dos caracteres que nos levam adiante.
Matosinhos e as suas instituições e o país devem muito a A. Cunha Silva: nós sabemo-lo!
Eles ainda não se deram verdadeiramente conta.
Para isso também aqui estamos: para lhes recordar.


13 de Julho de 2018

Joaquim Pinto da Silva

10 de junho de 2018

Apresentação da obra Terras do Monte Longo de José de Andrade e Daniel Bastos






Apresentação da obra
Terras do Monte Longo
de
José de Andrade
Centro Português de Fotografia, Porto, 9 de Junho de 2018

Caro Dr; Benardino castro, Director do CPF,
Caro Daniel Bastos, meu amigo,
Minhas Senhoras e meus Senhores,

Comecemos pelo principal, para isso aqui estamos: as fotografias e o representado.
O país aqui patenteado, isto é, esta amostragem do país, interior norte, é para muitos, sobretudo os mais novos, motivo de espanto.
Embora ainda se possam ver traços aqui e ali deste modo de vida, pobre e arcaico, por vezes no limiar da miséria, é verdade que muito se transformou e que hoje Monte Longo e os seus similares apresentam-se-nos hoje com nova cara. Nem sempre melhor, sobretudo a nível da desordem e da deselegância construtiva, mas claramente em superação de um atraso que remonta a séculos.

Apercebemo-nos que estamos perante instantâneos e não produtos laboratoriais e, mesmo, acreditamos que são sobretudo primeiras e últimas tentativas as imagens que Andrade nos dá.
“A paisagem portuguesa, a única realidade que hoje vale a pena em Portugal“ (Torga).
Assim se produziu um livro de arte, à qual não se pode retirar o profundo sentido histórico, sociológico e etnográfico. O “belo” está integrado umbilicalmente com a sociedade e as pessoas que são fotografadas.
Não sentiu José de Andrade necessidade, à Cartier Bresson, de legendar as suas imagens. Não viu utilidade em se explicar porque entendeu, e bem, que, neste tipo de levantamento imagético social a peça continha tudo: os miúdos em semi-pose desconfiada e curiosa, as mulheres e os homens no labor agrícola, ganha-pão em desuso para nossa infelicidade, as protectoras croças das chuvas e neves que nelas resvalam protegendo corpos, a romaria em fervor religioso, ainda não transmutadas em outras adorações tecnocráticas, de “Iphone’s”, “Ipad’s” e as novas redes que nos enredam como galinhas em galinheiros, os carros-de-boi apontando ao alto, hoje inúteis e decorativos em vilas semi-abastadas, o cemitério num alto, mais próximo do céu para onde queremos que os nossos transitem, as casas em granito com acrescentos de madeira e telhados de colmo, que resistem ainda, o barbeiro ecónomo, fazendo a barba e cortando cabelo na rua, a salvo das atalaias da ASAE, os enormes rochedos plantados nas encostas por deuses esconsos e que teimam em não sair, e por aí adiante.

Este Minho interior, junto às Terras de Basto (não do Daniel, infelizmente), de Guimarães, da Póvoa de Lanhoso, Felgueiras, terras-berço do que somos, é uma região ímpar. Lê-se Camilo, Teixeira de Queiroz (de quem li o maior elogio ao Minho em escrita que conheço), e, pasme-se!, de Raul Brandão, um conterrâneo meu, que depois de provar o sal das tragédias da barra e do mar da Foz, da Póvoa e de Leixões, veio afagar o seu talento para terras de Nespereira e de S. Martinho Campo, em campos de Lanhoso, não tão longe de Monte Longo.

E citemos os nossos para situarmos melhor este Longo Monte, que estando para cá do Marão e do Alvão, e por isso ainda é minhoto, tem já em si muito do que para lá se vive.

Acompanhemos duas narrações; uma idílica, romântica, floreada, do grande Teixeira de Queiroz (que vos citei há pouco) sobre o “aquém”:

“Ventos fortes obrigam as coroas dos pinheiros a inclinarem-se soluçantes; os primeiros frios aconselham agasalhos; os nossos olhos magoados assistem, a todo o instante, à morte de coisas que viveram; nos tugúrios dos pobres acendem-se as primeiras fogueiras invernais. Já se ouve ao longe o grito ansioso do cevado debatendo-se sob a faca do matador, subjugado pelos braços fortes de homens sem coração que, vendo-o no estertor, lhe dizem facécias.
Começou o inverno. Tudo triste e sombrio: galhos estendidos sem folhas, nem frutos; campos sem pão; os trovões a roncar irados das cristas dos montes; os rios turbulentos saem dos leitos; já não sussurram ribeiros, já não gemem fontes. Aquele ciciar de reza que estas leves águas falavam, é agora caudal petulante d'algazarra. Não apetece, como no cálido Verão, abeirarmo-nos das correntes frescas e límpidas, ouvir suas cantilenas, repousar perto, n'uma preguiça anacreôntica. Tudo mudou: as tímidas donzelas toucadas de rosas que eram as fontes, os alegres sátiros enfeitados de heras que eram os regatos, transformaram-se em bandos de bêbedos e colarejas, golfando os insolentes ralhos, que voem n'esta quadra dos rios. Nas serras altas, as agulhas das penedias furam nuvens caliginas, os seus píncaros estão cobertos de neve. Da manhã para a tarde, às vezes com sol, principiam a esvoaçar flocos, semelhantes a pétalas miudinhas, e em poucas horas tudo aparece branco. São imensas toalhas a corar, sobre o dorso de grandes dromedários. Parece que vamos assistir a uma boda de gigantes, celebrada à face do céu infinito. No vale onde repousamos, o frio aperta as carnes; dos braços nus dos carvalhos e das cerdeiras pendem brincos d'água congelada, sente-se ao longe a imprecação da trovoada. É o Dezembro áspero, o Natal doméstico, o aconchego da lareira, a coroa rezada em coro, o estoirar das castanhas debaixo das cinzas.”

E agora a outra, do “para além” dos Montes, de Miguel Torga:

“Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:
- Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...
Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?
Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena:
- Entre!
A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.”

E numa sábia composição, moderada e tonalizada, destas duas descrições temos o nosso Monte Longo.

E Monte Longo, topónimo bonito, antigo como as trovas galegas nossas, desaparecido com os arrebatamentos do liberalismo, no seu desvario normalizador, permanece ainda nas memórias perenes das gentes e dos escritos. O Fafe moderno nasce no século XIX, com ajuda dos nossos compatriotas torna-viagem, “os brasileiros”, que o nosso amigo Daniel tão bem estudou, e que tão importantes foram nestas terras. Mas o Fafe que hoje podemos ver, diferente ainda, nasce com o 25 de Abril e o progresso subsequente que, inevitavelmente, destrói o Monte Longo de José Andrade, por muitos resquícios sobrem aqui e ali de maneiras, hábitos e paisagens.
O repositório artístico, hoje - bem hajam, depositado aqui neste Centro Português de Fotografia, desde 2009, é um testemunho histórico e de humanidade insubstituível.
José Jorge Amaral de Andrade, nasceu em Santo Tirso em 1927. De profissão era funcionário público, tesoureiro, nos Serviços Municipalizados da Câmara Municipal de Santo Tirso.
Tem intervenção variada nas artes, quer na pintura, no teatro, da escrita e na fotografia.
Começou a fotografar aos 20 anos de idade, despertando o seu interesse nesta área através de um seu amigo, fotógrafo profissional, Manuel de Sousa, que gostava de retratar pessoas.
Foi fundador do Grupo Fotográfico Efepontosete. Participou com as suas obras fotográficas em exposições e salões quer a nível nacional quer a nível internacional. Foi-lhe entregue a medalha de mérito cultural da cidade de Santo Tirso, em 2008.
Com 81 anos, morreu em 2008.

Conheço uma pérola literária do nosso fotógrafo que vou partilhar convosco:

“Um caminhar sempre levanta o pó, mas o pó o vento leva-o, não tarda, para outras paragens, com réquiens ou não. Mas a música que fica ouvir-se-á sempre no silêncio das catedrais do amor ou da amizade, daqueles que abrigaram nos seus corações o que é belo e honrado, enquanto caminheiros. Qundo a alma se agiganta, sempre desperta um amanhecer festivo nos corações.”

Tenho pena de não ter conhecido José Andrade!

Saliento o profissional trabalho do Paulo Teixeira, que acompanha de há muito o Daniel nas suas aventuras culturais plurilingues. Competência e qualidade são atributos visíveis nos seus trabalhos.

Uma palavra ainda para o grande humanista Gérald Blancourt, o prefaciador da obra, homem a quem Portugal deve a grande e profunda reportagem do êxodo dos nossos compatriotas para França nos anos 60 do século XX. Nunca é demais salientar a importância desse trabalho promovido também pelo Daniel Bastos.

Para situarem o trabalho de José Andrade no tempo e no lugar, nada melhor que lerem a introdução do historiador Daniel Bastos que figura no livro.
O Estado Novo de onde ele parte para explicar o culto piedoso da pobreza e da simplicidade atávica que nos manietou, sobretudo à sociedade rural interior, de forma a manterem-se práticas de trabalho e códigos sociais inabaláveis durante décadas, enquanto o mundo se movia e as burguesias urbanas se modernizavam.
É verdade que a Monarquia e a I República não fizeram muito melhor, mas pelo menos não elegeram esse “modus vivendi” como modelo.
Ainda vivi um pouco esse atraso cultural sobretudo na minha infância em Paredes, hoje a 30 minutos do Porto, na altura a quase 3 horas.
Daniel Bastos prossegue num caminho que tenho acompanhado de há já bastante tempo – tive oportunidade de organizar ou participar em sessões-conferências em Bruxelas, em Paris e em Fafe.
Multifacetado em práticas e estudos, Daniel tem perseverado em produzir trabalhos que o honram e nos servem.
Leiam-no!
Obrigado pela vossa atenção

Porto, Centro Português de Fotografia, 9 de Junho de 2018
Joaquim Ponto da Silva


2 de outubro de 2017

Catalunha e o nacionalismo




Falsa oposição: o internacionalismo e o federalismo são conceitos que se adoptam ou não. Eu adopto! O nacionalismo vem de dentro, dos nossos Pais e da nossa comunidade, da nossa língua e da nossa cultura. Pode renegar-se, claro, e isso tem nome. Eu sou nacionalista português, europeísta e defendo uma Europa Federal e um reforço dos poderes das Nações Unidas no mundo, sobretudo no armamento.
E na Catalunha a questão não é República ou Monarquia, "esquerda" ou "direita", a questão é Liberdade. Contra o direito dos Catalães estão franquistas, PP's, o PSOE ("irmão" do nosso PS), muita "direita" e muita "esquerda" e extremas dos dois lados. Uns, porque é é "extrema-esquerda" que manipula", outros, porque é "a rica burguesia" que quer mais lucro, outros, porque são "internacionalistas", outros ainda porque nem sequer sabem distinguir um Estado de uma Nação.
Pelo direito a exprimir por voto o seu desejo estão Catalães.
Contra uma nação com um bom nível de vida para trabalhadores, com uma sólida burguesia, com um povo letrado e esclarecido, o governo manda a polícia e tropa. Não lhes vale de nada! Mesmo sem referendo, se por acaso..., como vai governar Madrid milhões (mesmo que não maioritários) de cidadãos que não aceitam esse mando e essa imposição? O "referendo" passa, mas a revolta continua.
Que faz Filipe VI? Cala-se, esconde-se, mas também não pode dizer muito porque não fala catalão, uma da línguas do país onde reina.
Longe vai o tempo em que alguns monarcas e imperadores - valha-lhe isso - se colocavam em posição equidistante das nações que governavam e procuravam, pelo menos em alianças, respeitar as diferenças e sensibilidades do seu país.
Os catalães dão uma lição ao mundo: contra matracas e balas de borracha, a serenidade de um grande povo.

22 de setembro de 2017

Referendo na Escócia




17 de Setembro de 2014 ·
Amanhã, mudará o mundo?
Na Escócia reside uma certeza e uma esperança.
Os Estados-nação (do XIX) e os sistemas “socialistas” (do XX) fracassaram completamente na criação de comunidades políticas plurinacionais. Sem excepção, a coacção de uma grei (a do poder de Estado) sobre as outras foi de regra, dos falantes da língua d’oïl aos grão-russos, passando pelos sérvios até à Espanha actual.
O jacobinismo e o “socialismo de Estado” prepotentes conseguiram quase eliminar, ou transformar em exotismo turístico, as peculiaridades de certas nações esvaziando-as do conteúdo próprio (a língua, a cultura e a vontade autónoma). Esses sistemas seguiram-se aos grandes impérios/reinos multinacionais em que se, por um lado, as particularidades foram, nalguns casos, mais respeitadas do que hoje (por exemplo, na Sublime Porta), por outro, o despotismo os levou à perdição.
As Revoluções Francesa e Soviética, falando das mais sonantes, nos seus objectivos igualitários e uniformizadores menosprezaram as componentes nacionais, erigindo Estados que pretensamente tratariam por igual os seus cidadãos, mas que no dia-a-dia impunham uma maneira e uma língua, a da nação dominante. As poderosas máquinas administrativo-políticas instituídas não poderiam conceber que, para além das necessidades materiais e de funcionamento de uma sociedade, os aspectos imateriais e subjectivos, ligados à identidade própria de partes dessa mesma sociedade, têm um peso primordial na sua vida e na procura da sua felicidade.
Normalizadores “per natura” e por convicção, jacobinos, socialistas, comunistas, fascistas e outros, não conseguiram, no entanto, “limpar” por completo algumas das nações dominadas – muitas delas mais antigas que a dominante – permanecendo estas num limbo secular de que agora despertam, reafirmando-se. Um novo mundo e uma nova Europa deverão definir-se doravante pela união livre e voluntária das nações e não apenas pelas prepotências dos Estados-nação, por muito “democratas” que estes possam ser.
Um cidadão nascido numa comunidade concreta, com uma língua e cultura que não sejam a dos do poder (curdos, catalães, corsos, etc.) nunca, mas nunca, conseguirá ter as armas políticas e legais que lhe permitam uma afirmação social, na sua língua, de par com a reinante. Se se rebaixa usando a do poder, então até pode resultar num tirano pior ainda que aqueles falantes (Napoleão que era corso, Franco, galego, Hitler, austríaco, Estaline, georgiano, etc.).
Relembro também que na estruturação intelectual concebida e imposta pelas nações dominantes nos Estados-nação o papel que representa a historiografia e a língua oficial (a da nação dominante) é arrasador em relação aos dominados. Como exemplos gritantes acentuo o apagamento da importância extraordinária, mesmo na construção europeia, da cultura e língua da Occitânia, na História de França, ou a atitude do Instituto Cervantes de olvido quase total das outras línguas da Espanha actual (é apenas o espanhol que promove). Permito-me, em relação a Espanha, dizer aos meus amigos monárquicos, que Filipe VI (se pudesse, se soubesse e se fosse “a tempo”) perdeu uma oportunidade histórica de, pelo menos, atrasar as afirmações nacionais no seu país, ao discursar apenas em castelhano na sua coroação. Que efeito teria se tivesse dividido o seu falar nas 4 línguas do Estado?
Temos portanto, amanhã, a possibilidade de assistir não apenas a um acto histórico do reavivar cívico de uma nação antiga, a Escócia, como também, pelo exemplo, o aparecimento de um efeito dominó, que recolocará a Europa no caminho dos seus fundamentos, refazendo de par os seus princípios. E só assim se pode entender a profunda reflexão de Jean Monnet, logo no início da construção europeia: "se fosse hoje, teria antes começado pela cultura...". repito, apenas desta forma e não numa lírica visão de aprofundamento ou inter-relacionamento cultural, é que o dito se entende.
Para um português, mesmo atento, este movimento, imparável aliás, de afirmações nacionais, tem sido de difícil compreensão (constato). “Vão criar-se novas fronteiras”, “agora que estamos em União, estas reivindicações não fazem sentido”, “é melhor juntos que separados”, “são objectivos secundários, sobretudo, em situação de crise”, etc.
O facto de temos uma cultura nacional, ainda que nada homogénea nem “unificada” (malgrado os esforços do poder, via a RTP mormente), impede-nos por vezes de perceber o querer de nações que vivem sob a pata castrante de outras. Poderíamos entender melhor se, sem 1640, hoje fôssemos uma das 5 nações da imperial Espanha e fôssemos obrigados a preterir a nossa língua pelo castelhano e a nossa maneira pela deles. Quantos de nós não estariam agora barricados na rua a exigir independência? Quantos não estariam nas prisões, em Navarra ou nas Baleares (que assim faz Madrid aos nacionalistas galegos, por exemplo)? Quantos não teríamos, às tantas! e infelizmente, posto uma bombita no posto da “Guardia Civil” mais próximo?
Ser nação é um estar incomparável a qualquer outro desiderato também legítimo dos povos, nomeadamente o de uma maior equidade social. E os sonhos “igualitários”, como no início deste texto descrevi, baqueiam e baquearão todos se não compreenderem esta qualidade social, transversal e irrenunciável. Porquê? Não porque a “abstração” da língua e da cultura por si só o motive, mas porque intrínseca e irrefragavelmente apegada à ideia de nação, está o desejo de afirmação e da prática, no quotidiano, dessas mesmas cultura e língua, ou seja o exercício da Liberdade (daí que ditadores e acólitos sejam os seres mais “aculturados” que a História regista).
E pela liberdade morre o pássaro, bem alimentado, na gaiola, sempre asseada e asséptica.
Joaquim Pinto da Silva
PS. Se o Não amanhã ganhar na Escócia ou se a Espanha continuar a “fazer de conta” à irrefutável vontade catalã de autonomia total, o caminho está traçado. Inevitavelmente!
As nações tratam o tempo por tu.

28 de março de 2017

“O Olhar de Compromisso” Gérald Bloncourt e,, Apresentação em Bruxelas



Apresentação de
“O Olhar de Compromisso”
Gérald Bloncourt e Daniel Bastos

Bruxelas, Embaixada de Portugal, 24 de Março de 2017

Senhor Embaixador, Dr. António Alves Machado,
Dr. Rui Martino Correia e Dra. Carina Gaspar,da Embaixada de Portugal,
Minhas Senhoras e meus Senhores,

Tivemos a oportunidade por diversas vezes de abordar o tema dos portugueses a trabalhar e a viver no estrangeiro. Na nossa vida de expatriados e na nossa acção cultural interviemos em colóquios, participamos em encontros, ouvimos interessados e publicamos livros.
Não somos portanto iniciados no tema e temos pessoalmente opinião sobre alguns aspectos da cidadania dos portugueses no exterior.
Mas o que nos traz aqui é um livro. Um livro que é um daqueles retratos que os portugueses não gostavam de ver. Ficavam no baú, esquecidos, amarrotados, como que se não existissem.
Sorte nossa, Gérald Blancourt, um haitiano curioso e jornalista calcorreou os “bidonville” portugueses nos arredores de Paris. Mas não se ficou por aí, quis ver quem eram esses heróis que construíam a nova Paris, ávida de imóveis e da implícita mão-de-obra.
Mas quis também vir a Portugal e fazer o Salto com os nossos compatriotas, viver essa fuga, vê-los fazer da Meseta ibérica e dos Pirinéus a estrada de Job.
O seu testemunho é a reescrita necessária de parte da nossa História.

Daniel Bastos, nosso conhecido, com quem tivemos o gosto de partilhar por aí e por aqui alguns livros, da História à poesia, é o promotor deste livro. Historiador de formação, professor, é também ele um caminhante das peregrinações pátrias, as heroicas, de partida, e as heroica de chegada, como esta.
Daniel Bastos, homem de Fafe, que é como quem diz do mundo, ou não fossem os dali homens de andanças antigas e corajosas.
Mais e mais trabalhos destes e de outros é o que esperamos de pessoas como o Daniel, capazes, laboriosas e humanistas.

E para nos acompanhar nesta homenagem aos nossos dos bairros-de-lata e aos presentes nesta mesa, os mensageiros da glória, temos connosco Maria Beatriz da Rocha Trindade. A Maria Beatriz vai completar a “realidade” sentimental que o livro aporta com a racionalidade do busca intelectual e dos números que ajudam o entendimento.

A Orfeu, agradece a todos os 3 a presença, o afinco no trabalho produzido e – perùmitam-me! - em particular a Gérald Blancourt. A sua dedicação ao nosso país e aos nossos é obra já reconhecida oficialmente, mas que nunca é demais salientar. Que viva o restante da sua vida com a nossa gratidão e a nossa estima.
“Nous voulons, cher Gérald, vous rendre hommage, vous remercier pour votre attachement au Portugal et aux portugais. Avec des hommes comme vous l’humanité peut encore rêver d’un avenir heureux.
Merci.

Obrigado a todos.

Joaquim Pinto da Silva

A Minha Foz e Eu, de Inácio Sousa - Apresentação



No passado dia 19 de Março, à tarde, no Café Moreira, apresentou-se o livro, "A Minha Foz ... e Eu", de Inácio Sousa.
Foi uma sessão inesquecível quer pelas (mais ou menos) 200 pessoas que ali estiveram (muitas não puderam entrar), quer, e sobretudo, pela emoção ressentida por todos, pois falava-se da Foz da infância e juventude de muitos de nós e reencontravam-se amigos que de há muito não se viam. Presidiu o Presidente da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogile, Dr. Nuno Ortigão e apresentou o livro o Dr. Joaquim Pinto da Silva (Quim-Zé para os da Foz), Presidente da direcção de O Progresso da Foz.
Segue aqui o seu discurso:
Apresentação da obra "A Minha Foz… e Eu", de no Inácio Sousa
Café Moreira, Foz do Douro, 18 de Março de 2017
Senhor Presidente da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, Dr. Nuno Ortigão,
Senhor Óscar Melo, proprietário do Café Moreira,
Dr. José Valle de Figueiredo, insigne figura das letras pátrias, poeta, ensaísta, director de um dos projectos mais valiosos desta zona, a Foz Literária, e eminente membro de O Progresso da Foz
Saúdo desde já outros ilustres membros de O Progresso da Foz
José Fernando de Magalhães, companheiro permanente das nossas aventuras,
Américo Basílio da Costa, discreto e eficiente acompanhante permanente,
Maria João Alvarez, autora do diaporama
Raul Simões Pinto
Francisco José
Jorge Nicolau
Natália Lamela
Luísa Marques
Paulo Soares
Patrícia Pereira Alves
E os do passado:
Vítor Simões
Agostinho Pereira
António Cardoso
João Carvalho (saudoso)
Caros amigos,
Este coração da nossa terra, a Senhora da Luz, que alguns enganosamente intitulam apenas de comercial, vive é claro do negócio, do comércio, do compra e vende tão necessário às nossas vidas. Mas esta artéria é muito mais do que isso.
Não é apenas o nome de uma rua. Quando dizemos vamos à Senhora da Luz, entendemos um conjunto de ruas, travessas e comércios diferenciados que nesta via confluem.
Por aqui passamos muita da nossa infância, adolescência e maturidade.
Por aqui regatearam as nossas Mães e os nossos Pais preços, compraram o necessário e se passearam, saudando amigos e passantes, detendo-se nas esquinas em conversas sobre tudo e nada, apanhando eléctricos (ai que falta!) para a Baixa ou Matosinhos, em momentos repetidos que, lembrados por nós hoje, recordamos com saudada … essa coisa que mistura choro e alegria e nos consola e desconsola à vez.
Quero, em nome de O Progresso da Foz e no meu, fazer uma saudação sentida e forte a todo o comércio da Senhora da Luz e proximidades.
Todos ganhamos com a sua presença passada e actual. Da Ângela, ao Morgado Sobrinho, às Farmácias, da Távi, à Marlu, ao Teddy, à Fernandes, ao Rocha, à Fontluz, ao Sousa, ao Morgado, à Jomar e por aí adiante, todos, mas todos, merecem o nosso apreço. Servem-nos no que precisamos, estimulam a rua e as nossas vidas, dão cor e alma a uma artéria que é parte de nós. A Senhora da Luz somos nós, a Rua É Nossa.
Uma outra saudação vai para esta casa em que agora estamos. Do saudoso fundador António Moreira, até à família Melo, o Café Moreira foi cenário importante para muitos de nós.
Lembro com saudade a simpatia do Domingos Melo, desaparecido cedo, demasiado cedo, e que com certeza gostaria de ver esta casa cheia e por esta causa que aqui nos traz. No filho, Marco Melo, saudamos a memória do Pai.
Vínhamos e vimos aqui para o cafezinho? Claro!
Mas para muito mais que isso. Aqui conversamos, aqui lemos, aqui namoramos, aqui conspiramos. E entre o cimbalino e a conversa, crescemos e convivemos, esse verbo tão necessário hoje como ontem… mais hoje que ontem, apetece-me dizer.
Ao amigo e Senhor Óscar Melo, os nossos parabéns e o nosso agradecimento por nos abrir as portas todos os dias e, em particular, hoje, para uma sessão especial e inovadora que pensamos no futuro repetir.
Saúdo de passagem o Jorge Pinto, o Alexandre, o Agostinho e todo o restante pessoal do Café, pacientes e simpáticos amigos que nos servem.
Estou certo que todos os frequentadores desta casa, os idos e os presentes, estão contentes pela injecção de acção e memória que esta apresentação traz.
Recordo de imediato um ilustre visitante: o António Rebordão Navarro e, soletramos as suas palavras aquando de umas festas de S. Bartolomeu, pela voz do Álvaro Cardoso

(Leitura de um texto de A. R. Navarro, por Álvaro Cardoso)


e mais alguns perfis intelectuais - foram tantos! -, o Vasco Graça Moura, o Domingos Pinho e muitos outros conhecidos por isto ou aquilo, a Rosa Mota, Fernando Gomes, Miguel Cadilhe, o Zé Vilela, Artur Santos Silva, Carlos Lança, Belmiro de Azevedo, Pinto da Costa, Torres Couto, etc. (aliás referenciados muitos aqui no artigo de Raul Simões Pinto e Cláudia Sanhudo) que aqui ganharam com certeza alento para a vida e para obras futuras.
Hoje, o que nos junta é mais do que uma apresentação do livro do Inácio. Hoje comemoramos a nossa vida nesta terra. Nós, os daqui e os que vieram depois (foi e será sempre assim), e os que passam – que seria desta terra sem os que passam? Os de fim-de-semana, os que vinham a banhos, os que instalam aqui seus negócios.
E falo desta terra e falo, portanto, do livro do Inácio. São a mesma coisa.
O livro é uma recordação daqueles que cita e dos que não cita, porque o Inácio não podia falar de todos… e eu também não posso. Todos são muitos, meus caros!, e nem eu quero aqui ao lembrar uns se diga que esqueço outros.
Nuns… estão todos.
Porque, por exemplo, se falar de Domingos Sousa, irmão do nosso autor, é impossível que, com sentimento, não recorde muitos outros: o Nelinho, o Quim Viana, o António Reis, o Paulino.
Se falar do mar é recordarmos todos os banheiros magníficos destas nossas praias, é falar do Rui Picarote Amaro, cronista da Barra da Morte, e de outros Picarotes, o pintor da Foz, que semeou a Foz em telas, e mais um, o Joaquim, o relançador das festas de S. Bartolomeu.
Falar do Fernando Lereno é como falar de todos os Fragatas.
Se falo do Penafort Campos, como não recordar a Cooperativa da Foz, o José Augusto de Castro, um herói, o Pires Baptista, o meu Pai… o Joaquim Valonga que tantas dores de cabeça nos deu… algumas vezes com razão?
Se falo do Monteiro, como não lembrar o Fernandes, o António Morgado, o Lino Santos?
E dos vivos – felizmente – as centenas de pessoas do comércio, destas casas que cruzamos em passeios cheios de gente. Dos condiscípulos das escolas (da Feira, da 85 – a Reis, como dizíamos, da D. Alzira, da D. Cândida, da Violetinha), das associações da Foz, a Academia de Danças e Cantares, O Paraíso da Foz, O Orfeão, a Escola Dramática, a Banda Marcial, a Associação da Pasteleira, o Luís Marinho, os Pauliteiros de Nevogilde, o F. C. da Foz, o Tennis da Foz, o Centro Social, a JOC, e… espero não me ter esquecido de nenhuma (Há ainda as desaparecidas, o União da Foz, os Merengues, e outros). Tanta história para fazer!

(Leitura de um texto do livro, por Carlos César)
“Esta rua era a “passerelle” da Foz. Era aqui que eram feitas
grande parte das compras do dia-a-dia. Era aqui que a maioria
das pessoas se encontrava para um simples, mas sincero “bom
dia”, para uma troca de palavras mais alongada, para falar sobre
o tempo, sobre a vida, uma boa ou má notícia, sobre elas próprias
ou sobre alguém, amigo ou conhecido.
Podemos afirmar sem exagero e até com certo orgulho que,
naquele tempo, nesta parte da nossa freguesia, toda a gente se
conhecia. A vivência era intensa e havia uma certa cumplicidade,
mesmo até entre pessoas de estratos sociais e níveis etários diferentes.
Havia respeito, mas não submissão.”
Diz-nos o Inácio neste trecho, lido pelo Carlos César, aquilo que todos nós sentimos da infância até agora.
Jogar futebol na rua e descalços, mas ir aos arraiais do Colégio Inglês; ir ao estádio da Ervilha apaparicar o árbitro (e, pior ainda a Senhora sua Mãe) e ir às matinées do Au Rendez-Vous d’Elite; respeitosamente estar na Missa do Galo e rasgar vestidos de papel no S. Bartolomeu; espreitar as envergonhadas minhotas e durienses na praia e pegar na Cruz no Compasso; comprar tules no Morgado e línguas-da-sogra no Caneiro; e por aí adiante.
Podíamos não gostar do perfume da senhoreca passante ou do sovaco do trolha – que bons tempos tive! – mas a convivência era a lei, o conhecimento mútuo o alicerce.
Outros assuntos, tratavam-se noutros palcos.
A Rua era Nossa, de todos.
É também isto o A Minha Foz e Eu.
O quadro conhecemo-lo de cor. Recordámo-lo como se fosse hoje e lamentámo-lo como sendo de ontem. São os nossos mortos que desfilam perante nós. A emoção é grande, vai pelo menos do Castelo ao Gilreu, e aqui o poeta tem toda a razão: “ó mar salgado, quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal”. Mas apetece-me (e Fernando Pessoa que me perdoe) dizer…
“ó mar salgado, quanto da tua voz, são lágrimas da nossa Foz”.
Este livro chora. Connosco!
E, com a voz do Óscar Oliveira, lembramos o tom do nosso, mesmo nosso, Mestre, o grande Raul Brandão
(Leitura de um texto de Raul Brandão, por Óscar Oliveira)
É que o autor deste livro traz-nos a Foz integral, como o saudoso pão da Modelar.
Não estou aqui para substituir a vossa leitura (e a vossa compra, pois sem ela, a vossa compra, não haverá mais livros sobre a Foz e mais momentos como este) e o prazer que ides ter ao folheá-lo.
Este livro é essencialmente de pessoas (e por isso faz parte da colecção Pessoas). O autor procede, fruto de memória e de inquérito trabalhoso, a um inventário minucioso dos habitantes deste grande quarteirão (da Senhora da Luz, de S. Bartolomeu, da Praia e adjacentes), porta a porta, ilha a ilha, palacete a palacete.
“Olha este! Já nem me lembrava dele!”, dissemos nós na primeira vista d’olhos. E dessa até à última, foi sempre a lembrança e o coração “a bombar”, como se diz hoje.
Saudosistas? Claro, como o grande Pascoaes que entendia a saudade como motor para novos e maiores feitos e não como fado para carpir.
Desses tempos, diz-nos o Inácio, pela voz da Beatriz:
(Leitura de um texto do livro, por Beatriz Pinto da Silva)
“Eram dias felizes, de um são convívio e constante entre todos.
Não tínhamos telemóveis, mas tínhamos contacto pessoal diário.
Não telefonávamos. Íamos a casa uns dos outros.
Os nossos pais, ou mães, não nos levavam à escola. Passávamos
pela casa de cada um e íamos em grupo de três ou quatro.
Não dominávamos, porque ainda não existiam, os comandos
da televisão, do MP3 ou os ratos dos computadores, mas tínhamos
criatividade, porque éramos nós quem fazia grande parte dos brinquedos
que utilizávamos.
Não tínhamos os jogos de computador, que “obrigam” as crianças
de hoje a ficarem sós durante horas em casa, mas fazíamos jogos
em que quase todos participavam e que nos divertiam imenso.
Não éramos só nós, individualmente, mas um grande grupo.”
Este sentido colectivo sempre realçado na obra leva também o necessário condimento do elogio aos que se destacam, aos que cumprem mais que o seu dever e se entregam a nobres causas solidárias ou servem a comunidade com os seus haveres.
Fala-nos, por exemplo, do patriarca Biltes, herói salvador de muitas vidas junto do farolim aos Pilotos, de Eduardo Honório de Lima, dono do Teatro de S. João.
E por falar em teatro, Inácio Sousa desvenda nesta obra o mistério do Teatro Vasco da Gama. Sim, esse que deu o nome à rua, e cujo proprietário tinha dado também nome a outra rua, a do Gama, actual Rua do Diu.

Mas há mais. O profundo respeito pelas pessoas e instituições não impede um queixume, o sentido crítico …
(Leitura de um texto do livro, por Emília Parente)
« O tempo passa e as coisas transformam-se por vezes para
pior, e na década de 60 do século passado, construíram aquela
coisa chamada de Rua Coronel Raul Peres, cujas obras se prolongaram
por quatro ou cinco anos. E podemos dizer com amargura,
com tristeza profunda, com um sentimento de enorme frustração,
que uma parte muito pitoresca, muito querida da nossa Foz, ficou
ali sepultada para sempre debaixo daquela imensa massa de betão.
Ficaram entaipadas aquelas casas com aquele enorme bloco
de cimento tornando-as sombrias, e cinzenta a paisagem defronte
às suas portas e às suas janelas.
Desapareceu o muro sobranceiro à praia onde nos sentávamos
para conversar, para aguardar a nossa vez de entrar num jogo
de futebol ou outro jogo qualquer. Desapareceu a Rua da Praia
da qual olhávamos as praias, a areia dourada, o mar sereno ou
revolto com os seus vagalhões enormes desfazendo-se em espuma
contra a penedia. Hoje está transformada numa simples viela, num
caminho de serventia.”
E mais à frente o cómico das situações pelas quais todos passámos… mais ou menos:
(Leitura de um texto do livro, por Agostinho Pereira)
“Um dia, onde mudavam a agulha defronte ao Castelo, saltei
para o estribo da porta de trás e lá ia todo contente até à Escola.
O eléctrico começou a ganhar velocidade e o cobrador saltou da
porta da frente e correu na minha direcção. Aflito também saltei,
mas de tal modo que dei uma cambalhota e bati com a nuca no
chão. Fiquei de tal forma desorientado que ao levantar-me em vez
de fugir para o lado contrário, corri foi em direcção ao cobrador.
Agarrou-me, deu-me um raspanete e queria levar-me preso. Chorei,
disse que não voltava a fazer, e ele lá me deixou ir embora.
Mas menti-lhe, porque no dia seguinte voltei às “beguinhas”. Era
tão bom ir de carro eléctrico até à Escola.”
E relata-nos ainda o autor, em passagens simples mas impressivas, as experiências profissionais. Sempre, mas sempre, grato a quem o ajudou e ensinou…
(Leitura de um texto do livro, por Zé Marques)
“Fiz o exame da 4.ª classe em 16 (?) de Junho de 1956 com
a média de 14 valores. Como “prémio”, tive três meses de férias.
E como “prémio” ainda maior, comecei a trabalhar (necessidade a
quanto obrigas) na Ourivesaria Sousa, em 9 de Setembro de 1956,
com a “bonita” idade de 10 anos, quando ainda devia andar a brincar
com brinquedos que não tinha.
Devo dizer-lhes que tenho muito orgulho de ter trabalhado
nesta casa perto de dezasseis anos, e creiam que apesar de ser
ainda um garoto quando aqui entrei, e dos ralhetes e tabefes que
levei, foi dos melhores períodos da minha vida, por aquilo e da forma
que aprendi, pela formação, educação e noção de valores que
me foram transmitidos e que ajudaram a formar o meu carácter.
Permitam-me agradecer ao Sr. Eduardo Sousa, aos filhos
António e Licínio (principalmente), e aos meus oficiais, José Coimbra
e Rochinha (uma referência)”
Caminhamos para o fim. As palavras de Agustina Bessa-Luís, pela voz de Álvaro Cardoso

(Leitura de um texto de Agustina Bessa-Luís, por Álvaro Cardoso)


E de novos caminhos estamos precisando.
Esta nossa Foz precisa de mais histórias, de mais heróis, de mais livros, de mais Inácios. Precisa para além disso, de vós todos.
E usando versos de José Valle de Figueiredo
“De que demanda se parte
ao iniciar-se um novo descobrimento?”
Nem títulos, nem haveres, nem pareceres, a demanda é só uma, aquilo que se encontra ao ler este livro do nosso Inácio Sousa: a felicidade, que é o que vos desejo a todos.
Agradeço a vossa paciência e atenção.
Joaquim Pinto da Silva

15 de julho de 2015

Oh heresia!


"Muitos acreditaram que a novidade residia na forma das ideias e não nas ideias mesmas, falta oriunda da miserável educação filosófica recebida" (Sampaio Bruno, A Geração Nova, pp. 23, 1a ed., 1886).
E se o genial e ignorado Bruno acerta, mais uma vez, e se o articulista (a quem estimo pelo que li) tem demonstrado a seriedade, política... e literal, que tem faltado ao PS, o artigo cai no enraizado erro que estrangula a sociedade portuguesa: o de pretender unir o que é repulsivo entre si, e ainda bem.
Como é possível unir aquela “massa” heteróclita sem que antes eles todos respondam a questões fundamentais de política pura, que os dividem inexoravelmente, por exemplo: quem defende a propriedade privada? Quem é na hierarquia administrativa funcional, mais importante, o cidadão ou o Estado? O Estado, e os seus funcionários (políticos e administrativos) devem ter preponderância sobre o cidadão (contribuinte também)? Qual a posição a ter perante governos como o de Chavez, de Bush, de Khadafi (para falar só dos defuntos políticos)? e por aí adiante…
Por isso, bendigo as desavenças eternas entre a nossa “esquerda”. É que há muita gente generosa, culta e socialmente útil nesses meios misturada com emblemados de lapela que se autoconvenceram de uma superioridade que não merecem.
E, ao contrário do articulista, creio que para se encontrar uma caminho de progresso, de transformação, de emancipação do trabalhadores (e dos outros), é necessário cortar de vez com esta metodologia de pôr a “forma das ideias” à frente destas.
Discutam-se as ideias. Filosofe-se, primeiro. Depois se verá!

(isto a propósito de:

http://www.jn.pt/opiniao/default.aspx?content_id=4678986 )

26 de junho de 2015

Arte Bruta, a quem apoquenta?

(artigo publicado no As Artes Entre as Letras de 15.5.2015)

A solo, ausentes do mundo, sem objectivos outros que o gozo próprio, a sua solidão, o seu êxtase terapêutico, o artista – sem o saber e sem o querer – elabora o seu trabalho.
Essa sua obra, alfa e ómega em si mesma, ficará esquecida, guardada em armários e arcas de caves e sótãos, até alguém, por um acaso, a encontrar e … a deitar ao lixo, ou as analisar, as valorizar, as expor, introduzindo-as num circuito, de que não faziam parte, por inconsciente olvido ou voluntária discordância.
Que fique claro: o “artista bruto” (e o singular, em larga medida) não rejeitam o circuito cultural habitual, com a componente comercial como essencial, por vontade declarada. Simplesmente não o considerou, para ele não existia. Haverá forçosamente nas suas obras presença da “cultura” do tempo, por convívios mil, mas não há a pretensão de nele entrar, de colaborar. São franco-atiradores, não têm exército, existem sem alvo e sem inimigo.
Da mesma forma não se pode falar de transgressão na Arte Bruta, porque para transgredir necessário seria pertencer ao sistema que se transgride ou nele participar. Ora os artistas “brutos”, e muitos dos singulares, não estão no sistema, nascem e vivem fora dele.
Cada obra de Arte Bruta é um programa próprio, sem conceito de partida exaustivamente pré elaborado, é um universo em si: não depende, não implica continuidade, não dá seguimento. Ela “materializa uma realidade íntima, secreta, sem busca de reconhecimento, sem se importar com o olhar do outro, muitas vezes mesmo com o desejo de manter a obra clandestina, secreta, selvagem.” (Colin Cyvoct)
Em certa medida a Arte Bruta é um retorno à génese da arte, ao seu dealbar: um solitário, com os meios à disposição, transpõe em tela ou em objecto o que ressente interiormente, o que lhe vem à ideia, em exercício individual – sempre! – destinado apenas a si mesmo, a nada exógeno, portanto.
Estes “inexistentes”, estes “criadores na sombra” (Christian Berst) estão, no entanto, a provocar enfim uma revivificação da arte ocidental. Pelo seu talento, pela sua ousadia irreflectida, a sua criatividade inata, não apenas têm ganho um lugar no concerto universal das artes como também, e sobretudo, constituem uma fonte inesgotável de desafio e de inspiração para todo outro artista dedicado, formado, profissional.
Compreende-se enfim que face à importância crescente da Arte Bruta no mundo das artes, do que ela representa em termos de renovação e de, involuntário mas real, “mise en cause” das correntes artísticas dominantes, estas reajam pela indiferença, pelo olvido, mesmo pelo desprezo.
Em Portugal, o asfixiante domínio da “vanguarda oficial”, composta por uma dúzia de artistas literalmente enriquecidos nos loucos e gordos anos 80 e 90, do século XX, limitou, empobreceu e manipulou o nosso panorama artístico.
Poucos por convicção e muitos por complexo subserviente e ignorância essencial transformaram aqueles nomes em monstros sagrados, intocáveis, cerceando novos talentos e monopolizando presenças museológicas e representações nacionais no estrangeiro. Os colaboracionistas interessados e interesseiros foram – e são! – galerias, críticos e jornalistas de arte, agentes públicos de museus, de direcções-gerais, diplomatas, de autarquias, etc.
Como poderiam eles aperceber-se ou dar importância (ou talvez sim) a uma categoria artística que repõe a criatividade e a genuinidade do talento no cerne da obra plástica?
Em França tem sido mais fácil. Não que os “oficiais” e os protegidos não existam também, mas a dispersão geográfica, a independência dos agentes e a sua capacidade crítica e autocrítica é garante de mais seriedade. Por cá, em 20 km quadrados concentra-se, endogamicamente, a nossa dita “intelligentsia”. Esta convive entre a maledicência invejosa e o elogio mútuo.
Não está em causa a qualidade evidente de muitas obras desses artistas , mas apenas a idolatria que fomentam e que os alimenta e o poder efectivo que detêm nos sectores da arte e que deveriam cultivar a independência.
A quantidade de artigos e referências que a Colecção Treger / Saint Silvestre provocou nos principais jornais e revistas franceses da especialidade é de salientar. É elucidativa e contrasta com o silêncio “nacional”.
Nós sabíamos. Nós sabemos!

Joaquim Pinto da Silva
(membro do Conselho Consultivo da Oliva Creative Factory)


21 de janeiro de 2015

Regionalizar aumenta a despesa?


Sobre este tema que partilhei no Facebook:

http://www.publico.pt/politica/noticia/costa-rui-rio-e-silva-peneda-defendem-avanco-da-regionalizacao-1682570

(resposta que dei a comentários que afirmavam que a regionalização traria mais despesa, logo mais impostos, e que pode servir para outros)

Bons amigos (Jorge, estás em boa companhia, o nosso simpático embaixador nos Países Baixos, e, é claro, que este nosso Embaixador também está, com um ilustre conterrâneo do nosso Nobel da medicina),
Pois o argumento de ambos é conhecido. Com a honestidade devida, até porque é o país que está em jogo, devo dizer que não tenho os fundamentos técnicos finais que me permitem assegurar firmemente que com a regionalização não haveria mais despesa pública.
Poderia responder como muitos: não sai mais caro! e, disso estando convencido, necessito todavia de mais informação.
O que posso dizer, e alguma coisa conheço do assunto, por interesse próprio e por aprendizagem na vida profissional, é que muita da despesa, muitíssima, do actual Estado centralizado e centralista desapareceria e que uma regionalização implicaria uma reforma do Estado global. Seria uma regionalização e, indispensável, uma descentralização de serviços e meios.
A regionalização foi inscrita na aprovada Constituição de 1976. O actual quadro partidário que se apoderou do aparelho de Estado necessita de uma reforma profunda e eu vejo a regionalização como mais uma maneira de o libertar dessa usurpação.
Por outro lado, alguns, demasiados, exemplos de autarcas gastadores e tiranos conviveram sem fricções com esse Estado que os “comprava” com a negligência do “deixar andar” em muitos exageros locais. Recordo, com pesar, e como exemplo do lado pior do poder local, sem um coordenador regional, algumas piscinas municipais (algumas hoje abandonadas), centros “culturais”, equipamentos sociais, meios e redes de transporte, etc., que apenas foram realizadas pela “lonjura” do Estado central e pela inexistência de poderes regionais capazes de racionalizar investimentos.
O grande, e propositadamente esquecido (como se tivéssemos muitos!), filósofo português, Leonardo Coimbra, em 1926, dizia que o caciquismo local era um produto directo do centralismo do Terreiro do Paço.
E é isso mesmo, sustentam-se um no outro. É isso que a regionalização poderá inverter.
Quanto ao municipalismo, resposta histórica que serviu “in illo tempore” para organizar o país quando a capital era longe e as comunicações parcas, ele é hoje ineficaz, tendo em conta a nova situação nas comunicações e a desertificação do interior. Além disso, fica ao critério das autarquias, que eliminam aqueloutras menos poderosas em habitantes e meios.
Os antirregionalização prometeram, durante a malfadada proposta de 98, descentralizar o país. Poderiam tê-lo feito até em temas mínimos, p.e., como alvitrou um meu ex-colega, nomear os Presidentes das CCDR como Secretários de Estado, mas nem isso.
O país afunda-se, a corrupção em larga escala cresceu, porque também (repito, também) os actores da mesma convivem em circuito fechado (almoçam, jantam, bebem copos, passam férias, casam-se, fundam ou cooperam com os mesmo bancos, banqueteiam-se em sociedades de advogados, gerem as Ordens, conspiram de avental e em Obras, etc. ) tudo num raio de 50 km da rotunda do Marquês, numa endogamia social aviltante e prejudicial ao país. Conhecem-se todos, desconhecem o país de quem apenas precisam para os impostos e como cenário para a traficância.
Alguma coisa tem de se fazer… a regionalização é uma.
Um abraço aos dois.